Em 4 de julho de 1776, representantes das Treze Colônias aprovaram a Declaração de Independência dos Estados Unidos, documento que rompeu oficialmente os laços com a Inglaterra e apresentou ao mundo um conjunto de princípios inspirados no Iluminismo.
Entre eles estavam a defesa de que todos os homens nascem iguais e possuem direitos considerados inalienáveis, como vida, liberdade e busca da felicidade.
Quase dois séculos e meio depois, porém, a história do país revela que esses ideais conviveram, em diferentes momentos, com escravidão, segregação racial, perseguições políticas, guerras, intervenções militares e, mais recentemente, com disputas sobre imigração, direitos civis, atuação do Judiciário e os limites do poder presidencial durante o governo Donald Trump.
A independência nasceu sem garantir liberdade para todos
A independência não encerrou imediatamente os conflitos. A Guerra da Independência prosseguiu até 1783, quando o Tratado de Paris reconheceu oficialmente a soberania das antigas colônias britânicas.
Poucos anos depois, em 1787, foi aprovada a Constituição americana, criando uma república federal baseada na separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. George Washington assumiu a Presidência em 1789.
Embora o novo país tenha surgido defendendo direitos individuais, esses princípios não alcançavam toda a população.
Milhões de pessoas negras continuaram escravizadas nos estados do Sul, enquanto mulheres não participavam da vida política e povos indígenas eram tratados como obstáculos à expansão territorial.
A liberdade proclamada em 1776 possuía limites definidos por critérios raciais, econômicos e sociais.
Expansão territorial e remoção de povos indígenas
Durante o século XIX, a expansão para o oeste tornou-se uma das principais políticas nacionais. O conceito conhecido como “Destino Manifesto” sustentava a ideia de que os norte-americanos possuíam uma missão histórica de ocupar o território até o Oceano Pacífico.
Essa expansão ocorreu por meio da compra de territórios, de guerras e da retirada forçada de populações indígenas.

Tribos inteiras foram deslocadas de suas terras tradicionais. Um dos episódios mais conhecidos foi a chamada “Trilha das Lágrimas”, quando milhares de indígenas morreram durante deslocamentos compulsórios determinados pelo governo federal.
A expansão também resultou na Guerra Mexicano-Americana (1846-1848), encerrada com a incorporação de extensas áreas que atualmente correspondem aos estados da Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e Wyoming.
Escravidão, Guerra Civil e um país dividido
A escravidão tornou-se o principal fator de divisão entre os estados do Norte e do Sul. Enquanto o Norte acelerava sua industrialização, o Sul mantinha uma economia baseada nas grandes plantações dependentes do trabalho escravo.
A eleição de Abraham Lincoln, em 1860, levou diversos estados escravistas à secessão, iniciando a Guerra Civil Americana. O conflito, travado entre 1861 e 1865, provocou centenas de milhares de mortes e permanece como o mais sangrento da história do país.

Com a vitória da União, a escravidão foi abolida por meio da 13ª Emenda Constitucional. A igualdade jurídica, porém, não significou igualdade prática.
Da abolição às leis de segregação
Após a Guerra Civil, estados do Sul aprovaram as chamadas leis Jim Crow, que institucionalizaram a segregação racial durante décadas.
Escolas, ônibus, restaurantes, hospitais, banheiros públicos, bebedouros, hotéis e diversos serviços passaram a funcionar separadamente para pessoas brancas e negras.
Em muitos estados, afro-americanos também encontravam obstáculos para votar, estudar ou ocupar determinados empregos.
Paralelamente, organizações supremacistas como a Ku Klux Klan recorreram à violência para intimidar comunidades negras, promovendo assassinatos, linchamentos e ataques terroristas que permaneceram por décadas.
Um dos casos mais emblemáticos desse período ocorreu em 1955. Emmett Till, um adolescente negro de 14 anos, foi sequestrado na casa de parentes no Mississippi após ser acusado de ter assobiado para uma mulher branca.
Ele foi brutalmente espancado, torturado, baleado na cabeça e teve o corpo amarrado a um ventilador industrial antes de ser lançado em um rio.

