Na semana passada, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal destinados ao consumo humano para o bloco. A medida, prevista para entrar em vigor no dia 3 de setembro, pode impactar o setor de agronegócio brasileiro.
No entanto, Tiago Velloso, economista formado pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), avalia que esse é um problema relevante, mas administrável, sobretudo porque o Brasil tem escala, competitividade e mercados mais importantes na sua pauta.
“O ponto central é menos dependência comercial e mais reputação, custo regulatório e desgaste diplomático”, afirma o especialista.
Estão bloqueados para exportação os bois, cavalos, ovos, peixes, mel e aves. A UE justifica que o Brasil não mostrou as garantias suficientes sobre a utilização de antimicrobianos na criação de animais. A falta dessa regra sanitária estaria fora dos padrões adotados e necessários para o consumo na UE.
Mas essa ação é reversível e o Brasil possui boas chances de retornar a essa lista durante a próxima votação — sem data definida — desde que apresente as garantias necessárias.
O Brasil é um dos maiores exportadores do mundo de proteínas de origem animal e o principal fornecedor de produtos agrícolas ao mercado europeu. Em abril, o país registrou recorde nas vendas do agronegócio.
Ainda assim, a China permaneceu na liderança do principal destino dos produtos, com compras de US$ 6,6 bilhões em abril e participação próxima de 40% na pauta exportadora do setor. Por sua vez, a UE representou a segunda região que mais comprou produtos brasileiros, representando 14% da exportação no período.
Para Velloso, a leitura é de que a decisão da UE incomoda, mas não impacta de forma considerável o agro brasileiro.
“É um mercado relevante, claro, principalmente em proteína animal de maior valor agregado, mas nossa dependência é pequena quando olhamos o tamanho e a diversificação da pauta exportadora. O Brasil hoje tem parceiros mais importantes, e a China continua muito mais relevante para o agro brasileiro do que a Europa. Em 2024, a China comprou US$ 49,7 bilhões do agro brasileiro, enquanto a União Europeia ficou em US$ 23,2 bilhões no agregado do setor”, reitera.
No caso das carnes, o impacto existe, mas é concentrado. Isso pode pesar para empresas e cadeias mais expostas ao mercado europeu, “mas não dá para tratar como se a Europa fosse o centro da demanda da carne brasileira”.
Acordo Mercosul-UE pode estar prejudicado?
A questão sanitária do país vem sendo explorada no âmbito do acordo entre Mercosul e UE. Neste mês, o tratado começou a funcionar provisoriamente e segue por período indeterminado, até a avaliação final dos blocos.
Um dos maiores do mundo em livre comércio, o texto prevê redução de impostos para 91% dos produtos importados pelo Mercosul e 95% dos produtos importados pela UE, mas ele não se limita à redução de tarifas de importação e exportação.
Entre os países de principal oposição ao acordo, há a justificativa da qualidade sanitária de alguns alimentos. Os produtores agrícolas questionam se uma entrada em massa dos produtos do Mercosul poderia prejudicar a produção e o faturamento dos trabalhadores locais.
“Esse tipo de medida cria ruído, aumenta exigência técnica e dá munição para alas mais protecionistas dentro da Europa, inclusive no debate do acordo Mercosul-UE. Agora, não vejo isso como uma pancada estrutural no agro brasileiro. Vejo como um problema relevante, mas administrável, sobretudo porque o Brasil tem escala, competitividade e mercados mais importantes na sua pauta”, pondera Velloso.
Até o momento, a nova medida da UE não gerou impactos diretos na negociação do acordo.

