Uma robusta investigação conduzida pela Polícia Federal (PF), com base na extração e análise de dados do celular de Daniel Bueno Vorcaro, dono do extinto Banco Master, expôs a existência de uma relação pessoal e financeira extremamente estreita entre o banqueiro e o senador Ciro Nogueira Lima Filho (PP-PI).
Nas mensagens analisadas, o próprio Vorcaro refere-se ao parlamentar como “muito amigo meu” e “um dos meus grandes amigos de vida”. Contudo, para além dos laços de intimidade, os investigadores identificaram um fluxo contínuo e sistemático de vantagens patrimoniais e financeiras indevidas direcionadas ao senador, operadas através de empresas interpostas e contratos simulados.
O disfarce societário: as ações da Green FIP vendidas a preço de banana
O pilar central do esquema envolve o uso da empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda, formalmente controlada pela família de Ciro Nogueira, tendo o seu irmão, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, como administrador formal. A PF apurou que a empresa partilha o mesmo endereço físico de uma concessionária de motos do senador em Teresina (Piauí) e não possui qualquer histórico de empregados registados, tratando-se de uma aparente empresa de fachada.
Através desta firma, Ciro Nogueira adquiriu uma participação societária correspondente a 30% da Green Investimentos S.A., um ativo controlado pelo Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia (Green FIP), do grupo Vorcaro. A Green Investimentos, por sua vez, detém uma fatia acionária expressiva na Trinity Energias Renováveis S.A.

O escândalo reside no preço da transação. A operação foi deliberadamente amarrada através de um “contrato de gaveta” (instrumento particular oculto) para contornar o direito de preferência e os mecanismos de fiscalização do Acordo de Acionistas da Trinity. O valor fixado para a venda dos 30% da Green para a empresa de Ciro Nogueira foi de apenas R$ 1.000.000,00. No entanto, os analistas da Polícia Federal avaliaram que o valor real de mercado dessa mesma fatia societária orbitava os R$ 12,9 milhões.
Essa manobra resultou numa transferência patrimonial dissimulada, garantindo ao senador uma vantagem económica imediata e líquida superior a R$ 11 milhões através do deságio fraudulento. Na prática, o arranjo visava viabilizar o fluxo de dividendos da área de energia diretamente para o parlamentar, longe do radar das autoridades regulatórias.

As mesadas milionárias: de R$ 300 mil a R$ 500 mil mensais
O relatório policial detalha um esquema de repasses mensais recorrentes supervisionados diretamente por Daniel Vorcaro. A engenharia financeira foi monitorada através de trocas de mensagens entre o banqueiro e o seu primo, Felipe Cançado Vorcaro.
Em diálogos datados de julho de 2024, Felipe questiona explicitamente o banqueiro sobre a manutenção dos fluxos de caixa: “Oi, é para continuar pagando a parceria brgd / cnfl? 300k mes?”. Daniel Vorcaro respondeu de forma objetiva e afirmativa: “Sim”.
De acordo com a Polícia Federal, delineiam-se duas hipóteses para esta movimentação: ou o clã Vorcaro realizava pagamentos mensais simultâneos de R$ 300 mil tanto à firma BRGD S.A. (empresa ligada aos Vorcaro) quanto à empresa de Ciro Nogueira, ou os recursos pagos a título de “parceria” tinham origem integral no patrimônio do banqueiro. Independentemente do modelo, a PF classifica como “fato inequívoco” a existência do pagamento mensal de R$ 300 mil destinado à pessoa jurídica vinculada ao senador.
Posteriormente, as evidências apontam que o valor desta “mesada” escalou consideravelmente, atingindo o patamar de R$ 500 mil mensais. Os investigadores estimam que, apenas no intervalo temporal monitorado, o montante mínimo totalizado por estes repasses periódicos tenha alcançado a cifra de R$ 6 milhões.

Euro, resorts de esqui e hotéis de cinco estrelas: as viagens de Nogueira pagas por Vorcaro
Para além dos milhões injetados em contas correntes e participações societárias, Daniel Vorcaro custeou uma rotina internacional de altíssimo luxo para o senador Ciro Nogueira e a sua comitiva, incluindo estadias em hotéis de cinco estrelas, jantares sofisticados e jatos privados. O benefício económico direto rastreado pela PF apenas em despesas de viagem somou R$ 468.721,78 — sem contabilizar os custos de operação de voos internacionais privados.
- Paris (França): Em abril de 2024 houve o custeio de jantares de gala no requintado restaurante Gigi, com contas pagas pelos cartões do grupo empresarial de Vorcaro.
- Nova Iorque (EUA): Em maio de 2024, a investigação intercetou o pagamento de seis diárias para o senador no exclusivo Hotel Park Hyatt New York. Cada diária custou a impressionante quantia de US$ 4.791,24 (cerca de R$ 24,5 mil na cotação da época), totalizando US$ 47.779,80 (R$ 245.153,37) pagos pelo banqueiro.
- Lisboa (Portugal): Em junho de 2024, Ciro Nogueira foi beneficiado com cinco diárias numa Junior Suite do prestigiado Hotel Four Seasons, gerando uma despesa total de R$ 91.280,59 custeada pelo clã Vorcaro.
- Courchevel (Alpes Franceses): Em janeiro de 2025, o senador e a sua acompanhante, Flávia Roberta Rosalen, desfrutaram de uma viagem de esqui na exclusiva estância alpina. Mensagens mostram Vorcaro a acionar um contacto local denominado “Sebastien Courchevel” e providenciar o translado a partir do sofisticado Hotel K2 Palace. Vorcaro chegou a fornecer a altura e o tamanho dos calçados do senador para que roupas e equipamentos de esqui fossem comprados e disponibilizados previamente.
Nos Alpes, Daniel Vorcaro ordenou aos seus subordinados que continuassem a pagar todas as despesas de Ciro Nogueira: “é pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”, perguntou um operador. Vorcaro respondeu: “Sim. Depois levam meu cartão para St. Barths”. Só em dois dias de refeições nos restaurantes de montanha La Soucoupe e Le Tremplin, a conta repassada ao banqueiro somou R$ 122.112.
A PF reuniu fotografias extraídas da galeria de Daniel Vorcaro que mostram o banqueiro e o senador a confraternizar juntos nas pistas de neve da Europa, materializando a forte conexão entre o poder político e o topo do sistema financeiro sob investigação.
O Brasilianista está aberto para receber manifestações dos citados nesta matéria.

