Publicidade
Geopolítica

Vistos de imigração aos EUA recuam e o impacto pode ser maior ao PIB americano

As medidas do governo Trump ajudaram a reduzir a presença de imigrantes no país

Vistos de imigração aos EUA recuam e o impacto pode ser maior ao PIB americano

Há quase 500 dias como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump é conhecido por suas constantes falas anti-imigração e seu governo implementou medidas desde cedo para impedir a entrada de imigrantes ao redor do mundo, como aumento de taxas, proibições de entrada a cidadãos de países selecionados, verificação de redes sociais, entre outros.

Publicidade

Além disso, Trump também acelerou a retirada de imigrantes ilegais com ações do ICE (Immigration and Customs Enforcement, da sigla em inglês, a imigração de alfândega dos EUA), observando uma queda constante de emissão de vistos e saída daqueles nascidos em outros países.

Compilado realizado pelo Washington Post mostrou que os EUA emitiram cerca de um quarto de milhão de vistos a menos nos primeiros oito meses de 2025 em comparação com o mesmo período de 2024. De janeiro a agosto de 2025, o Departamento de Estado aprovou 11% menos vistos de residência permanente e temporários em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Boa parte desses documentos são emitidos para estudantes, trabalhadores e familiares de cidadãos e residentes legais. A queda de 11% não inclui os vistos de turista, que também diminuíram no mesmo período.

Segundo Caroline Azevedo, advogada licenciada nos Estados Unidos e especializada em imigração e mobilidade internacional da Visa Finder, esse recuo está ligado a uma série de medidas adotadas pelo governo Trump, como restrições de viagem, suspensão de entrevistas consulares, aumento no tempo de espera, redução de equipes nos consulados e queda expressiva na emissão de vistos de estudante (F-1).

“Além disso, o discurso mais rígido em relação à imigração acabou funcionando como um fator de desestímulo para quem pretendia estudar, trabalhar ou investir nos Estados Unidos”, afirma.

Por outro lado Larissa Salvador, advogada de imigração nos EUA e fundadora da Salvador Law, revela que, em determinadas categorias, o efeito foi justamente o contrário.

“Muitas pessoas passaram a acelerar processos migratórios por receio de futuras restrições. Ou seja, o impacto não foi uniforme. Categorias ligadas a turismo e intercâmbio sentiram mais instabilidade, enquanto áreas estratégicas, como imigração por investimento, imigração empresarial e vistos de talento, continuaram registrando forte procura”, indicou Salvador.

O grande problema desse recuo significativo de emissão de vistos, segundo as especialistas, é o impacto gerado a alguns setores da economia, principalmente aqueles que dependem de mão de obra especializada, turismo internacional e investimentos estrangeiros.

Redução dos vistos diminui o PIB americano

O impacto é amplo e afeta diretamente a economia americana. Uma análise do World Travel & Tourism Council (WTTC), publicada em maio do ano passado, projetava que os Estados Unidos seriam o único país entre 184 economias avaliadas a registrar queda nos gastos de visitantes internacionais em 2025. A estimativa era de uma perda de US$ 12,5 bilhões, atribuída, em grande parte, ao endurecimento das políticas migratórias e de vistos.

“O setor de viagens movimenta cerca de US$ 2,9 trilhões do PIB americano e sustenta quase um em cada dez empregos no país. Quando há retração no fluxo de visitantes, o efeito chega rapidamente a hotéis, restaurantes, companhias aéreas, transporte, comércio e serviços locais”, explica Azevedo, da Visa Finder.

Outro setor afetado é a educação. Os EUA recebem milhares de estudantes anualmente para participar de escolas e universidades americanas, seja em cursos rápidos ou de longa duração. Um afastamento desse grupo gera forte impacto do investimento que essas pessoas poderiam levar ao país.

A NAFSA, associação que representa educadores internacionais nos EUA, estimou que a contribuição econômica dos estudantes estrangeiros caiu US$ 1,1 bilhão apenas no outono de 2025, com reflexo direto na perda de aproximadamente 23 mil empregos. Caso a redução nas novas matrículas internacionais chegue entre 30% e 40%, as projeções indicam perdas próximas de US$ 7 bilhões e mais de 60 mil empregos no país.

“Na prática, há uma contradição, pois ao restringir a entrada de estudantes, turistas e investidores, os EUA acabam reduzindo justamente a atividade econômica e os empregos que o próprio governo afirma querer proteger”, avalia a advogada.

“Cartão de Ouro” de Trump reprovado por imigrantes

No ano passado, Trump lançou um novo tipo de visto, buscando atrair os super-ricos: o Gold Card, ou cartão de ouro na tradução livre. A proposta previa uma contribuição de US$ 1 milhão, mais taxas de processamento de US$ 15 mil, para que estrangeiros pudessem ter seus pedidos de residência nos Estados Unidos acelerados.

Uma contagem recente mostrou que apenas uma pessoa que aplicou para esse documento teve seu visto aprovado, como contou o Washington Post.

Salvador, da Salvador Law, explica que o ainda é cedo para medir o impacto real dessa nova medida.

“Até o momento, conseguimos avaliar apenas a apresentação da proposta, sem clareza sobre como ela será implementada na prática. Hoje, o principal programa oficial semelhante continua sendo o EB-5, que já existe há décadas”, afirma.

Nessa opção de visto — dentre mais de 120 tipos de visto aos EUA — o investidor pode buscar a residência permanente nos EUA por meio de um investimento qualificado, atualmente a partir de US$ 800 mil em determinadas áreas, podendo chegar a cerca de US$ 1,05 milhão. Uma das grandes vantagens do EB-5 é que ele contempla não apenas o aplicante principal, mas também cônjuge e filhos de até 21 anos dentro do mesmo processo.

Já no caso do Gold Card, uma das principais diferenças é que não existe, pelo menos até o momento, a possibilidade de inclusão familiar em uma única aplicação. Ou seja, seria necessário fazer um pedido individual para cada membro da família, o que tornaria o processo significativamente mais caro.

No entanto, no cartão de ouro, não existe exigência de geração de empregos, aplicação em negócios ou participação em projetos econômicos. O recurso é direcionado diretamente ao governo americano.

“Uma das críticas mais frequentes ao programa é justamente o fato de ele não estimular atividade econômica da mesma forma que o EB-5. O debate gira em torno da seguinte questão: vale exigir um aporte maior se o modelo não gera empregos nem incentiva novos negócios?”, pondera Azevedo.

Hoje, o Gold Card está ativo e aceitando pedidos, mas ainda existe cautela no mercado jurídico e migratório. Como foi criado por decreto executivo, o programa é visto como mais vulnerável a mudanças futuras. O programa segue vigente até setembro de 2026, quando o Congresso americano deverá votar sua renovação.

Enquanto isso, segundo as especialistas, o visto EB-5 continua sendo considerado uma alternativa mais estruturada para investidores que buscam previsibilidade jurídica e retorno financeiro.

Siga O Brasilianista nas redes sociais