Os robôs humanoides avançaram rapidamente nos últimos anos e começam a sair do campo experimental para aplicações práticas em empresas.
A evolução levanta uma questão central sobre como essas máquinas já conseguem substituir o trabalho humano ou ainda estão longe desse cenário.
Segundo Rhikley Erick, engenheiro de computação formado pelo Instituto Federal de Goiás (IF/GO) e pós-graduado em cidades inteligentes pela PUC-RS, a tecnologia vive um momento de transição, com avanços relevantes, mas ainda com limitações claras.
“Os robôs humanoides são máquinas desenvolvidas para reproduzir parte da estrutura corporal humana e também certos comportamentos funcionais que usamos no dia a dia”, afirma.
De acordo com o especialista, a escolha por um formato semelhante ao corpo humano tem uma razão prática, já que o ambiente urbano, industrial e doméstico foi projetado para pessoas, o que exige que as máquinas se adaptem a essa lógica.
Avanço tecnológico muda cenário recente
Durante anos, os humanoides eram vistos como protótipos instáveis, com baixa capacidade operacional e pouca utilidade fora de demonstrações tecnológicas.
Esse cenário começou a mudar com a evolução da inteligência artificial e dos sistemas mecânicos. “Hoje estamos em uma fase de transição muito importante”, explica Erick.
Atualmente, já existem robôs capazes de executar tarefas como caminhar em terrenos irregulares, levantar objetos, organizar produtos e responder a comandos por voz.
Esses avanços foram impulsionados por melhorias em sensores, baterias e motores elétricos. Empresas como Tesla, Boston Dynamics, Figure AI, Agility Robotics e Unitree Robotics já operam projetos com foco comercial, indicando a entrada do setor em uma nova fase de desenvolvimento.
Substituição ocorre apenas em tarefas específicas
A capacidade de substituir trabalhadores humanos depende diretamente do tipo de atividade. Em funções repetitivas e previsíveis, a presença de robôs já é uma realidade crescente.
“Se estivermos falando de atividades repetitivas, previsíveis e estruturadas, a resposta é cada vez mais sim”, destaca Erick.
Segundo ele, setores como logística e indústria são os mais avançados nesse processo, já que envolvem rotinas padronizadas e menor necessidade de adaptação a situações inesperadas.
Em ambientes perigosos, como áreas contaminadas ou operações industriais de risco, os humanoides também ganham espaço por assumirem tarefas que colocariam vidas humanas em perigo.
Limites ainda impedem substituição ampla
Apesar dos avanços, a substituição total do trabalho humano ainda não é viável em grande escala. Profissões que exigem interação social, improviso e tomada de decisão em cenários complexos continuam dependentes de pessoas.
“Mas se falarmos em substituição ampla do trabalho humano, ainda estamos longe disso”, afirma Erick. Segundo o especialista, atividades em hospitais, escolas, restaurantes e serviços exigem leitura emocional e capacidade de adaptação que as máquinas ainda não conseguem reproduzir com precisão.
Esse limite também aparece em situações imprevisíveis, como atendimento ao público ou resolução de problemas em tempo real, onde o comportamento humano continua sendo mais eficiente.
Custo ainda é fator decisivo
Além das limitações técnicas, a viabilidade econômica é um dos principais obstáculos para a substituição em larga escala.
Para competir com trabalhadores humanos, os robôs precisam apresentar vantagem clara de custo ou produtividade.
Hoje, os humanoides ainda demandam investimento elevado, incluindo aquisição, manutenção e integração com sistemas empresariais.
Esse cenário faz com que a adoção ocorra de forma seletiva, priorizando setores com escassez de mão de obra ou maior retorno financeiro.
Previsão indica adoção gradual até 2035
A expectativa do mercado é de crescimento progressivo ao longo da próxima década, com expansão em setores específicos.
“Existe previsão de quando isso pode mudar. O que muitos analistas enxergam é uma adoção gradual entre 2026 e 2035”, afirma Erick.
Nesse período, os robôs devem atuar inicialmente como apoio operacional, trabalhando ao lado de humanos. Com o tempo, poderão assumir funções completas em turnos específicos ou áreas delimitadas.
Aplicações incluem centros logísticos, hotéis, hospitais e indústria pesada, onde a padronização das tarefas facilita a automação.
Disputa global define ritmo da evolução
A corrida pelo desenvolvimento de robôs humanoides envolve diferentes estratégias entre países. Os Estados Unidos lideram em inteligência artificial e investimento em startups, o que fortalece o desenvolvimento do software que controla os robôs.
A China se destaca pela capacidade de produção em larga escala e pela velocidade industrial, o que permite reduzir custos e acelerar a adoção.
O Japão mantém posição relevante com foco em robótica assistiva, impulsionado pelo envelhecimento da população, enquanto Coreia do Sul e países europeus avançam em automação industrial.
Mercado deve operar em modelo híbrido
A tendência para os próximos anos aponta para a convivência entre humanos e máquinas, com divisão de funções baseada em capacidades específicas.
“O cenário mais provável para os próximos anos não é um mundo substituído por robôs, e sim um mercado híbrido”, avalia Erick.
Nesse modelo, robôs assumem tarefas repetitivas, físicas ou de risco, enquanto humanos permanecem em funções que exigem criatividade, julgamento e interação social.

