O novo confronto militar entre Estados Unidos e Irã voltou a provocar tensão no mercado internacional de energia e ampliou as preocupações sobre possíveis impactos econômicos globais.
Durante a madrugada desta quinta-feira (28), forças americanas bombardearam uma instalação iraniana em Bandar Abbas, próxima ao Estreito de Ormuz, após interceptarem drones lançados pelo Irã. Horas depois, Teerã afirmou ter retaliado com um ataque contra uma base militar americana no Kuwait.
A troca de ataques acontece em meio às negociações conduzidas pelo presidente Donald Trump para tentar construir um acordo mais amplo de paz na região.
Mesmo assim, os confrontos voltaram a pressionar o preço do petróleo e reacenderam o temor de desabastecimento e inflação em diversos países.
Para o presidente do Sindicombustíveis-DF, Paulo Tavares, os efeitos podem atingir diretamente o consumidor brasileiro, principalmente por conta da dependência nacional da importação de diesel.
“Pode influenciar e muito, pois 30% do diesel é importado e se as distribuidoras não aderirem à subvenção da gasolina e principalmente do diesel, irá chegar ao consumidor”, alerta.
Estreito de Ormuz virou ponto crítico da crise
O Estreito de Ormuz voltou ao centro das atenções internacionais por concentrar uma das principais rotas marítimas utilizadas para transporte de petróleo e derivados.
A região conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e possui relevância estratégica para o abastecimento energético global.
O especialista em investimentos e negócios internacionais e CEO da B8 Partners, Beny Fard, explica que o conflito já compromete parte importante do escoamento mundial da commodity.
“O escoamento de 20 milhões de barris por dia se interrompeu há exatos três meses e isso faz com que haja um choque de oferta de petróleo e também dos seus derivados no mundo inteiro”, contextualiza.
Segundo Fard, o impacto sobre os preços começou ainda no início do conflito e passou a ser incorporado rapidamente pelo mercado financeiro internacional.
“O fato é que o mercado precificou esse choque de oferta e o barril do petróleo, que estava na casa dos 70 dólares antes do conflito, foi para a casa dos 110, 115 dólares”, detalha.
O barril do petróleo Brent voltou a subir após os novos ataques e se aproximou novamente da faixa dos US$ 100.
Diesel preocupa mais do que gasolina
Os efeitos da crise já começaram a atingir diferentes setores econômicos, especialmente transporte e logística. O diesel aparece como principal preocupação no Brasil por ter impacto direto no frete e no abastecimento nacional.
Tavares afirma que o aumento internacional do petróleo rapidamente afeta os preços internos por causa da política de paridade adotada no mercado brasileiro.
“O risco principal é o aumento do custo de paridade de preço internacional que irá afetar fortemente o diesel”, observa.
Além do transporte de cargas, a elevação do diesel também interfere nos preços de alimentos e produtos básicos, já que boa parte da distribuição nacional depende do modal rodoviário.
O dirigente do Sindicombustíveis avalia que o país pode precisar discutir mecanismos emergenciais para reduzir impactos econômicos caso o conflito se prolongue.
“A adoção de uma subvenção temporária ao diesel pode mitigar impactos imediatos sobre o frete e contribuir para conter a inflação”, projeta.
Segundo Tavares, o debate precisa ocorrer de forma pragmática diante da pressão internacional sobre energia e logística.
Brasil pode sofrer menos que outros países
Apesar da alta global do petróleo, especialistas avaliam que o Brasil possui algumas vantagens estruturais em relação a outros países mais dependentes de combustíveis fósseis.
Fard explica que o país aparece como um dos possíveis fornecedores alternativos para compensar parte da escassez provocada pelo conflito no Oriente Médio.
“O mundo acaba olhando para nós todos, aqui nas Américas, como uma alternativa a esse estrangulamento”, destaca.
Mesmo assim, o especialista lembra que o Brasil ainda enfrenta limitações importantes na capacidade de refino de derivados.
“Nós somos exportadores líquidos de petróleo, apesar de não termos capacidade de refino de diesel e combustíveis para suprir a demanda nacional”, contextualiza.
Tavares também avalia que a matriz energética brasileira ajuda a reduzir parte dos efeitos da crise internacional.
“Pela matriz energética o impacto é menor. Temos o etanol e uso intensivo de energia hidráulica e, ainda, crescente uso de alternativas como solar e eólica”, explica.
O dirigente ainda defende maior participação estratégica da Petrobras para amortecer possíveis altas nos preços internos durante momentos de instabilidade internacional.
Conflito amplia incertezas sobre economia global
Os novos ataques aumentaram as dúvidas sobre a possibilidade de uma solução diplomática rápida entre Estados Unidos e Irã. Donald Trump afirmou não sentir pressão política para acelerar um acordo, apesar da alta dos combustíveis nos Estados Unidos e do desgaste provocado pelo conflito.
Israel continua pressionando Washington por novas ações militares contra grupos apoiados pelo Irã no Oriente Médio, incluindo o Hezbollah, no Líbano.
Fard avalia que a continuidade da crise pode provocar novos episódios de instabilidade financeira e ampliar a pressão inflacionária em diversos mercados internacionais.
“Quando você tem uma menor oferta e a demanda é constante, os preços sobem”, analisa.
Segundo o especialista, o mercado internacional ainda tenta reorganizar fornecedores alternativos, mas enfrenta dificuldades para compensar integralmente a redução do fluxo no Oriente Médio.
“A conta não fecha, porque a gente ainda tem uma demanda maior do que a oferta escassa”, conclui.

