A Netflix enfrenta dificuldades para manter o público de algumas de suas principais séries depois da temporada de estreia.
Dados da própria empresa mostram que “One Piece” (Única Peça) perdeu mais de 30% da audiência no segundo ano, enquanto “Treta” registrou queda superior a 70% e “O Agente Noturno” teve redução de 50%, considerando as quatro primeiras semanas de disponibilidade de cada produção, segundo a Bloomberg.
A redução no público das continuações passou a ser estudada pela companhia. Historicamente, as produções da plataforma registram seus maiores índices de audiência no primeiro ano, diferentemente de programas da televisão tradicional, que podiam ampliar o número de espectadores ao longo da exibição por meio da repercussão entre o público.
Outro resultado ocorreu com “Avatar: O Último Mestre do Ar”, uma das produções mais assistidas da plataforma em 2024.
A temporada mais recente perdeu mais de 60% dos espectadores na primeira semana, enquanto as comédias “A Dona da Bola” e “As Quatro Estações” registraram reduções superiores a 50% na comparação com o primeiro ano.
Menor engajamento amplia pressão por novos sucessos
O tempo total dedicado pelos clientes à Netflix avançou menos de 2% no ano passado, enquanto as ações da companhia acumulam queda de 17% em 2026 e de 40% nos últimos 12 meses.
Nos cinco primeiros meses deste ano, apenas “Dele & Dela” e a quarta temporada de “Bridgerton” alcançaram audiência suficiente para serem consideradas grandes sucessos.
A série baseada nos livros de Julia Quinn foi uma das exceções entre as produções que conseguiram manter o interesse do público em temporadas posteriores.
Após o lançamento de “Bridgerton”, a companhia passou cerca de quatro meses sem registrar outro título com alcance semelhante.
Apesar das expectativas em torno de “Treta” e “One Piece” (Única Peça), o maior resultado semanal de audiência em abril ou maio foi registrado pelo programa de humor, “Rachando o Bico” (também chamado de “Funny AF”), dedicado ao comediante Kevin Hart.
Diante da desaceleração, os executivos ampliaram os formatos disponíveis aos assinantes.
A estratégia inclui esportes ao vivo, podcasts e parcerias com empresas de mídia de outros países, em um período no qual estimativas externas registram menor crescimento no número de usuários nos Estados Unidos.
Vídeo online se aproxima da televisão no Brasil
A divisão do tempo dos espectadores entre diferentes meios também aparece nos dados brasileiros.
Como informou a Folha de S.Paulo, as plataformas de vídeo online responderam por 37,2% do consumo em diferentes dispositivos no país em dezembro de 2025, diante de 62,8% da televisão linear.
O YouTube liderou o segmento digital, com 21,6% do consumo de vídeo, seguido pela Netflix, com 5,6%, e pelo TikTok, com 5%. Entre os demais serviços sob demanda, o Globoplay registrou 1,7%, o Prime Video alcançou 1,1%, a HBO Max ficou com 0,5% e o Disney+ teve 0,3%.
Considerando exclusivamente os aparelhos de televisão, a diferença entre os formatos é maior. A programação linear concentrou 74,4% do consumo, diante de 25,6% dos vídeos online, enquanto a TV paga registrou participação de 6,9% quando considerados os diferentes dispositivos.
Mundial faz público alternar formas de transmissão
Um levantamento da Samsung Ads Brasil revelou que o avanço do streaming também modificou a forma de acompanhar competições esportivas.
A pesquisa mostra que 80% dos espectadores costumam assistir a eventos ao vivo por plataformas digitais, enquanto 76% contrataram algum serviço especificamente para ter acesso a essas transmissões.
O levantamento também registrou uma alta rotatividade entre assinantes: 54% pausam ou cancelam o serviço após o fim de uma temporada esportiva e 39% já encerraram uma assinatura porque a plataforma não oferecia competições ao vivo.
A Copa do Mundo de 2026 ampliou esse movimento entre diferentes serviços. O estudo aponta que 74% das pessoas interessadas em acompanhar o torneio pretendem assistir aos jogos por streaming, e 44% dos entrevistados que não possuem assinatura de uma plataforma com as transmissões aceitariam pagar entre US$ 6 e US$ 10 por um acesso temporário.
Entre os consumidores que cancelam os serviços ao término das competições, 72% voltam a assinar no início da temporada seguinte, enquanto 86% dos assinantes interessados em esportes também consomem outros tipos de conteúdo.
Plataformas digitais ultrapassam atrações da Globo
A redistribuição do público provocou mudanças pontuais nos índices registrados pela televisão aberta.
Dados consolidados do Ibope divulgados pelo portal TV Pop mostraram que três programas da Globo ficaram atrás do conjunto dos serviços de streaming na Grande São Paulo no sábado, 4 de julho.
A novela “A Nobreza do Amor” marcou média de 15,9 pontos, diante de 22,8 das plataformas digitais no mesmo horário.
Na sequência, o “SP2” alcançou 17,9 pontos contra 23,5 dos serviços sob demanda, enquanto “Coração Acelerado” obteve 18,2 pontos diante de 19,5.
Dois dias antes, o “Jornal Nacional” havia registrado 22,3 pontos durante a exibição de partidas do Mundial, abaixo dos 24 pontos das plataformas digitais. A novela “Quem Ama Cuida” também ficou na segunda posição, com 22,8 pontos, enquanto os serviços online alcançaram 25,3.
Criadores ampliam circulação do conteúdo nas redes
O consumo distribuído entre diferentes ambientes digitais também envolve redes sociais e criadores de conteúdo.
Conforme publicou o Fórum Base, a televisão conectada alcança 67% da população digital brasileira, o equivalente a 88 milhões de pessoas, e os usuários acessam, em média, 8,9 serviços de streaming pagos e gratuitos.
Na primeira fase da Copa do Mundo, as transmissões da CazéTV acumularam mais de 1,5 bilhão de horas assistidas no YouTube e geraram mais de 300 milhões de interações nas redes sociais.
Além dos jogos ao vivo, lances, entrevistas e outros momentos das partidas passaram a circular em vídeos curtos, publicações e comentários.
Os brasileiros permanecem mais de 50 horas por mês nas redes sociais, enquanto os influenciadores são responsáveis por 36% das interações globais nessas plataformas.
Conteúdos identificados como publicidade somaram 425 milhões de interações no Brasil em 2025, e empresas de mídia passaram a estabelecer parcerias com criadores para ampliar a distribuição de suas produções.

