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Política

Qual o custo da violência contra a mulher para o Estado?

Crescimento das denúncias no Ligue 180 reacendeu debate sobre os impactos econômicos da violência doméstica

Qual o custo da violência contra a mulher para o Estado?

O aumento das denúncias de violência contra a mulher registradas pelo Ligue 180 passou a ampliar discussões sobre os impactos econômicos gerados pela violência doméstica no Brasil.

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Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que o Ligue 180 registrou 155.111 denúncias de violência contra mulheres em 2025, alta de 17,4% em relação ao ano anterior.

Apenas no primeiro trimestre de 2026, o canal contabilizou 45.735 denúncias, crescimento de 23% na comparação com o mesmo período de 2025.

O levantamento também apontou mais de 679 mil violações registradas em 2025. Entre os casos mais frequentes aparecem violência psicológica, física, patrimonial e sexual.

Para a delegada de polícia e mestre em Filosofia Raquel Gallinati, ouvida por O Brasilianista o avanço desses números produz efeitos financeiros permanentes para o Estado porque cada ocorrência mobiliza diferentes estruturas públicas simultaneamente.

“A violência contra a mulher produz consequências que ultrapassam a esfera individual da vítima. Cada caso de violência mobiliza uma complexa estrutura estatal composta por forças policiais, perícia criminal, Ministério Público, Poder Judiciário, sistema prisional, serviços de saúde e rede socioassistencial”, contextualiza.

Estrutura pública é acionada em diferentes áreas

Os impactos econômicos da violência doméstica começam ainda nos primeiros atendimentos de emergência. Em muitos casos, as vítimas precisam de ambulâncias, internações hospitalares, exames periciais e acompanhamento médico contínuo.

Segundo o Ministério das Mulheres, a violência psicológica respondeu por quase metade das violações registradas em 2025, com mais de 339 mil ocorrências notificadas pelo Ligue 180.

Raquel explica que esse cenário amplia a demanda por tratamentos de longo prazo dentro do sistema público de saúde. “Na área da saúde, são frequentes atendimentos de urgência, internações, tratamentos psicológicos e psiquiátricos de longa duração”, detalha a delegada ao comentar os reflexos da violência sobre o SUS.

O impacto também aparece na segurança pública. A especialista afirma que grande parte dos casos de violência doméstica envolve reincidência.

“Sob a perspectiva da segurança pública, a reincidência da violência doméstica gera sucessivos acionamentos policiais, instauração de inquéritos, pedidos de medidas protetivas e investigações criminais”, observa.

Violência afeta produtividade e renda das vítimas

Além da pressão sobre os serviços públicos, os casos de violência doméstica também provocam impactos econômicos indiretos relacionados ao mercado de trabalho e à renda familiar.

Dados do Ministério das Mulheres indicam que muitas vítimas convivem durante anos com agressões recorrentes. Mais de 32 mil denúncias registradas em 2025 relataram violência com duração superior a um ano.

Raquel avalia que a permanência nesses ciclos compromete a autonomia financeira das vítimas e reduz a capacidade produtiva de milhares de mulheres no país.

“Muitas vítimas precisam se afastar do trabalho, reduzem sua produtividade ou perdem completamente sua capacidade de geração de renda”, ressalta.

“Portanto, a violência contra a mulher não é apenas uma violação de direitos fundamentais. Trata-se também de um fator que aumenta despesas públicas, reduz a força produtiva e compromete o desenvolvimento econômico e social do país”, analisa.

O Ministério das Mulheres também aponta que o ambiente doméstico segue como principal local das agressões. Em 2025, mais de 63 mil denúncias ocorreram dentro da casa da vítima.

Ausência de cálculo nacional dificulta mensuração

Apesar do crescimento dos registros, o Brasil ainda não possui um sistema unificado capaz de calcular o impacto financeiro total da violência contra a mulher.

Na avaliação de Raquel, essa ausência dificulta a formulação de políticas públicas mais direcionadas para prevenção e redução de custos futuros.

“Os custos envolvem atendimento hospitalar, assistência psicológica, atuação policial, perícias, processos judiciais, sistema penitenciário, programas de acolhimento e proteção”, detalha.

“O enfrentamento à violência contra a mulher deve ser compreendido como uma política pública estratégica, tanto sob o aspecto da proteção dos direitos humanos quanto da racionalidade econômica”, pondera.

Segundo a delegada, investimentos em prevenção tendem a reduzir reincidência criminal, hospitalizações e acionamentos frequentes do sistema de Justiça.

“Educação, fortalecimento da rede de proteção, monitoramento de agressores e resposta rápida do sistema de Justiça produzem resultados concretos na redução da reincidência e dos custos estatais futuros”, destaca.

Raquel avalia que romper ciclos de agressão produz efeitos sociais e econômicos permanentes para o país.

“Cada feminicídio evitado, cada agressão interrompida e cada ciclo de violência rompido representam não apenas vidas preservadas, mas também redução de gastos públicos, fortalecimento da economia e aumento da eficiência das políticas de segurança, saúde e assistência social”, conclui.

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