A mãe decidiu realizar um funeral com caixão aberto para que o país visse a dimensão da violência sofrida pelo filho.
Apesar das provas e dos testemunhos, os dois acusados foram absolvidos por um júri formado apenas por homens brancos e, meses depois, confessaram publicamente o assassinato.
O crime tornou-se um símbolo da brutalidade do racismo institucional e ajudou a impulsionar o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Direitos civis e resistência
A partir dos anos 1950, o movimento pelos direitos civis passou a desafiar a segregação institucionalizada.
A decisão da Suprema Corte que proibiu a segregação nas escolas, em 1954, foi seguida por boicotes, marchas e manifestações lideradas por figuras como Martin Luther King Jr.
Em 1963, centenas de milhares de pessoas participaram da Marcha sobre Washington, onde King fez o discurso “I Have a Dream”.

As pressões levaram à aprovação da Lei dos Direitos Civis, em 1964, e da Lei do Direito ao Voto, em 1965, proibindo oficialmente práticas discriminatórias que vigoravam havia décadas.
Documentos apontam apoio dos EUA ao golpe de 1964 no Brasil
Os Estados Unidos prepararam uma operação de apoio logístico e militar aos grupos que derrubaram o então presidente João Goulart durante o golpe de 1964.
A chamada Operação Brother Sam previa o envio de navios, combustível, armamentos e até tropas caso houvesse resistência ao movimento militar.
Um plano de contingência elaborado pela embaixada dos Estados Unidos chegou a projetar diferentes cenários de intervenção, incluindo o desembarque de cerca de 35 mil soldados americanos em território brasileiro.
Embora essa intervenção militar não tenha sido executada, os documentos mostram que o governo do presidente Lyndon B. Johnson autorizou uma força-tarefa para apoiar os conspiradores.
O apoio político e a preparação de uma operação militar pelos Estados Unidos fortaleceram os grupos que derrubaram o presidente João Goulart, abrindo caminho para a ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos.
O macartismo
Enquanto defendiam a democracia durante a Guerra Fria, os Estados Unidos viveram um período de intensa perseguição política interna.
Na década de 1950, o senador Joseph McCarthy liderou investigações contra pessoas suspeitas de simpatizar com o comunismo.

Artistas, professores, jornalistas, cientistas e funcionários públicos perderam empregos, foram interrogados pelo Congresso e passaram a integrar listas negras.
Muitas acusações jamais foram comprovadas. O período ficou conhecido como macartismo e permanece como um dos principais exemplos de restrição às liberdades civis em nome da segurança nacional.
Guerras e projeção internacional
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos consolidaram-se como principal potência mundial e ampliaram sua presença militar em diversas regiões.
Durante a Guerra Fria, participaram diretamente das guerras da Coreia e do Vietnã e apoiaram governos aliados em diferentes continentes. Também estiveram envolvidos em operações militares e intervenções políticas na América Latina, Oriente Médio, África e Ásia.

A Guerra do Vietnã também produziu algumas das imagens mais marcantes do século XX.
Em 8 de junho de 1972, a fotografia da menina vietnamita Phan Thi Kim Phúc, então com nove anos, correndo nua após um ataque com bombas de napalm lançado por aviões sul-vietnamitas, ganhou repercussão mundial e se tornou símbolo dos efeitos da guerra sobre a população civil.
A criança sofreu queimaduras graves em grande parte do corpo e passou por dezenas de cirurgias para sobreviver.
Registrada pelo fotógrafo Nick Ut, a imagem ajudou a ampliar a pressão internacional pelo fim do conflito e permanece como um dos principais retratos dos impactos humanitários da intervenção militar no Vietnã.
As Torres Gêmeas
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o país lançou a chamada Guerra ao Terror, iniciando operações militares no Afeganistão e, posteriormente, no Iraque.

