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Economia

Como saber se uma empresa é segura para investir e não está próxima de uma recuperação judicial?

Alta nos pedidos de reestruturação financeira faz investidores ampliarem atenção sobre caixa e endividamento

Como saber se uma empresa é segura para investir e não está próxima de uma recuperação judicial?

O avanço dos pedidos de recuperação judicial no Brasil tem levado investidores a buscar formas de identificar sinais de deterioração financeira antes que empresas entrem em crise.

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Em um cenário marcado por juros elevados, crédito mais restritivo e aumento do endividamento corporativo, especialistas afirmam que balanços financeiros, fluxo de caixa e mudanças internas nas companhias podem indicar problemas com antecedência.

Segundo Milene Dellatore, especialista em finanças, investimentos, trader e sócia-diretora do Grupo Mide, muitos investidores ainda concentram atenção apenas no lucro líquido das empresas e ignoram indicadores considerados mais relevantes para avaliar risco financeiro.

“Lucro líquido pode ser manipulado contabilmente por muito mais tempo do que o caixa. Por isso eu sempre digo: acompanha o fluxo de caixa livre. Empresa que lucra, mas não gera caixa está contando uma história”, afirma.

Caixa e dívida costumam dar os primeiros alertas

De acordo com Milene Dellatore, alguns indicadores financeiros aparecem de forma recorrente em empresas que passam a enfrentar dificuldades mais severas.

Entre os principais sinais estão a geração de caixa operacional negativa por períodos prolongados e o crescimento acelerado do endividamento.

“Os principais que eu olho são: geração de caixa operacional negativa por mais de dois trimestres consecutivos, dívida líquida subindo enquanto EBITDA cai, o que deteriora o índice de alavancagem rapidamente, e cobertura de juros abaixo de 1,5x”, explica.

A especialista destaca que o alongamento do ciclo de conversão de caixa também merece atenção. Esse movimento ocorre quando a companhia demora mais para receber receitas, enquanto mantém obrigações de pagamento em prazos mais curtos.

Segundo Dellatore, a deterioração financeira costuma aparecer antes mesmo de um eventual pedido formal de recuperação judicial.

Ela afirma que muitas empresas começam a enfrentar dificuldades para refinanciar dívidas e passam a operar sob pressão crescente sobre o capital de giro.

Mudanças nos balanços podem revelar deterioração

Além do caixa, alterações específicas nos balanços patrimoniais também podem indicar aumento de risco financeiro.

Segundo Milene Dellatore, o crescimento de determinadas contas sem justificativa operacional clara deve ser analisado com cautela pelos investidores.

“Aumento de ‘outros ativos’ ou de intangíveis sem justificativa clara pode indicar que a empresa está tentando inflar o balanço”, afirma.

A especialista também aponta que mudanças no perfil da dívida corporativa costumam antecipar dificuldades de acesso ao crédito.

“Quando você vê rolagem de dívida com prazos cada vez menores e taxas cada vez mais altas, o mercado de crédito já precificou o risco antes da bolsa”, destaca.

Outro fator considerado importante é a queda recorrente nas posições de caixa e equivalentes de caixa. Segundo Dellatore, esse movimento pode indicar deterioração operacional mesmo em empresas que continuam apresentando lucro contábil positivo.

Mudanças internas também funcionam como alerta

Além dos indicadores financeiros, sinais qualitativos podem antecipar problemas estruturais dentro das companhias.

Segundo Milene Dellatore, alterações repentinas na gestão executiva ou auditorias merecem atenção do mercado.

“Troca repentina de CEO, CFO ou auditor, principalmente se o auditor novo for menor que o anterior, merece atenção imediata”, afirma.

A especialista também cita atrasos em pagamentos a fornecedores e emissões de dívida com garantias mais pesadas como sinais relevantes de fragilidade financeira.

“Quando a empresa começa a dar ativos como garantia, ela já não tem mais crédito limpo”, explica.

Segundo Dellatore, parte desses movimentos aparece primeiro em notas explicativas dos balanços ou em informações que circulam entre fornecedores e participantes do próprio setor antes de se tornarem problemas públicos.

Recuperação judicial cresce em ambiente de crédito caro

Segundo análise de Débora Alice Sturm, advogada da área de Direito Empresarial com atuação em recuperação judicial e reestruturação empresarial no Rücker Curi Advocacia e Consultoria Jurídica, o crescimento dos pedidos de recuperação judicial está ligado ao ambiente de juros altos e restrição de crédito.

A especialista afirma que os pedidos superaram a marca de 2 mil solicitações em 2024, após crescimento de 61,8% no ano anterior. Em 2025, o número voltou a bater recorde e se aproximou de 2,5 mil processos.

De acordo com Sturm, muitas empresas passaram a consumir toda a geração de caixa apenas para honrar dívidas financeiras contratadas em um período de custo elevado do dinheiro.

“A manutenção da taxa SELIC em níveis restritivos drenou os recursos que seriam destinados a investimentos, transformando operações historicamente saudáveis em estruturas insolventes”, explica.

Ela afirma que a recuperação judicial deixou de ser vista apenas como instrumento associado à falência e passou a funcionar como ferramenta de reorganização financeira e preservação operacional.

Setores mais expostos sofrem maior pressão

Segundo Débora Alice Sturm, segmentos como varejo, agronegócio e indústria estão entre os mais pressionados pelo ambiente econômico atual. Cada setor, porém, enfrenta desafios específicos relacionados à operação e ao acesso ao crédito.

No varejo, a redução do poder de compra das famílias e o aumento da inadimplência impactam diretamente receitas e margens operacionais.

Já na indústria, o custo financeiro elevado e o encarecimento logístico ampliam a pressão sobre o caixa das empresas.

A advogada também afirma que o agronegócio enfrenta impacto simultâneo de volatilidade cambial, aumento dos custos de insumos e eventos climáticos adversos.

Segundo Sturm, mesmo em um eventual cenário de queda gradual dos juros, muitas companhias ainda devem continuar operando sob forte pressão financeira devido ao estoque elevado de dívidas renegociadas nos últimos anos.

Investidor precisa avaliar liquidez e capacidade de saída

Para Milene Dellatore, um dos erros mais comuns entre investidores pessoa física é comprar ações de empresas em deterioração financeira apenas porque parecem baratas em relação ao mercado.

“O primeiro erro é comprar ‘barato’ sem entender por que ficou barato: múltiplo baixo pode ser armadilha de valor, e não oportunidade”, afirma.

Ela também alerta para o risco de confiar exclusivamente em ratings de crédito e classificações de mercado sem acompanhar a evolução operacional das companhias.

“Às vezes, o pior cenário é a empresa entrar em recuperação, o processo se arrastar por anos, e o investidor ficar preso num ativo ilíquido sem perspectiva de recuperação real do capital”, destaca.

Segundo a especialista, antes de investir em empresas com sinais de estresse financeiro, o investidor precisa avaliar não apenas o potencial de valorização, mas também a possibilidade de saída rápida em cenários de agravamento da crise.

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