Um dos relatórios da Polícia Federal sobre o Caso Master revelou que Daniel Bueno Vorcaro, dono do extinto Banco Master, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) discutiram secretamente a apresentação e a condução de projetos de lei sobre transição energética e créditos de carbono. Os dois temas afetam investimentos da família do banqueiro.
As evidências foram obtidas a partir da análise pericial do aparelho celular de Vorcaro, apreendido no âmbito da Operação Compliance Zero. De acordo com os relatórios policiais, o empresário e o parlamentar mantinham uma “relação pessoal estreita”, marcada por frequentes trocas de mensagens de afeto, jantares de luxo e o uso, por parte do senador, de um apartamento de propriedade do banqueiro no hotel Fasano.
Em uma das comunicações, Vorcaro chegou a classificar Ciro Nogueira à sua companheira como “um dos meus grandes amigos de vida”. A PF identificou que um assessor do senador mantinha diálogos frequentes com prepostos de Vorcaro e que o trâmite desses textos era acompanhado de perto pelo Banco Master.
A articulação
A investigação da Polícia Federal aponta que a proximidade entre ambos transcedeu a esfera pessoal e alcançou a atividade legislativa. Em 27 de novembro de 2023, Daniel Vorcaro enviou uma mensagem a Victor Freitas, assessor lotado no gabinete de Ciro Nogueira, afirmando: “Preciso te entregar um documento. Qual endereço melhor”. Na sequência, o empresário informou que seu motorista particular se encarregaria de levar os papéis diretamente ao Anexo I do Senado Federal.
O cruzamento de dados feito pelos investigadores revelou que o teor das discussões e dos documentos envolvia diretamente duas propostas legislativas de grande relevância para os setores financeiro e de sustentabilidade.
Uma delas foi o PL 5.174/2023, que instituiu o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten). A proposta tem como escopo a criação de ferramentas de financiamento para o desenvolvimento sustentável e o uso de créditos tributários junto à União por pessoas jurídicas. O projeto original é de autoria do deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP).
O Paten (Lei nº 15.103/2025) foi criado para facilitar o acesso a crédito de projetos de energia de baixo carbono e desenvolvimento sustentável. O programa foi aprovado para aproximar instituições financeiras e empresas privadas, permitindo o uso de créditos dessas companhias junto à União.
O outro PL é 412/2022, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), regulamentando o mercado de créditos de carbono no Brasil. Trata-se de uma proposição de autoria do senador Chiquinho Feitosa (Republicanos-CE).
O SBCE (Lei nº 15.042/2024) criou um mercado regulado de carbono, estabelecendo tetos de emissão para grandes empresas e permitindo a negociação de ativos climáticos.
Jardim e Feitosa
Arnaldo Jardim é filiado ao partido de Paulinho da Força, que juntamente com Ciro Nogueira, foi um dos poucos a defender publicamente Dias Toffoli durante a pressão sofrida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal para abandonar a relatoria do Caso Master.
Chiquinho Feitosa é filiado ao Republicanos, mesmo partido de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados citado no Caso Master após sua cunhada, Bianca Medeiros, conseguir um empréstimo de R$ 22 milhões com Vorcaro em março de 2024 e por ter apresentado uma emenda parlamentar num projeto de lei sobre o crédito de carbono que ajudava a família do banqueiro.
A sugestão de Hugo Motta obrigava as seguradoras a aportar 0,5% de suas reservas técnicas em créditos de carbono. A obrigação injetaria de R$ 7 bilhões a R$ 9 bilhões por ano num mercado visado pela família de Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique.
Supostas vantagens financeiras e contrapartidas
Em paralelo às discussões sobre os projetos de lei, a IPJ-A detalha um volumoso fluxo de vantagens financeiras que supostamente irrigavam a parceria. Mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe Cançado Vorcaro, indicam a continuidade de repasses mensais no valor de R$ 300 mil associados a uma “parceria” com a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa controlada pelo senador Ciro Nogueira e que não possui histórico de empregados registrados.
Os investigadores analisam ainda o custeio de viagens de alto padrão internacional para o senador e familiares, jantares em Nova Iorque cujos gastos gerais superaram a cifra de US$ 1 milhão e o relato indiciário de um piloto de aeronave particular sobre o suposto transporte de valores em espécie que teriam como destinatário final o próprio parlamentar piauiense.
Deputado nega contato com Vorcaro
Após a publicação da reportagem, o deputado federal Arnaldo Jardim afirmou que não teve qualquer relação com Daniel Vorcaro ou com o Banco Master durante a tramitação do Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN).
Em nota enviada à reportagem, o parlamentar declarou que desconhece “qualquer razão ou ação para que o Banco Master ou o senhor Vorcaro tenham acompanhado e/ou atuado durante a tramitação do PATEN”. Jardim também afirmou que jamais manteve contato com o empresário ou com a instituição financeira.
O Brasilianista está aberto para receber manifestações dos citados nesta matéria.