A invasão do Iraque, iniciada pelos Estados Unidos em 2003 sob a justificativa de eliminar supostas armas de destruição em massa, que nunca foram encontradas, deixou um rastro de destruição e denúncias de violações de direitos humanos.
Bombardeios em áreas urbanas, mortes de milhares de civis, episódios de tortura na prisão de Abu Ghraib e detenções sem julgamento em Guantánamo passaram a simbolizar os custos humanos da chamada “Guerra ao Terror”.
A dificuldade das tropas americanas em enfrentar uma resistência formada por grupos insurgentes e por parte da população iraquiana prolongou o conflito por anos, transformando a ocupação em um dos capítulos mais controversos da política externa dos Estados Unidos no século XXI e alimentando críticas sobre o impacto da guerra para a população civil.
Polarização política cresce no século XXI
Nas últimas duas décadas, a política americana passou por um processo de polarização crescente.
Disputas sobre imigração, controle de armas, aborto, mudanças climáticas, direitos civis, papel do governo federal e atuação da Suprema Corte aprofundaram a divisão entre democratas e republicanos.
As redes sociais passaram a exercer influência cada vez maior sobre campanhas eleitorais e sobre a circulação de informações, ampliando o ambiente de confrontos políticos.
Biden perdoou o próprio filho condenado pela Justiça
Em dezembro de 2024, o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden concedeu um perdão presidencial total e incondicional ao filho, Hunter Biden, que havia sido condenado em dois processos federais.
Hunter respondia por crimes relacionados à compra e posse ilegal de arma de fogo e também havia se declarado culpado por nove infrações fiscais, que envolviam cerca de US$ 1,4 milhão em impostos não pagos.
A decisão representou uma mudança de posição do então presidente, que havia afirmado diversas vezes, antes e depois das eleições de 2024, que não utilizaria o poder de clemência em favor do filho.
Com o perdão, Hunter deixou de ser sentenciado e foi encerrada a possibilidade de cumprimento de pena pelos crimes federais abrangidos pelo ato presidencial.
Na justificativa oficial, Biden afirmou que o filho teria sido alvo de um processo seletivo motivado por razões políticas e disse acreditar que a disputa partidária influenciou a condução das investigações.
O perdão alcançou eventuais crimes federais praticados entre janeiro de 2014 e dezembro de 2024, período que inclui sua atuação no conselho da empresa ucraniana Burisma.
Espionagem de Dilma gerou crise entre Brasil e EUA
Outro episódio marcante ocorreu durante o governo do presidente Barack Obama. Em 2013, documentos revelados por Edward Snowden mostraram que a National Security Agency monitorou comunicações da então presidente Dilma Rousseff, além de ministros, diplomatas, assessores e até o telefone via satélite do avião presidencial.
A lista divulgada revelou que dezenas de números ligados ao governo brasileiro estavam sob vigilância da agência americana.
Entre os alvos estavam integrantes da Presidência da República, do Ministério da Fazenda, do Banco Central, do Itamaraty e do Gabinete de Segurança Institucional.
As revelações provocaram uma das maiores crises diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos nas últimas décadas.
Dilma cancelou uma visita de Estado a Washington, condenou publicamente a espionagem na Assembleia-Geral da ONU e exigiu explicações do governo americano.
O relacionamento bilateral só começou a ser restabelecido nos anos seguintes, quando os dois governos retomaram gradualmente o diálogo diplomático e econômico.
Donald Trump e uma nova fase de confrontos
Como mostrou O Brasiliansita, Donald Trump chegou à Casa Branca pela primeira vez em 2017 defendendo endurecimento da política migratória, revisão de acordos comerciais e redução da atuação do governo federal em diversas áreas.
Seu primeiro mandato foi marcado pela construção de trechos do muro na fronteira com o México, pela política de separação de famílias de imigrantes, por dois processos de impeachment e por sucessivos confrontos com o Congresso, a imprensa e parte do Judiciário.
