O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira (03) que o governo brasileiro “não pode aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao País nesta semana” após a imposições de tarifas de 25% nos produtos brasileiros aos Estados Unidos, anunciados na madrugada da última segunda-feira (1º).
As apurações, iniciadas em 15 de julho de 2025 à pedido do presidente Donald Trump consideram a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 para aplicar as novas taxas, justificando que essa seria uma medida necessária visto que políticas e práticas do governo brasileiro são desarrazoados ou discriminatórios e oneram ou restringem o comércio dos EUA.
Essas práticas estariam relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais desleais; aplicação de medidas anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.
Lula discursou na abertura da reunião ministerial, criticando a proposta dos EUA. Ele indicou que ainda deve enviar outra carta ao presidente Donald Trump.
“Eu ainda vou mandar outra carta ao presidente Trump, vou escrever quantos artigos forem necessários escrever na imprensa americana e na imprensa mundial, para mostrar que eles estão errados, equivocados, e que estão induzindo o mundo a uma violência desnecessária”, disse.
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) também criticou o Pix, alegando que o modelo de pagamento instantâneo implica em práticas desleais e prejudicam empresas americanas.
Alckmin afirma que medida é “injusta” e põe “culpa” em família Bolsonaro
Na última terça-feira (02), o governo brasileiro disse que recebeu com indignação a proposta. O vice-presidente Geraldo Alckmin; o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa; e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmaram que o governo considera injusta a recomendação do USTR.
Alckmin também criticou as “manobras” realizadas junto ao governo dos EUA por representantes da família Bolsonaro e classificou a recomendação como “descabida”. O encontro entre Trump, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro na semana passada não foi bem visto pelos representantes do governo.
“O governo do presidente Lula vai trabalhar para que ela não se converta, para que ela não ocorra. É uma recomendação feita pelo USTR e o caminho é o caminho do diálogo, aliás, que já vinha ocorrendo. Mas sempre que o diálogo avança, infelizmente, falsos patriotas, sabotadores, prejudicam e colocam seus interesses pessoais e eleitorais acima do interesse do país e do interesse público. O caminho vai ser trabalhar, dialogar, para que elas não se convertam e mostrar todos os argumentos para a gente poder avançar mais”, disse o vice-presidente.
Brasil é país “não amigável” para EUA
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou também na última terça que o Brasil não é uma nação considerada amigável pelos EUA, se juntando ao grupo da Venezuela, Cuba e Nicarágua.
A fala também decorre da decisão dos EUA de categorizar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
“Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia —ou pelo menos de seu presidente, que tem sido problemático—, de modo geral trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA, de líderes amistosos aos EUA e de uma direção favorável aos interesses americanos”, disse Rubio sobre a América Latina.
Nota do governo
Também nesta terça-feira, o Governo manifestou via nota a “profunda discordância com a conclusão preliminar anunciada ontem (2/6) pelo USTR relativa à investigação da Seção 301 sobre proibições de importação relacionadas ao trabalho forçado penalizando indiscriminadamente 59 países e a União Europeia”.
“É um absurdo tentar associar a competividade da economia brasileira a insumos externos obtidos por meio de comércio que viole a dignidade humana”, completou ao garantir que no momento o país “se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade”.
E finalizou: “O Governo reafirma a expectativa de que as recomendações preliminares do USTR não se convertam em tarifas efetivas e reitera que adotará medidas para reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros”.

