As reuniões do Federal Reserve (Fed) e Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira (17) — fenômeno conhecido como Super Quarta — são realizadas em momento incomum.
Poucos dias antes da decisão, Estados Unidos e Irã fecharam o acordo que encerra quase quatro meses de guerra e reabre o Estreito de Ormuz temporariamente. Foi exatamente esse conflito, com o Estreito praticamente fechado, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, que jogou a inflação americana para perto de 4,2% e tirou o Fed da rota de corte de juros. Agora, o principal vilão inflacionário de 2026 começa a sair de cena.
A reação no petróleo foi imediata. O Brent recuou para a casa dos US$ 84 por barril e o WTI para perto de US$ 81, depois de ter passado de US$ 110 no auge da crise. É um alívio relevante, mas analistas de mercado ainda tratam o cenário com cautela. A reabertura tende a ser gradual, há dano de infraestrutura na região e o ceticismo do mercado sobre a durabilidade do acordo é legítimo.
Para Ricardo Trevisan, CEO da GRAVUS Capital, a decisão de juros americanos hoje é quase um detalhe. Isso porque a manutenção da taxa na faixa de 3,50% a 3,75% está praticamente contratada pelo mercado.
“O que importa é outro ponto. Esta é a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Fed em maio com um perfil reconhecidamente mais duro que o de Powell. Com inflação ainda acelerando e mercado de trabalho firme, o risco real não é corte, é o tom. O mercado já embute probabilidade relevante de pelo menos uma alta até o fim do ano”, afirma.
A primeira reunião de Warsh revelará uma perspectiva de como será a sua gestão, que começa em um verdadeiro caldeirão borbulhante.
O que esperar do Fed?
O especialista avalia que a tensão de Warsh com os recentes acontecimentos é o que vale acompanhar mais do que necessariamente a decisão monetária.
“A queda do petróleo é desinflacionária e, no tempo certo, joga contra essa pressão de aperto. Mas ela chega tarde demais para entrar nesta decisão, e o Fed dificilmente vai mudar de postura com base em um acordo assinado a poucos dias do encontro. Ou seja, o comunicado e a entrevista de Warsh pesam mais que o número. Se ele soar duro mesmo com o petróleo cedendo, o recado é de um Fed que não quer arriscar”, diz Trevisan.
No mundo, o desenho é de alívio. Energia mais barata reduz a conta de inflação global, melhora o humor de risco e tende a favorecer ativos emergentes. O contraponto é o próprio Warsh. Um Fed mais firme sustenta o dólar e limita parte desse alívio para os emergentes.
Como será o resultado no Brasil?
Por aqui, o saldo desse cenário parece construtivo para o CEO da GRAVUS Capital, mas com ressalvas.
“Petróleo em queda significa menos inflação importada, o que ajuda o real e abre espaço na nossa curva de juros. A desescalada geopolítica favorece o fluxo para bolsa e renda variável emergente, o que é positivo para o Ibovespa”, avalia.
No caso da Petrobras, o efeito é de duas mãos. Barril menor pressiona a receita, mas reduz o ruído de preço de combustível. O freio continua sendo o Fed. Se o dólar global ganhar força no tom de Warsh, parte desse benefício para o real e para a bolsa fica mais contida.
“O que eu observaria nesta semana não é o sim ou não da taxa, e sim como o Fed lê esse novo mundo com petróleo mais barato. É isso que vai definir o tom dos próximos meses”, destaca.
O Copom, do Banco Central do Brasil, vem projetando uma queda da Selic, que está atualmente em 14,50% ao ano, um dos maiores juros do mundo. O cenário desfavorável nos EUA pode ajudar a cair a taxa por aqui.

