Conforme noticiado anteriormente pelo O Brasilianista, o governo está lançando o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que tem o objetivo de desmembrar todas as bases operacionais, econômicas e sociais das organizações criminosas em todo o território nacional. De forma geral, o programa foi construído a partir do diálogo com os próprios estados brasileiros, forças de segurança e especialistas.
Quatro eixos estratégicos serão trabalhados no programa, sendo eles: fortalecimento da segurança no sistema prisional; qualificação da investigação e do esclarecimento de homicídios; combate ao tráfico de armas; e asfixia financeira das organizações criminosas. Diante disso, nota-se que o crime organizado deixou de ser um problema político e, nos últimos tempos, se tornou também um grande problema econômico.
O crime organizado como um problema econômico
Em uma entrevista exclusiva para O Brasilianista, César Bergo, economista, sociólogo, professor de Mercado Financeiro da UnB, conselheiro do Corecon DF e sócio diretor da OpenInvest, falou sobre como essas organizações criminosas adquiriram mais influência nos mercados econômicos.
“No decorrer do tempo, essas atividades criminosas deixaram de confrontar a polícia, com assaltos e roubos, e adquiriram uma capacidade muito grande de influenciar as instituições de Estado, através de escritórios de contabilidade, escritórios de advocacia, um preparo técnico. E, obviamente, criou-se um mecanismo de fortalecimento econômico, onde esse poder econômico acaba atuando de uma maneira estratégica na consecução dos crimes”, explica.
Ainda sobre o assunto, o economista afirma que as organizações passaram a controlar diversos setores de atividade econômica e também agindo com influência nas eleições por meio de métodos consideravelmente agressivos.
“Então, passaram a controlar vários ramos de atividades econômicas, também influenciar nas eleições com compra de candidatos, financiamento de pessoas para serem eleitas. E com métodos também ainda bastante agressivos, vamos dizer assim, como intimidação de comerciantes, estabelecimento de cobrança e corrompendo agentes públicos também. E passaram também a operar internacionalmente. Então, esse é o desenho que observamos hoje”, completa.
Consequências
Diante desse cenário, o especialista destaca alguns fatores prejudiciais para a economia brasileira diante desse controle do crime organizado, como o comprometimento da estabilidade institucional e distorções na arrecadação de tributos.
“Passa a comprometer toda a estabilidade institucional, gera distorções também na arrecadação de tributos, com sonegação, com estratégia de orientação tributária, geralmente pautadas em práticas nocivas. Estabelece também, em função do seu trabalho, às vezes, no comércio, uma concorrência desleal visando inviabilizar as atividades comerciais legais. E o comerciante também se vê pressionado, às vezes, por essas milícias”, disse o economista.
Insegurança por parte das empresas
Como resultado desse cenário, as empresas acabam criando certa insegurança em instalar ou ampliar o seu negócio em áreas com essas características, justamente pelo risco de comprometimento das atividades que ocorrem.
“Essa percepção de insegurança, com certeza, influencia nas decisões de investimento corporativo. As empresas evitam atuar em regiões com tais características. Não só em função do risco operacional, você tendo que montar uma estrutura, também você tem roubo de cargas, tem sequestros, extorsões, cobranças intimidatórias, e acaba, de alguma forma, comprometendo todas as atividades. Então, obviamente, uma atividade criminosa não tem escrúpulo, ela vai agir fora dos padrões de ética. E as empresas têm essa percepção e, muitas vezes, evitam, inclusive, investir. Portanto, o ambiente protegido, vamos dizer assim, acaba sendo favorável aos investimentos”, afirma o especialista.
Aliado a isso, o sociólogo explica que essa atividade criminosa é muito recorrente em comércios com uma grande quantidade de dinheiro, principalmente pelo fato da dificuldade de rastreio do mesmo, como é o caso dos jogos de azar e postos de gasolina.
“A atividade criminosa procura atuar em comércios que têm grande quantidade de dinheiro, porque os negócios digitais são rastreáveis, e o dinheiro é difícil rastrear. Então, você vai ver postos de gasolina, igrejas também fazendo atividade de mineração ilegal, nas atividades de jogos de azar. Você vai vendo a característica, também envolvendo imóveis, onde você atribui valores elevados a determinados imóveis que, realmente, você olha e fala: não vale isso”, afirma.
Medidas a serem tomadas
Segundo o especialista, há a necessidade hoje em dia de uma cooperação internacional, considerando o fato de que o crime não fica apenas nas fronteiras. Além disso, o sistema prisional também é citado como algo a ser melhorado.
“Hoje, a gente tem a impressão da necessidade de uma cooperação internacional, porque o crime não fica só nas fronteiras. Aqui no Brasil mesmo tem a questão dos estados. O crime, geralmente, já está sendo percebido que atua de forma nacional, mas hoje não é só nacional, é internacional. O sistema prisional também deve ser, de alguma forma, estudado para efeito de uma melhora. Não tenha dúvida de que a inteligência financeira, para você cortar a forma de financiamento dessas estruturas criminosas, é fundamental”, afirma.
César Bergo ainda fala sobre funcionários do Banco Central que ofereciam serviços para os criminosos, mostrando que o fortalecimento do servidor público como uma forma de proteção a sociedade é uma questão importante.

