A denúncia de que o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Samir Xaud, teria utilizado recursos da entidade para custear despesas pessoais no exterior abriu mais um capítulo de uma longa sequência de crises envolvendo a principal organização do futebol brasileiro.
A acusação surge em um momento em que a CBF ainda tenta se recuperar de sucessivas turbulências administrativas e judiciais registradas nas últimas décadas.
Entre denúncias de corrupção, investigações internacionais, afastamentos de dirigentes, condenações e questionamentos sobre governança, a entidade atravessou uma série de episódios que atingiram praticamente todas as suas últimas gestões.
A nova crise envolvendo Samir Xaud
Samir Xaud teria utilizado a estrutura financeira da CBF para custear despesas relacionadas a viagens internacionais de pessoas apontadas como próximas ao dirigente.
Os gastos questionados incluem hospedagens internacionais em Nova York atribuídas a pessoas sem vínculo institucional com a confederação, em valores que ultrapassam R$ 59 mil apenas em um dos episódios.
Após ser questionado pela imprensa, o presidente realizou o ressarcimento de uma das despesas utilizando recursos pessoais.
Documentos indicariam gastos adicionais envolvendo viagens ao Catar e outras despesas atribuídas a pessoas sem função oficial ligada à seleção brasileira ou à administração da entidade.
A CBF negou qualquer uso indevido de recursos. Em nota, afirmou que todas as despesas custeadas pela entidade possuem vínculo exclusivo com atividades institucionais e que despesas particulares são pagas pelos próprios dirigentes.
A sequência de presidentes afastados
Cinco dos últimos sete presidentes da CBF foram afastados, presos ou acabaram deixando o cargo em meio a investigações e denúncias.
O caso mais recente antes da eleição de Samir Xaud envolveu Ednaldo Rodrigues. Em 2025, o dirigente foi retirado do cargo por decisão da Justiça do Rio de Janeiro após questionamentos envolvendo a validade de documentos relacionados ao processo eleitoral da entidade. A decisão levou à nomeação de um interventor e abriu nova disputa pelo controle da confederação.
Antes dele, Rogério Caboclo também deixou a presidência após denúncias de assédio moral e sexual feitas por uma funcionária da própria entidade.
O dirigente chegou a firmar acordo com autoridades, mas continuou respondendo a questionamentos relacionados à sua gestão.
Ricardo Teixeira e o início das investigações internacionais
O período mais longo de comando da CBF foi exercido por Ricardo Teixeira, que permaneceu no cargo entre 1989 e 2012. Durante sua gestão, a seleção brasileira conquistou as Copas do Mundo de 1994 e 2002, mas seu nome acabou associado a algumas das maiores investigações de corrupção do futebol mundial.
Teixeira foi banido pela Fifa em 2019 após investigações apontarem o recebimento de milhões de dólares em propinas relacionadas a contratos comerciais de competições esportivas.
O ex-dirigente também passou a responder a processos nos Estados Unidos e na Espanha. As investigações apontaram pagamentos indevidos ligados à comercialização de direitos esportivos e contratos de patrocínio envolvendo a CBF.
O nome de Teixeira aparece ainda ligado à agência de marketing esportivo ISL, empresa que esteve no centro de uma série de investigações internacionais relacionadas à Fifa.
João Havelange e as origens da crise
As raízes de parte dos escândalos que atingiram o futebol brasileiro remontam à gestão de João Havelange, um dos dirigentes mais influentes da história do esporte.
Havelange presidiu a Fifa entre 1974 e 1998 e foi responsável por transformar a entidade em uma potência econômica global.
Durante sua administração, a Copa do Mundo foi ampliada, novos torneios foram criados e os contratos de patrocínio passaram a movimentar bilhões de dólares.
O legado administrativo, entretanto, acabou sendo ofuscado por denúncias de corrupção reveladas anos depois. Investigações conduzidas na Suíça apontaram que Havelange e Ricardo Teixeira teriam recebido aproximadamente R$ 45 milhões em propinas relacionadas à venda de direitos comerciais de torneios da Fifa por intermédio da empresa ISL.
As acusações levaram Havelange a renunciar ao Comitê Olímpico Internacional e, posteriormente, à presidência de honra da própria Fifa. O caso se tornou um dos antecedentes das investigações que mais tarde culminariam no escândalo conhecido como Fifagate.
Prisões, banimentos e o Fifagate
A crise atingiu um novo patamar em 2015, quando dirigentes do futebol mundial passaram a ser investigados por autoridades dos Estados Unidos e da Suíça.
As apurações conduzidas pelo FBI apontavam um esquema internacional de corrupção envolvendo contratos esportivos, direitos comerciais e escolha de sedes de grandes competições. As investigações estimavam movimentações ilegais de até US$ 150 milhões.
Entre os nomes atingidos estava José Maria Marin, que presidiu a CBF entre 2012 e 2015. O dirigente foi preso na Suíça durante a operação que ficou conhecida mundialmente como Fifagate.
Na sequência, Marco Polo Del Nero também passou a ser alvo de investigações internacionais. O dirigente acabou banido das atividades ligadas ao futebol após ter seu nome associado aos esquemas investigados pela Fifa e pela Justiça norte-americana.
Patrocinadores passaram a se afastar
Os efeitos das investigações não ficaram restritos aos dirigentes. O desgaste institucional passou a afetar diretamente a relação da CBF com empresas parceiras.
Após a explosão dos escândalos de corrupção, marcas como Samsung, Michelin, Unimed, Sadia e Gillette encerraram ou deixaram de renovar contratos de patrocínio com a entidade.
Os casos aumentaram o risco reputacional para empresas interessadas em associar suas marcas ao futebol brasileiro. Ao mesmo tempo, patrocinadores globais da Fifa também passaram a pressionar por mudanças nos mecanismos de governança e transparência das entidades esportivas.
Gastos, privilégios e questionamentos administrativos
Além dos casos criminais e das investigações internacionais, a administração da CBF também passou a ser alvo de críticas relacionadas ao uso de recursos da entidade.
A gestão de Ednaldo Rodrigues acumulou gastos elevados com viagens, hospedagens, benefícios concedidos a dirigentes e convidados, além de pagamentos questionados por integrantes da própria estrutura administrativa da confederação.
Aumentos expressivos nos salários de presidentes de federações estaduais e apontou problemas administrativos internos, mesmo diante de receitas superiores a R$ 1 bilhão por ano.
Enquanto isso, áreas consideradas estratégicas para o futebol, como a formação e capacitação de árbitros, sofreram redução de investimentos.

