O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, anunciou nesta segunda-feira (22) sua renúncia ao comando do Partido Trabalhista e confirmou que permanecerá no cargo apenas até a escolha de um sucessor.
A decisão encerra um governo que durou pouco mais de dois anos e abre caminho para a escolha do sétimo primeiro-ministro britânico em uma década, ampliando um período de instabilidade política iniciado após o referendo do Brexit.
O Brexit foi a saída do Reino Unido da União Europeia, aprovada em referendo realizado em 2016, e marcou o início de um período de forte instabilidade política no país.
Starmer afirmou ter aceitado a avaliação de parlamentares de seu partido de que ele não era mais a melhor opção para liderar os trabalhistas na próxima eleição geral.
O anúncio ocorreu após semanas de pressão interna e poucos dias depois da vitória de Andy Burnham em uma eleição suplementar no distrito de Makerfield.
O resultado fortaleceu a posição do ex-prefeito da Grande Manchester dentro do Partido Trabalhista e acelerou o movimento de parlamentares que defendiam uma mudança na liderança.
A substituição não será imediata. Starmer solicitou ao Comitê Executivo Nacional do partido que organize a sucessão.
As indicações de candidatos devem ocorrer entre 9 e 16 de julho, e a expectativa é que o processo seja concluído até o fim do recesso parlamentar britânico, em 1º de setembro.
Pressão interna acelerou a saída
A renúncia não foi consequência de uma única crise, mas do acúmulo de desgastes políticos enfrentados pelo governo desde o início do mandato.
A pressão pela saída de Starmer vinha crescendo há meses e ganhou força após a vitória expressiva de Burnham para uma cadeira parlamentar no noroeste da Inglaterra.
O resultado levou dezenas de deputados e integrantes do governo a defender reservadamente a definição de um cronograma para a troca de liderança.
O desgaste se tornou ainda maior após sucessivas derrotas eleitorais sofridas pelos trabalhistas em disputas locais realizadas em maio.
Os maus resultados em conselhos municipais da Inglaterra e nos Parlamentos da Escócia e do País de Gales foram considerados o fator decisivo para muitos integrantes do partido concluírem que uma mudança era necessária.
Outro episódio que enfraqueceu a posição do premiê foi a repercussão da escolha de Peter Mandelson para o cargo de embaixador britânico nos Estados Unidos.
A indicação gerou críticas devido à relação de Mandelson com Jeffrey Epstein, caso que ampliou questionamentos sobre decisões tomadas pelo governo.
Economia e imigração pesaram sobre a popularidade
Além das disputas internas, Starmer enfrentou dificuldades para entregar promessas feitas durante a campanha eleitoral que levou os trabalhistas de volta ao poder em 2024.
Muitos eleitores passaram a demonstrar insatisfação com a lentidão da recuperação econômica, com os desafios para melhorar serviços públicos e com a manutenção do alto custo de vida.
A expectativa criada após a vitória trabalhista acabou contrastando com resultados considerados insuficientes por parte da população.
A imigração também se transformou em um dos temas centrais da política britânica. Embora os números tenham começado a cair durante o governo Starmer, parte do eleitorado continuou avaliando que a questão recebia atenção excessiva do governo e gerava custos elevados ao Estado.
Esse ambiente favoreceu o crescimento do Reform UK, partido liderado por Nigel Farage. A legenda de direita passou a superar os trabalhistas em algumas pesquisas de opinião e transformou o controle da imigração em uma de suas principais bandeiras políticas.
Quem pode assumir o governo
O principal nome para substituir Starmer é Andy Burnham, que confirmou sua candidatura logo após o anúncio da renúncia.
Burnham agradeceu a atuação de Starmer e afirmou que pretende participar do processo de sucessão. Ele pode até mesmo concorrer sem adversários, cenário que aceleraria sua chegada ao cargo.
Burnham recebeu cerca de 55% dos votos na eleição suplementar realizada em Makerfield, resultado que fortaleceu sua posição dentro do partido.
Wes Streeting, ex-secretário da Saúde é apontado como possível concorrente, ele declarou apoio à candidatura do ex-prefeito.
Caso Burnham seja candidato único, a substituição poderá ocorrer já em julho. Se houver disputa interna, o processo seguirá até setembro, quando os filiados trabalhistas escolherão o novo líder da legenda, que automaticamente assumirá o posto de primeiro-ministro.
O futuro premiê terá de lidar com temas como a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a relação com os Estados Unidos e os debates sobre segurança europeia em um cenário internacional cada vez mais instável.

