As dúvidas sobre o futuro profissional chegam, uma hora ou outra, em todas as carreiras, à medida que as inovações tecnológicas tendem a ocupar espaços profissionais. No entanto, a pergunta “tal profissão vai acabar?”, por si só, não responde à nossa realidade.
Para o professor e especialista em Direito Notarial e Registral, Andrey Guimarães Duarte, esse questionamento não aborda o cenário completo, assim como a retórica “sempre disseram isso e aqui estamos nós” erra o alvo. Isso, pois é preciso levar em consideração que uma profissão possui três atributos, e esse debate leva apenas um em conta.
“Há a função, que é aquilo que a sociedade precisa que seja feito, e costuma ser durável e às vezes até cresce. Há os postos de trabalho, relativos ao número de pessoas que vivem daquela função. Aqui é outra história. E há o tanto de trabalho humano que cada unidade de demanda exige, que é onde a coisa de fato muda. Confundir os três é o erro mais comum quando se fala de tecnologia e emprego.”
Dessa maneira, o especialista comenta que, com algumas inovações tecnológicas, a tendência é que estes três atributos da profissão surjam em uma situação que, até então, ninguém nomeou, que é o esvaziamento profissional. Isso, pois há menos pessoas trabalhando para manter a categoria viva, visto que não há necessidade de uma maior mão de obra.
“É por isso que ‘continuamos aqui’ é uma frase verdadeira e inútil. A sobrevivência da categoria não diz absolutamente nada sobre quantos sustentos ela ainda comporta. A placa permanece na porta, o nome continua na fachada, e os fundos, que tinham vinte pessoas, têm quatro. A instituição está viva, porém o emprego, nem tanto. Tomar a primeira como prova de que a segunda vai bem é o conforto que adia o problema real.”
Mudança tecnológica corta a intermediação profissional
Segundo o especialista, as ondas de automação tecnológica costumavam deslocar o trabalho, ao invés de eliminá-lo completamente. Para exemplificar, o professor aborda o caixa do banco, que, ao baratear o serviço, aumentou o número de agências, aumentando o número de caixas. Assim, os funcionários migraram para outras funções, enquanto a máquina realizava suas tarefas. Porém, no momento atual, a mudança tecnológica está cortando a intermediação profissional.
“Você não vai mais ao caixa, e cada vez menos vai a um humano qualquer, já que o aplicativo resolve, o autoatendimento passa as compras, o chat responde, o algoritmo recomenda, a plataforma encontra. A demanda continua de pé, muitas vezes satisfeita com mais rapidez e a qualquer hora. O que mudou é que ela deixou de precisar passar por alguém. Antes, a máquina ficava entre o profissional e a tarefa. Agora ela fica entre o cliente e a resposta, e o profissional virou opcional. Não adianta torná-lo mais eficiente. Ele não é mais necessário. É verdade que surgem outras funções, alguém programa a plataforma, nem todas, alguém a mantém, mas surgem em menos gente, em outro lugar e exigindo outra pessoa. Dessa vez o trabalho que reaparece quase nunca reabsorve quem saiu.”

Com isso, para o professor, a pergunta “tal profissão vai acabar?” não responde, de maneira efetiva, ao cenário completo. Assim, há outra questão que deve ser levantada, e que é mais desconfortável.
“As profissões resistem como rótulo, como função, como vitrine, como curiosidade. A pergunta honesta é outra, e é desconfortável: quantas pessoas essa atividade ainda consegue sustentar? E o que fazemos com aquelas que ela deixa de sustentar, justamente enquanto vai muito bem, obrigado?”
Questão importante em ano eleitoral
O especialista aborda a necessidade de compreendermos o cenário como um todo, principalmente em ano eleitoral. Isso, pois ouviremos diversas propostas sobre geração de emprego, atração de investimentos, qualificação trabalhista, como se o problema fosse a falta de crescimento. Desse modo, há outra questão que deve ser levantada.
“A pergunta que de fato importa raramente sobe ao palanque. O que fazer quando a economia cresce, a demanda aumenta e, ainda assim, sobra cada vez menos lugar para gente? Esse é o debate que um ano eleitoral deveria forçar, e que quase sempre fica de fora. Enquanto discutirmos se vão criar empregos, e não que trabalho ainda restará para criar, estaremos elegendo respostas para uma pergunta que o mundo já parou de fazer.”

