A família Valadares Gontijo construiu um império da construção imobiliária, consolidando-se como uma das maiores empresas do ramo nos últimos anos após fechar uma parceria com a Caixa Econômica Federal para a construção de moradias populares por meio do programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV).
A Direcional Engenharia S.A. foi criada por Ricardo Valadares Gontijo, no início da década de 1980, e é dirigida atualmente pelo filho, Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo, que atua no setor desde a sua formação, em 2004.
A Direcional Engenharia ganhou ainda mais projeção ao assumir parcerias com a Caixa para a construção de moradias populares do programa Minha Casa, Minha Vida. Após a mudança na regra do programa, que elevou a faixa de renda de R$ 12 mil para R$ 13 mil, as ações da construtora registraram forte valorização.
Isso ajudou os negócios da empresa na B3, tanto que a companhia adquiriu a participação da XP, por meio do fundo Endor, na startup Direto — especializada em financiamento imobiliário.
Porém, ao longo de sua história, o grupo também foi alvo de denúncias no Ministério Público (MP).
Jatinho
Numa delas, o pai de Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo foi denunciado por oferecer seu jatinho a um político. De acordo com o G1, em 2013, o MP concluiu uma investigação envolvendo a Prefeitura de São José do Rio Preto e o ex-procurador do município, Luiz Antônio Tavolaro, que utilizaram um avião do empresário.
A legislação não permite que membros do Executivo utilizem esse tipo de transporte quando há relação com empresas que mantêm contratos ou parcerias com instituições públicas.
O processo andou até 2018, quando foi definitivamente arquivado. A Justiça entendeu que não havia provas suficientes para a condenação dos réus.
No intuito de obter explicações sobre os serviços prestados pela Direcional Engenharia, foi realizada uma pesquisa no Portal da Transparência da Prefeitura de São José do Rio Preto. No entanto, o portal passou a disponibilizar os registros de contratos apenas a partir de 2018. Portanto, não há registros anteriores.
Minha Casa Minha Vida
Em 2025, o Ministério Público Federal em Goiás apresentou uma denúncia contra a Caixa Econômica Federal e a Direcional Engenharia para reparar “vícios construtivos”, como cita a ação, no Residencial Nelson Mandela V, empreendimento do programa Minha Casa Minha Vida.
A apuração técnica detectou diversas falhas na construção, como pontos de empoçamento de água, problemas no sistema de vedação e cerâmicas danificadas, que apresentavam rachaduras. Por isso, o MPF pediu à construtora medidas que assegurem a segurança dos moradores.
O prédio tem a estrutura física comprometida, o que coloca em risco a segurança dos moradores. O MPFGO pediu, além da responsabilização da Caixa Econômica Federal e da Direcional Engenharia, a reparação dos danos materiais e do dano moral coletivo em razão da conduta considerada “omissiva e lesiva”.
Além disso, a denúncia pede o pagamento de indenização no valor de R$ 500 mil, destinada ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD).
Trabalho escravo
O Ministério Público do Trabalho no Amazonas (MPT) condenou a Direcional Engenharia a pagar indenização de R$ 500 mil por dano moral coletivo após a descoberta de irregularidades no canteiro de obras do Parque Ponta Negra – Reserva das Águas. A denúncia foi apresentada em 2015.
Em 2008, os canteiros de obras do grupo Gontijo passaram a ser fiscalizados pelo MPT após o desmoronamento de uma construção que ocasionou a morte de um trabalhador por asfixia. Entre 2008 e 2016, foram registradas cinco denúncias envolvendo a construtora no Amazonas.
A empresa também teve que cumprir ao menos 38 obrigações relacionadas à saúde e à segurança do trabalho e, em caso de descumprimento, estaria sujeita ao pagamento de multa diária de R$ 1 mil.
Em 2018, a Direcional assinou um termo de ajustes de conduta que previa o pagamento de indenização no valor de R$ 100 mil, destinada ao custeio de cursos profissionalizantes para estudantes, e se comprometeu a assegurar a saúde e a segurança nos locais onde as empreiteiras trabalhavam.
Denúncia no Acre
O Ministério Público Federal no Acre (MPF-AC) denunciou irregularidades em uma fazenda localizada na Fazenda Bella Aliança, em Bujari (AC), envolvendo Ricardo Valadares Gontijo.
De acordo com a Procuradoria da República no Acre, os trabalhadores eram submetidos a “situação de trabalho degradante”. A denúncia relata que eles não tinham folga, não recebiam salários e eram obrigados a assinar recibos que declaravam o pagamento.
O procurador Paulo Henrique Ferreira Brito alegou que os responsáveis deixaram os trabalhadores morando em barracas de lona, com chão de terra batida. A água para consumo era proveniente de uma poça de água barrenta.
Os administradores da fazenda, Mário Mariano e Elmo Clemente José Gomes, mantinham os funcionários sujeitos a uma dívida que era sempre superior aos valores que tinham a receber.
Em 2012, a Justiça no Acre julgou o caso como improcedente, sendo encerrado.
Outro lado
Em nota, a Direcional afirmou que, “no Residencial Viver Melhor, em Manaus, os reparos estão em andamento e seguem o cronograma do acordo homologado por meio da Ação Civil Pública nº 0002426-27.2017.4.01.3200, com acompanhamento da Defensoria Pública do Estado do Amazonas”.
A empresa disse ainda que, “em Goiás, a Ação Civil Pública encontra-se suspensa por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), sendo que os pontos discutidos não comprometem a segurança nem a habitabilidade das unidades”. Afirmou também que a questão das condições de trabalho “foi definitivamente resolvida por meio de acordo firmado com o Ministério Público do Trabalho em outubro de 2019, encerrando integralmente o processo”.
Especificamente sobre os fatos envolvendo Ricardo Valadares Gontijo, a companhia informou “que os processos mencionados tiveram desfecho favorável ao executivo”, que a ação de improbidade administrativa “foi julgada integralmente improcedente pela 1ª Vara da Fazenda Pública de São José do Rio Preto/SP, com sentença transitada em julgado em 03/07/2017”.
Já em relação às acusações sobre exploração de trabalho escravo, afirmou que “o executivo foi absolvido, por decisão judicial definitiva, em 26/07/2012, tendo a sentença transitado em julgado em 03/08/2012”.

