A acusação de que o presidente Gustavo Petro estaria preparando um golpe de Estado e o apelo do presidente eleito Abelardo de la Espriella às Forças Armadas aumentaram a tensão política na Colômbia a um mês da posse do novo governo.
Apesar da escalada das declarações, a possibilidade imediata de uma ruptura institucional ou de uma intervenção dos militares permanece baixa.
A avaliação é de Rafael Moredo, internacionalista pela Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em gestão pública pelo Insper e coordenador de políticas públicas do Livres.
Para ele, a gravidade da crise deve ser medida pela reação das instituições colombianas, e não apenas pelas acusações feitas pelos dois presidentes.
“É uma crise política séria, mas ainda não chegou ao patamar de ruptura institucional. Para ser ruptura, você precisaria ver as instituições falhando, o tribunal eleitoral contestado, os militares divididos, o Congresso paralisado. Por enquanto, o que temos é uma disputa de narrativa intensa, com dois líderes tentando controlar a percepção pública sobre quem está ameaçando a democracia”, destaca.
De la Espriella acusou Petro de tentar permanecer no poder e pediu às Forças Armadas que protejam a Constituição e não cumpram eventuais ordens contrárias à democracia.
O presidente eleito também suspendeu o processo de transição, enquanto o atual chefe de Estado questiona a legitimidade do resultado das eleições.
Reconhecimento da derrota reduz espaço para contestação
Um dos principais elementos para avaliar o risco de ruptura está na posição adotada por Iván Cepeda, candidato governista derrotado no segundo turno.
Embora Petro continue questionando o resultado, seu próprio aliado reconheceu a vitória do adversário três dias depois da apuração.
Para Moredo, a posição de Cepeda diferencia uma contestação conduzida pelo presidente em exercício de uma crise provocada pelo funcionamento do sistema eleitoral.
“Petro contesta o resultado, acusa fraude com interferência externa (apontando até empresas israelenses), mas o seu próprio candidato, Ivan Cepeda, reconheceu a derrota três dias depois da apuração. Isso é relevante: quando o derrotado aceita e o presidente em exercício não, o problema está com Petro, não com o sistema”, afirma.
De la Espriella também elevou o tom da disputa ao acusar o atual governo de preparar um golpe sem apresentar evidências que sustentem a denúncia.
“Do outro lado, De la Espriella acusa Petro de planejar um golpe, mas sem apresentar provas concretas. São acusações que inflamam a base política de cada um, mas que por enquanto não se traduziram em ação institucional concreta de nenhum lado”, explica.
Adesão dos militares a uma ofensiva é considerada improvável
A entrada das Forças Armadas na disputa aumentou as dúvidas sobre a possibilidade de os militares participarem de uma tentativa de ruptura.
O presidente eleito pediu publicamente que os integrantes da instituição não cumpram eventuais ordens de Petro que contrariem a Constituição.
Na avaliação de Moredo, a probabilidade de uma adesão militar ao apelo é baixa. A Colômbia mantém uma tradição de controle civil sobre as Forças Armadas desde 1958, quando terminou o governo do general Gustavo Rojas Pinilla e o país restabeleceu o poder civil por meio do Pacto da Frente Nacional.
“Quando um presidente eleito pede às Forças Armadas que ‘não obedeçam ordens inconstitucionais’, ele não está pedindo um golpe. Está antecipando um cenário e tentando selar o compromisso público dos militares antes que Petro eventualmente tente algo”, enfaiza.
A Constituição de 1991 estabelece a subordinação das Forças Armadas ao presidente em exercício. Até a posse marcada para 7 de agosto, esse cargo continua ocupado por Petro, enquanto De la Espriella permanece sem autoridade constitucional para comandar os militares.
“Então há aqui uma ironia jurídica: De la Espriella está pedindo aos militares que obedeçam a ele, um presidente eleito sem mandato, e não ao presidente constitucional em exercício. Isso é tecnicamente problemático”, destaca.
Silêncio das Forças Armadas é um sinal acompanhado na crise
A reação dos militares passou a ser um dos principais elementos para medir a evolução da disputa. Uma manifestação pública de apoio a qualquer dos lados poderia modificar a dimensão da crise e aumentar o risco de ruptura.
Até o momento, porém, as Forças Armadas não apresentaram sinais públicos de divisão.
“O que os militares colombianos farão, na prática, é provavelmente o que sempre fizeram em crises desse tipo: ficar em silêncio e aguardar o desenrolar institucional. Uma postura de não intervenção ativa é a mais provável. E, do ponto de vista liberal e democrático, é também a mais desejável”, afirma.
O especialista aponta que uma mudança nessa postura representaria um dos principais sinais de agravamento. A manifestação de setores militares em favor de Petro ou De la Espriella poderia abrir uma crise dentro da estrutura responsável pela segurança e defesa do país.
“O sinal de alerta real seria se o Tribunal Constitucional da Colômbia começasse a ser desrespeitado, ou se as Forças Armadas dessem qualquer sinal público de lealdade dividida. Isso ainda não aconteceu”, explica.
Manifestações podem elevar tensão antes da posse
O cenário considerado mais provável até 7 de agosto envolve a continuidade das disputas nos tribunais, protestos de rua e novas declarações dos dois grupos políticos.
Um dos momentos acompanhados com maior atenção será 20 de julho, data da Independência da Colômbia. Petro convocou manifestações e anunciou que pretende antecipar seu discurso de despedida do mandato durante a mobilização.
“Isso pode gerar episódios de violência entre apoiadores, especialmente considerando que os apoiadores de De la Espriella têm memória dos protestos de 2019 a 2021, quando manifestações convocadas por Petro contra o então presidente Duque deixaram dezenas de mortos”, destaca.
Três sinais mostrariam risco concreto de ruptura
A evolução da crise depende principalmente da atuação dos tribunais, das Forças Armadas e do próprio governo Petro.
Para Moredo, declarações políticas e acusações sem provas elevam a instabilidade, mas não são suficientes para caracterizar uma tentativa concreta de golpe.
“Os sinais de alerta que indicariam um agravamento real seriam: primeiro, se o Tribunal Eleitoral ou a Corte Constitucional colombiana começassem a ser desafiados publicamente por qualquer dos lados. Segundo, se os militares emitissem algum comunicado que não fosse de neutralidade explícita”, enfatiza.
Moredo, afirma que o terceiro cenário, considerado o mais grave, seria uma tentativa de Petro de decretar algum estado de exceção previsto pela Constituição colombiana para casos de grave perturbação da ordem, com o objetivo de atrasar ou inviabilizar a transição.
“Até agora, nenhum desses sinais se materializou. A crise é real, o ruído é alto, mas as instituições colombianas têm mostrado mais resiliência do que a retórica dos dois lados sugere”, finaliza.

