A classificação de organizações criminosas como grupos terroristas voltou ao centro do debate internacional após os Estados Unidos ampliarem o enquadramento de facções e cartéis que atuam além de suas fronteiras. A medida tem gerado algumas discussões entre governos e especialistas sobre as diferenças entre terrorismo tradicional e crime organizado transnacional.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) afirmou que o Brasil combate permanentemente o crime organizado, mas destacou que as organizações criminosas que atuam no país possuem motivação essencialmente econômica, principalmente ligada ao tráfico de drogas e armas. Segundo o Itamaraty, esse perfil é diferente do terrorismo internacional, normalmente associado a motivações ideológicas, políticas ou religiosas.
O governo brasileiro também ressaltou que mantém uma cooperação histórica com os Estados Unidos no combate ao crime organizado transnacional e defendeu ações coordenadas entre os países para enfrentar essas ameaças.
Terrorismo tradicional
Entre as organizações classificadas como terroristas pelos Estados Unidos estão grupos que possuem atuação política, religiosa ou ideológica e que, segundo Washington, utilizam a violência contra civis e governos para alcançar os seus objetivos.
Entre os principais exemplos estão o Estado Islâmico (ISIS), a Al-Qaeda, o Hamas e o Hezbollah. As autoridades norte-americanas apontam que esses grupos estão envolvidos em atentados, ataques armados, sequestros e em outras ações consideradas terroristas em diferentes regiões do mundo.
A Casa Branca e o Departamento de Estado em publicações recentes sustentam que essas organizações representam ameaças à segurança internacional devido à capacidade de mobilização, financiamento e execução de operações violentas em diversos países.
Crime organizado transnacional
Nos últimos anos, os Estados Unidos passaram a ampliar o foco para organizações ligadas ao narcotráfico e ao crime organizado. O argumento é que alguns grupos desenvolveram capacidade operacional semelhante à de organizações insurgentes, exercendo controle territorial, utilizando armamento pesado e influenciando atividades econômicas e políticas em determinadas regiões.
De acordo com a Agência Reuters, entre os grupos frequentemente apontados pelas autoridades americanas estão o Cartel de Sinaloa, o Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), a Mara Salvatrucha (MS-13) e o Tren de Aragua, organização criminosa originária da Venezuela que expandiu sua atuação para diversos países da América Latina.
Segundo comunicados oficiais divulgados pelo governo norte-americano, essas organizações representam ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos em razão de atividades relacionadas ao tráfico de drogas, tráfico de pessoas, lavagem de dinheiro e crimes transnacionais.
Divergência de critérios
Apesar da cooperação entre Brasil e Estados Unidos, o Itamaraty defende que organizações criminosas e grupos terroristas não devem ser automaticamente equiparados. Na avaliação do governo brasileiro, o combate ao crime organizado exige cooperação internacional, compartilhamento de informações e ações coordenadas entre os países.
O Ministério das Relações Exteriores também alertou que medidas unilaterais podem reduzir a capacidade de cooperação entre autoridades, dificultar investigações e produzir impactos sobre sistemas nacionais e relações internacionais.
O debate ocorre em um momento de fortalecimento das ações internacionais contra organizações criminosas transnacionais, enquanto governos buscam definir quais critérios devem ser utilizados para diferenciar grupos movidos por interesses econômicos daqueles que atuam por razões ideológicas, políticas ou religiosas.