Após a derrota eleitoral em 2020, Trump contestou o resultado da eleição presidencial. Em 6 de janeiro de 2021, apoiadores invadiram o Capitólio durante a certificação da vitória de Joe Biden. O episódio levou ao segundo impeachment do então presidente.
O segundo mandato amplia os embates
De volta à Presidência em 2025, Trump retomou propostas de deportação em larga escala, reforço das barreiras migratórias, revisão de programas federais e mudanças na estrutura administrativa do governo.
Trump disse que os Estados Unidos deveriam priorizar a entrada de pessoas de países considerados por ele “agradáveis”, como Dinamarca e Suíça, em vez de receber imigrantes de nações em crise.
Durante um evento de arrecadação de fundos na Flórida, o presidente afirmou que o país deveria restringir a imigração oriunda de regiões que classificou como “desastres” ou de “terceiro mundo”.
Seu segundo mandato também foi acompanhado por disputas envolvendo universidades, ordens executivas contestadas judicialmente, conflitos com estados governados por democratas, debates sobre tarifas comerciais, atuação das agências federais, investigações conduzidas pelo Congresso e questionamentos sobre os limites do poder presidencial.
No campo internacional, decisões relacionadas a conflitos no Oriente Médio, Ucrânia e imigração voltaram a provocar divergências entre a Casa Branca e parlamentares dos dois partidos, reabrindo discussões sobre o papel constitucional do Congresso na autorização de operações militares e na fiscalização do Executivo.
Guerra com o Irã
A guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada no fim de fevereiro de 2026, ampliou o temor de uma escalada militar no Oriente Médio e de seus reflexos sobre a economia global.
Além dos bombardeios contra instalações militares e nucleares, o conflito passou a atingir áreas civis, provocando mortes, destruição de infraestrutura e uma nova onda de deslocamentos de moradores.
O fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo, elevou as preocupações com inflação, desaceleração econômica e riscos de recessão em diversos países.
Um dos episódios mais controversos ocorreu no primeiro dia da ofensiva, quando forças norte-americanas utilizaram um novo modelo de míssil balístico de curto alcance contra uma escola e um centro esportivo no Irã.
O armamento, programado para explodir antes de atingir o solo e dispersar fragmentos de tungstênio, teria sido empregado em um ataque que deixou dezenas de mortos.
No mesmo dia, outro bombardeio atingiu uma escola na cidade de Minab e matou 175 pessoas, também atribuído aos Estados Unidos pela investigação.
Em resposta, o Irã divulgou um vídeo de propaganda de guerra feito com inteligência artificial para provocar o presidente dos Estados Unidos.
O governo iraniano condenou os ataques, enquanto as autoridades norte-americanas não se manifestaram.
A Copa da segregação
A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 foi marcada por restrições inéditas impostas pelos Estados Unidos, um dos países-sede do torneio, em meio à guerra entre os dois países.
Com parte da delegação sem visto e impedida de entrar em território americano, a seleção precisou instalar sua base em Tijuana, no México, cruzando a fronteira apenas na véspera de cada partida e retornando logo após os jogos.
Somente na última rodada da fase de grupos o governo norte-americano flexibilizou as regras e autorizou a entrada da equipe dois dias antes da partida contra o Egito.
Após a eliminação, a Federação de Futebol do Irã divulgou um comunicado classificando a conduta dos Estados Unidos como “injusta e antidesportiva”, enquanto agradeceu ao governo e ao povo mexicano pela hospitalidade oferecida durante o torneio.
Os jogadores também deixaram cartas em estádios norte-americanos agradecendo a recepção das cidades anfitriãs e lembrando vítimas da guerra, incluindo meninas mortas em Minab.
O capitão Mehdi Taremi afirmou que a equipe teve a sensação de que “queriam o Irã eliminado” e classificou a experiência no Mundial como um desastre.

