A Copa do Mundo de 2026 deve quebrar todos os recordes comerciais da história da FIFA.
A entidade estima faturar cerca de US$ 13 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 2,8 bilhões virão apenas de patrocínios, além de US$ 4,3 bilhões com direitos de transmissão e cerca de US$ 3 bilhões em bilheteria.
A expectativa é de que o torneio alcance cerca de 6 bilhões de visualizações acumuladas em diferentes plataformas, transformando o Mundial na maior vitrine publicitária do esporte global.
Gigantes globais do consumo dominam a lista de patrocinadores da Copa
Entre os patrocinadores globais e oficiais estão empresas como Coca-Cola, Budweiser (AB InBev), McDonald’s, Lay’s (PepsiCo), Visa, Bank of America, Lenovo, Adidas, Hisense, Verizon, Unilever (Rexona/Dove), Hyundai-Kia, Aramco, Mengniu e Qatar Airways.
Embora atuem em segmentos distintos, parte relevante desse grupo pertence a setores frequentemente associados por pesquisadores a comportamentos de risco, como bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e, indiretamente, o mercado das apostas esportivas.
Em maio de 2026, a Betano tornou-se Apoiadora Oficial da Copa do Mundo de 2026 para a Europa e a América do Sul, ampliando uma parceria iniciada no Mundial do Catar e reforçada na Copa do Mundo de Clubes
A discussão ocorre em um momento em que indicadores brasileiros mostram crescimento de diferentes formas de dependência.
Dados são alarmantes
Dados do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid) revelam que 38,6% das pessoas que apostam apresentam algum grau de risco ou transtorno relacionado ao jogo.
Entre adolescentes de 14 a 17 anos, o percentual sobe para 55,2%, o maior índice entre todas as faixas etárias pesquisadas. O mesmo levantamento mostra que 18,1% dos adultos e 10,5% dos adolescentes realizaram apostas no último ano.
O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) estima que aproximadamente 10,8 milhões de brasileiros apresentam comportamento de jogo considerado arriscado ou problemático.
O transtorno do jogo já possui classificação própria na Classificação Internacional de Doenças (CID) e pode provocar endividamento, ansiedade, depressão, isolamento social, ruptura familiar e perda da capacidade de controlar as apostas.
Os dados do Ministério da Justiça também mostram avanço de outros comportamentos considerados preocupantes.
O consumo de analgésicos opioides aumentou quase dez vezes em pouco mais de uma década, passando de 0,8% da população em 2012 para 7,6% em 2023.
O uso de benzodiazepínicos cresceu de 9,8% para 14,3% no mesmo período. Entre adolescentes, os cigarros eletrônicos aparecem como um dos principais fenômenos recentes: 77,6% dos usuários afirmam que o vape não ajudou a abandonar o cigarro convencional, enquanto 12% das adolescentes relataram já ter utilizado o dispositivo em algum momento da vida.
Outra pesquisa apresentada pelo governo federal, o projeto Tânatos, identificou substâncias psicoativas em 50,1% das vítimas de mortes violentas analisadas entre 2022 e 2024.
O álcool apareceu em 26,2% dos casos, percentual praticamente igual ao da cocaína (26,7%). Entre vítimas de acidentes de trânsito, 38% haviam consumido bebida alcoólica antes do episódio.
O interesse econômico por trás dos patrocínios
Para a advogada Rafaella Krasinski, especialista em Direito Empresarial que atua na estruturação jurídica e econômica de projetos incentivados com foco em leis de incentivo ao esporte, a presença dessas empresas na Copa é consequência direta do tamanho comercial do torneio.
“A Copa do Mundo é o maior evento esportivo do planeta em audiência e alcance comercial. A FIFA estima cerca de 6 bilhões de visualizações acumuladas e aproximadamente US$ 2,8 bilhões em receitas apenas com patrocínios. Para empresas de apostas esportivas, quanto maior o engajamento do público com o futebol, maior tende a ser o volume de apostas. Já o setor de bebidas alcoólicas busca associar suas marcas aos momentos de celebração proporcionados pelo esporte.”
Segundo a especialista, a relação entre publicidade e consumo exige uma análise mais ampla. Ela afirma que a propaganda não explica isoladamente o desenvolvimento de comportamentos compulsivos, mas exerce influência documentada pela literatura científica.
“A evidência científica mostra que a publicidade influencia principalmente a lembrança de marca, a intenção de consumo e a normalização de determinados comportamentos. Ela não é a única causa desses comportamentos. Fatores sociais, culturais, familiares e econômicos também exercem papel determinante, mas a exposição constante funciona como um importante fator de estímulo.”
Publicidade amplia exposição e normaliza comportamentos
Uma investigação publicada pelo The Washington Post em 2026, utilizando inteligência artificial para analisar transmissões esportivas, encontrou uma referência às apostas a cada quatro minutos, em média, durante os jogos avaliados.
A pesquisa também apontou que o setor investe mais de US$ 1 bilhão por ano em publicidade apenas nos Estados Unidos.
No caso das bebidas alcoólicas, revisões da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a exposição frequente à publicidade aumenta a probabilidade de iniciação precoce entre adolescentes e está associada a maiores níveis de consumo ao longo da vida.
Para as apostas esportivas, as evidências apontam efeito semelhante na normalização da prática, principalmente entre jovens adultos e pessoas mais vulneráveis.
Apesar disso, Rafaella Krasinski afirma que a tendência internacional não tem sido retirar esses patrocinadores do esporte. Segundo ela, países europeus vêm adotando modelos de equilíbrio entre financiamento privado e proteção ao consumidor.
“Os sistemas mais eficazes combinam restrições à publicidade voltada para menores, mensagens obrigatórias de jogo responsável, mecanismos de autoexclusão, fiscalização, educação da população e monitoramento permanente dos impactos. O desafio não é eliminar esses patrocinadores, mas preservar a sustentabilidade financeira do esporte reduzindo riscos para grupos mais vulneráveis.”
Na avaliação da especialista, o próprio financiamento do futebol depende desse equilíbrio. “A tendência internacional não é proibir esses investimentos, mas estabelecer regras que permitam compatibilizar desenvolvimento econômico, financiamento do esporte e proteção da saúde pública”, conclui.

