O debate sobre o fim da escala 6×1 tem ganhado força no Brasil e levantado dúvidas sobre os impactos econômicos e sociais de uma possível mudança na jornada de trabalho.
Em entrevista ao O Brasilianista, o cientista político e diretor executivo do Livres, Magno Karl avaliou os possíveis efeitos da proposta e afirmou que a discussão é mais complexa do que parece.
Quais são os impactos negativos da escala 6×1 no mercado de trabalho?
Magno Karl — A escala 6×1 tem uma característica bastante peculiar, que é levar o trabalhador ao limite da sua capacidade de performar bem na sua função. Há estudos que já relacionam o cansaço à perda da capacidade de pensar bem, de ser criativo, de atuar nas funções específicas do trabalho, além da degradação da relação familiar.
Então, há uma série de impactos negativos decorrentes de um regime de trabalho que reserva ao trabalhador apenas um dia de descanso.
Há contextos que acabam justificando a permanência desse tipo de regime, mas não é surpresa que o tema tenha ganhado destaque internacional nos últimos anos, justamente pelo aumento das informações sobre seus efeitos.
Uma mudança na escala poderia encarecer a força de trabalho?
Magno Karl — Se houver uma tentativa de modificar a legislação sem um aumento correspondente de produtividade, a tendência é o encarecimento da força de trabalho.
Em geral, quando há ganho de produtividade, isso compensa a redução do tempo de trabalho. Sem isso, há perda para a produção do estabelecimento e para o que é ofertado.
O impacto seria positivo ou negativo na economia brasileira?
Magno Karl — Essa é uma discussão ainda muito viva. O impacto depende muito das características da economia brasileira, que tem grande parcela de trabalhadores informais e também pessoas atuando como pessoa jurídica.
É uma mudança que não é simples de avaliar, porque envolve efeitos diferentes em setores distintos. Ao final, é algo que provavelmente só será compreendido de forma mais clara no médio prazo.
A economia brasileira poderia “quebrar” com o fim da escala 6×1?
Magno Karl —Dificilmente a economia brasileira quebraria com o fim da escala 6×1. Ao mesmo tempo, também dificilmente o ganho de bem-estar será tão alto quanto alguns defendem.
A maioria dos trabalhadores brasileiros não está na CLT ou nessa escala específica, então o impacto geral tende a ser mais moderado.
Os melhores números mostram que a economia conseguiria absorver a mudança sem ruptura, mas os efeitos devem ficar no meio do caminho: nem tão positivos quanto os defensores esperam, nem tão negativos quanto os críticos afirmam.
O debate envolve mais do que apenas jornada de trabalho?
Magno Karl — No final das contas, os impactos tendem a ser proporcionais na economia. É preciso pensar não apenas no modelo 6×1, 5×2 ou 4×3, mas no total de horas trabalhadas por semana — qual é, de fato, o pacote de horas que está sendo cumprido.
Hoje, muitos ambientes de trabalho já oferecem mais flexibilidade na organização da jornada. Em vários casos, o trabalhador tem uma carga semanal definida e pode distribuir essas horas ao longo dos dias, conforme a dinâmica da função.
Isso reflete uma tendência de modelos mais flexíveis, em que a estrutura rígida da escala vai sendo substituída por diferentes formas de organização do tempo de trabalho.

