Nos primeiros cinco dias de junho, o Brasil registrou fluxo cambial total positivo de US$ 2,588 bilhões, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira (10) pelo Banco Central (BC).
Foram US$515 milhões em entradas líquidas no mês até dia 5 de junho. Ou seja, a entrada de dólar no país foi maior do que a saída da moeda estrangeira somente em cinco dias.
É por meio deste canal que entram os investimentos estrangeiros, mas não somente eles. Esse fluxo inclui as operações provenientes do comércio exterior e também outras operações financeiras em dólar. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca os empréstimos de remessa de lucros ou mesmo o pagamento de juros como exemplos.
O canal comercial, que contabiliza exportações e importações, o saldo de junho até dia 5 foi positivo em US$2,074 bilhões. No acumulado do ano, o Brasil registra fluxo cambial total positivo de US$16,640 bilhões.
“Quando a gente tem cenário em que o fluxo fica positivo, significa na prática que entrou mais dólar do que acabou saindo do país. E aí, na dinâmica econômica, isso tende a fortalecer o real. Ajuda a reduzir pressões inflacionárias, melhora a condição financeira que a gente tem por aqui e pode, se fosse só por isso, abrir espaço para uma queda de Selic no futuro”, comenta Lima para O Brasilianista.
Fluxo vem do agro
Por outro lado, Felipe Sant’Anna, especialista em ações da Axia Investing, afirma que o fluxo é alto, mas não traz grande surpresa.
“A gente que tá acostumado que o Brasil é um dos maiores exportadores do mundo, tem de todo tipo de comodity: milho, soja, café, etanol petróleo, também produtos semiacabados agricultura e tudo mais. A gente sabe que existe fluxo muito grande principalmente em algumas épocas específicas fechamento de safra contratos e tudo mais que traz uma quantidade gigantesca de dólares para o país”, explica.
Os dados do BC também guardam a ressalva de que são apenas operações de crédito contratadas que podem ter qualquer tipo de alteração nos próximos dias ou na próxima divulgação. O especialista reforça que são negociações registradas no setor de câmbio do Banco Central e que podem já ter acontecido como remessa ou ainda não.
De acordo com Sant’Anna, “todo esse dinheiro não foi embalado dentro de uma caixa e enviado para o Brasil”.
Grande parte desse dinheiro vem do setor de agronegócio e das exportações brasileiras, mesmo aquelas de peças de aeronave, com frutas, verduras, entre outros.
“Isso é normal no mercado. Parece às vezes que a gente tem dado estratosférico, mas não. Se a gente for comparar com grandes países exportadores, por exemplo, desleal a China a gente tem ingresso de dólares muito infinitamente menor. Nosso mercado nesse ponto é muito menor”, comenta.
O maior fluxo de câmbio indica que a Selic pode baixar?
O ingresso desse fluxo positivo de dinheiro estrangeiro entrando no Brasil pode ser uma boa notícia para as empresas e economia, visto que mais investimento externo garante maior fomento da máquina financeira do país. Esse cenário poderia até mesmo ajudar a diminuir os juros básicos, a Selic.
Mas quando o assunto é condução de política monetária, os especialistas não olham somente para o fluxo, mas para vários outros fatores que têm peso muito maior, muitas vezes até maior do que o próprio fluxo cambial, na visão do analista da Ouro Preto Investimentos.
O real pode ser valorizado com esse fluxo, apesar de não impactar fortemente na cotação. Um cenário contrário seria mais problemático.
“Porque imagina que o Brasil não tivesse grande fluxo positivo de dólares. Imagina que muita gente começa a querer comprar dólares. O preço da cotação sobe por uma falta de oferta e força o nosso governo a demandar por dólares no mercado externo. Grande exemplo disso é a Argentina, que tem suas reservas cambiais mínimas e tem toda hora que reforçar com empréstimos em troca de pesos e viu a desvalorização da moeda e no mínimo nos últimos 20 anos, para dizer o mínimo, derretendo a moeda que saiu da paridade de 1 para hoje 1.500 para 1”, reforça o especialista em ações da Axia Investing.

