O empresário Daniel Bueno Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ordenou uma devassa detalhada na vida pessoal e patrimonial do CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, e de sua esposa, Camila Moretti Maluhy.
Segundo a PF, a investigação clandestina foi delegada a Thiago Miranda Silva, dono da agência de comunicação MiThi e ex-sócio do Portal Léo Dias. Diálogos obtidos em mídias obtidas ao longo da Operação Compliance Zero mostram Vorcaro desabafando com Miranda sobre o incômodo que o executivo causava nos bastidores do setor financeiro.
Vorcaro pede para Miranda “fazer um levantamento do Milton Maluhy” porque o presidente do Itaú “esta me causando muito problema”. Em seguida, o banqueiro pergunta ao empresário: “Me ajuda nisso?”. Thiago Miranda então responde: “Deixa comigo”.
Os achados de Miranda foram registrados num dossiê intitulado “Família Maluhy Relatório sobre Execução Fiscal – Caso Milton Maluhy Filho e Camila Moretti Maluhy”. O relatório ostentava o aviso de que se tratavam de “informações confidenciais” por apresentar dados de identificação civil, números de CPF, além de informações de caráter estritamente pessoal e patrimonial do casal.
O documento é ligado a Thiago Miranda porque a perícia da PF identificou a presença da identidade visual da Agência MiThi no arquivo, comprovando que o material foi editado ou circulou diretamente no âmbito da estrutura empresarial de Thiago Miranda.
De acordo com a PF, Vorcaro pretendia usar o dossiê para constranger ou retaliar o executivo sempre que ele representasse algum tipo de obstáculo ou risco reputacional aos interesses do dono do extinto Banco Master.
Thiago Miranda informou a Vorcaro que o material contra o presidente do Itaú estava concluído, mas sugeriu uma estratégia para o vazamento:
“Passando o carnaval falamos. Estou com tudo pronto do Milton. Mas quero fazer da mesma forma. Soltar por outro veículo”.

Operador de influência
Thiago Miranda passou a ser conheido por ter intermediado as conversas em que o pré-candidato a Presidência Flávio Bolsonaro (PL) cobra Vorcaro sobre os R$ 62 milhões prometidos pelo banqueiro para financiar o filme “Dark Horse”, que contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Até agora, Miranda não era investigado no Caso Master. Mas tudo mudou porque a Polícia Federal o considera como articulador do chamado “Projeto DV”.
Diz a PF que a iniciativa consistia em uma estrutura financiada com recursos originários do esquema de fraudes no Banco Master para inflar a reputação de Daniel Vorcaro, promover campanhas de desinformação na mídia e atacar instituições reguladoras, como o Banco Central.
Segundo a PF, Miranda funcionava como o elo entre o dinheiro de Vorcaro e a cooptação de canais de comunicação. O empresário da comunicação teria utilizado verbas milionárias repassadas pela SUPER Empreendimentos e Participações, empresa de Vorcaro, sob o pretexto de negociar a compra de parte do “Portal de Notícias Léo Dias” por R$ 3,5 milhões.
Com os recursos em conta, a empresa de Miranda subcontratou agências parceiras, como a Unlimited, para oferecer contratos de até R$ 2 milhões a influenciadores digitais e jornalistas. Em contrapartida, os profissionais eram assinavam acordos de confidencialidade e publicavam conteúdos críticos à decisão do Banco Central (BC) de liquidar o Banco Master.
As gangues de Vorcaro
Ao analisar a gravidade das condutas e referendar os mandados de busca e apreensão solicitados pela PF, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, citou trecho em que a PF diz as táticas de Vorcaro e Miranda têm “contornos de máfia”.
“Ainda quanto ao ponto, a representação policial realça que, embora não tenham sido identificados elementos que apontem para a existência de vínculo operacional entre o “time” de Thiago Miranda e outros investigados ligados ao grupo criminoso, como aqueles inseridos nas estruturas denominadas “a turma” e “os meninos”, verificou-se a utilização de modus operandi semelhante ao empregado pela organização criminosa de Daniel Vorcaro para coagir, intimidar, violar a privacidade e dados sigilosos de jornalistas, pessoas ligadas a autoridades públicas e potenciais adversários/desafetos”, complementou Mendonça.
A Turma era uma das células criminosas ligadas a Vorcaro para garantir e expandir as fraudes do Banco Master. O grupo funcionava como um braço privado de vigilância, coerção e intimidação para proteger os interesses do banqueiro. Seus integrantes monitoravam presencialmente e de forma ilegal os passos de desafetos, críticos, jornalistas e autoridades.
Segundo a PF, A Turma atuou para obstruir a investigação sobre o Master e planejou agressões físicas graves contra diversos profissionais, inclusive da imprensa, para silenciar denúncias e afastar desafetos do banqueiro. Essa rede também servia para subornar servidores, inclusive do Banco Central, que forneciam consultoria e informações estratégicas.
O grupo operava por meio de uma divisão clara de tarefas logísticas e cibernéticas, sob a coordenação de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de “Sicário” e que se suicidou numa carceragem da PF em Minas Gerais. Utilizando credenciais de terceiros, a organização invadia sistemas restritos de órgãos públicos para coletar dados sigilosos, monitorando inclusive a própria PF e o Ministério Público Federal.
Há registros na investigação sobre Sicário simulando solicitações oficiais para remover conteúdos incômodos das plataformas digitais, blindando a imagem do banqueiro e de suas empresas. As atividades clandestinas custavam aproximadamente R$ 1 milhão por mês.
A intermediação e a operacionalização desses pagamentos ficavam a cargo de Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, que simulava contratos de prestação de serviços e usava empresas de consultoria fictícias para pagar os integrantes de A Turma.
Além de A Turma, Vorcaro também contava com os serviços prestados por Os Meninos, que funcionavam como uma célula especializada em inteligência cibernética e guerra digital. A estrutura também era gerenciada por Sicário, enquanto a liderança técnica da quadrilha ficava a cargo de David Henrique Alves.
Alves utilizava sua empresa, a Bipe Software Brasil Ltda., para camuflar o recebimento de pagamentos mensais de R$ 75 mil feitos por Vorcaro e seu pai, Henrique. O braço tecnológico dos Vorcaro contava com Victor Lima Sedlmaier nos serviços digitais e Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos, o “Rodriguinho”, para compra de domínios na internet e manter ativa a infraestrutura usada nas operações ilegais.
O funcionamento do grupo também envolvia uma forte estrutura de ocultação e obstrução da Justiça, coordenada por Katherine Venâncio Telles. Após o início das operações policiais, o bando montou uma base móvel e trocava constantemente de endereço para esconder servidores e notebooks criptografados de última geração. Todo esse aparato tecnológico e a logística de fuga foram financiados diretamente por Henrique Vorcaro para proteger os equipamentos e esconder os hackers envolvidos nos crimes.7
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

