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Geopolítica

Sanções de Trump ao crime organizado: o que muda para o Brasil?

Sanções bloqueiam empresas e empresários investigados por suspeita de participação em uma rede de lavagem de dinheiro

Ao invés de ação militar, EUA deve mirar finanças de PCC e CV, dizem especialistas

Os Estados Unidos deram o primeiro passo concreto após classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.

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Nesta quarta-feira (01), o Departamento do Tesouro anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma empresa portuguesa por suposta participação em uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao PCC.

As medidas incluem bloqueio de bens sob jurisdição americana e restrições para operações financeiras, inaugurando uma nova etapa da política do governo Donald Trump para combater organizações criminosas com atuação transnacional.

Trata-se da primeira rodada de sanções desde a mudança na classificação das facções brasileiras.

Da classificação como terroristas às primeiras sanções

O anúncio representa a primeira consequência prática da decisão tomada pelo governo americano em junho, quando PCC e Comando Vermelho passaram a integrar a lista de organizações terroristas internacionais.

No comunicado divulgado nesta semana, o Departamento do Tesouro voltou a afirmar que o PCC é “a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental” e que o grupo representa “uma ameaça criminal real e crescente” aos Estados Unidos.

A avaliação faz parte de uma estratégia mais ampla elaborada pela Casa Branca para ampliar a atuação dos Estados Unidos nas Américas.

Documentos divulgados desde o fim de 2024 indicam que o combate ao narcotráfico passou a ser tratado como prioridade da política externa e da Estratégia Nacional de Defesa do segundo mandato de Donald Trump.

Entre as diretrizes apresentadas pelo governo americano estão o reforço da presença militar e naval no continente, maior cooperação com países aliados para combater organizações criminosas, ampliação das ações contra o tráfico internacional de drogas e a possibilidade de medidas unilaterais quando Washington entender que seus interesses de segurança nacional estejam ameaçados.

O documento afirma que a estratégia busca alcançar “paz por meio da força”.

Quem são os brasileiros atingidos pelas medidas

As primeiras sanções atingiram o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira.

Também entraram na lista de bloqueios as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobrança e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda., Wave Construções Inteligentes Ltda. e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.

Segundo o governo americano, Victor Shimada comandava uma estrutura instalada em São Paulo que atuava em conjunto com integrantes do PCC localizados na Flórida.

As autoridades dos Estados Unidos afirmam que a organização movimentou mais de US$ 30 milhões utilizando criptomoedas para ocultar recursos provenientes do tráfico internacional de drogas.

O Departamento do Tesouro informou ainda que todos os bens eventualmente localizados nos Estados Unidos ficarão bloqueados.

Além disso, cidadãos e empresas americanas ficam proibidos de realizar qualquer transação com os sancionados, enquanto empresas controladas direta ou indiretamente por eles também poderão sofrer restrições financeiras.

Governo brasileiro acompanha impactos das sanções

As medidas adotadas por Washington passaram a ser acompanhadas pelo Ministério da Justiça brasileiro. A preocupação do governo não está restrita aos investigados, mas também aos possíveis efeitos sobre instituições financeiras e empresas brasileiras que mantenham relações comerciais internacionais.

A secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães Loula, afirmou que o Brasil não se opõe ao combate ao crime organizado, mas alertou para riscos de impactos indiretos.

“Não defendemos criminosos. O que tememos é que essa espetacularização gere efeitos secundários sobre pessoas que não têm ligação com o crime e sobre instituições financeiras brasileiras”, declarou.

Ela também defendeu maior cooperação entre os dois países. Segundo a secretária, parte das informações utilizadas pelos Estados Unidos teve origem em investigações brasileiras, mas o intercâmbio de dados poderia ter sido mais amplo antes da adoção das sanções.

O que as investigações brasileiras apontam

Embora os Estados Unidos sustentem que Victor Shimada integra uma rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao PCC, as investigações conduzidas no Brasil apresentam um quadro diferente.

Ele aparece em apurações relacionadas ao caso Corinthians-VaideBet, mas os relatórios da Polícia Civil não o classificam como integrante da facção criminosa.

Segundo as investigações, a empresa Victory Trading teria funcionado como uma espécie de “conta de passagem”, recebendo recursos de diversas empresas e redistribuindo valores para dificultar o rastreamento financeiro.

Os investigadores também identificaram movimentações entre a Victory, a Wave Intermediações e a UJ Football Talent, empresa mencionada em delações sobre supostas ligações com integrantes do PCC.

O promotor Lincoln Gakiya, referência nacional no combate ao PCC, afirmou ao G1 que o Ministério Público paulista não possui elementos que indiquem que Victor Shimada ou Stella Stefanie façam parte da facção.

“Nós não temos informação de que ele faça a lavagem para o PCC. A não ser que o FBI e o Departamento de Estado norte-americano tenham conseguido essas provas lá”, afirmou.

Caso também alcança Corinthians, VaideBet e Buzeira

As apurações brasileiras também conectam Victor Shimada às investigações sobre o contrato de patrocínio entre Corinthians e VaideBet.

A Polícia Civil afirma que a Victory Trading ocupava posição estratégica na circulação dos recursos investigados e teria sido utilizada para pulverizar movimentações financeiras entre diversas empresas.

A Victory Trading transferiu R$ 1 milhão, em duas operações realizadas no mesmo dia, para a empresa Buzeira Digital. Poucas semanas depois, houve novo repasse de R$ 300 mil.

Segundo os investigadores, as transferências ocorreram logo após movimentações envolvendo empresas que aparecem em outras apurações relacionadas ao PCC.

O influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, não é investigado no inquérito sobre o Corinthians.

Ele responde a outro processo decorrente da Operação Narco Bet, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, exploração de apostas ilegais e ocultação de patrimônio. O influenciador nega as acusações.

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