O avanço das mudanças climáticas já deixou de ser apenas um desafio ambiental e passou a representar um risco econômico para empresas de todos os portes. Um estudo divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que cada aumento de 0,1°C na temperatura média global pode gerar um prejuízo adicional de R$ 5,6 bilhões ao Brasil em decorrência de desastres naturais. A estimativa faz parte do Guia da Indústria para Adaptação à Mudança do Clima, lançado pela entidade para orientar empresas sobre como reduzir riscos e fortalecer a competitividade.
Segundo a CNI, o país registrou mais de 64 mil desastres naturais entre 1991 e 2023. Apenas entre 2020 e 2023 foram mais de 16 mil ocorrências, com predominância de secas, enchentes e tempestades. Além dos prejuízos diretos causados por esses eventos, o estudo alerta para mudanças regulatórias, novas exigências do mercado internacional e dificuldades crescentes para empresas que não se adaptarem à economia de baixo carbono.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, os impactos econômicos das mudanças climáticas já fazem parte da rotina dos empresários, embora muitos ainda enxerguem a adaptação ambiental apenas como um custo adicional.
Custos já aparecem no dia a dia das empresas
O economista Marco Vinholi afirma que as mudanças climáticas passaram a afetar diretamente a competitividade das empresas.
“As mudanças climáticas deixaram de ser tema exclusivamente ambiental e passaram a ser questão de competitividade econômica. O empresário já sente esse impacto no aumento dos custos com energia, seguros, logística, manutenção de equipamentos e interrupções na produção causadas por enchentes, secas e ondas de calor”, explica.
Segundo ele, as pequenas empresas costumam sofrer ainda mais, porque possuem menor capacidade financeira para absorver prejuízos provocados por eventos extremos.
O especialista em finanças Fellipe Rabelo faz avaliação semelhante. Segundo ele, os custos chegam por diferentes frentes ao mesmo tempo.
“O custo já chegou por cinco portas: seguros mais caros, logística interrompida, energia mais cara durante períodos de seca, queda da produtividade causada pelo calor e novos investimentos em adaptação que antes nem existiam no orçamento das empresas”, afirma.
Rabelo lembra que somente as enchentes registradas no Rio Grande do Sul provocaram o maior prejuízo da história do mercado segurador brasileiro, levando as resseguradoras a reavaliarem o risco de operar no país.
Agronegócio lidera perdas, mas impactos atingem toda a economia
Embora o agronegócio seja apontado como o setor mais vulnerável, os especialistas afirmam que praticamente toda a economia será afetada.
Para Marco Vinholi, o campo depende diretamente do regime de chuvas e das condições climáticas, mas indústria, comércio, turismo, construção civil, transporte e logística também enfrentam riscos crescentes.
“O aumento dos eventos extremos interrompe cadeias de abastecimento, danifica infraestrutura e eleva custos operacionais. Na prática, praticamente todos os setores serão impactados, direta ou indiretamente”, afirma.
O professor de Direito Ambiental Tiago Trentinella destaca que o setor energético também tende a sofrer impactos importantes.
Segundo ele, a matriz elétrica brasileira depende majoritariamente das hidrelétricas. Com alterações no regime de chuvas, há redução dos reservatórios e aumento da necessidade de utilizar termelétricas, que possuem custo de geração maior.
“Esse aumento acaba contaminando toda a cadeia produtiva até chegar ao consumidor final”, explica.
Custos invisíveis preocupam especialistas
Além dos prejuízos provocados por enchentes, secas e incêndios, existem despesas menos perceptíveis que podem reduzir a competitividade das empresas.
Marco Vinholi cita queda de produtividade causada pelo calor, aumento do absenteísmo, dificuldade para contratar seguros, crédito mais caro e necessidade de cumprir novas exigências ambientais.
“Empresas que não se anteciparem também podem perder espaço em cadeias globais que exigem critérios de sustentabilidade”, afirma.
Na mesma linha, Fellipe Rabelo lembra que diversas economias já começam a exigir comprovação ambiental dos produtos.
Segundo ele, mecanismos como o CBAM, criado pela União Europeia para taxar produtos conforme suas emissões de carbono, tendem a aumentar os custos para empresas que não investirem em redução de emissões.
Já Tiago Trentinella acrescenta que bancos e seguradoras também passaram a incorporar o risco climático na análise para concessão de crédito e seguros.
“Isso pode encarecer financiamentos e até influenciar decisões sobre novos investimentos”, observa.
Investir em adaptação pode reduzir despesas
Apesar dos custos iniciais, os três especialistas concordam que investir em sustentabilidade representa economia no médio e longo prazo.
Marco Vinholi destaca que eficiência energética, reaproveitamento de água, energia renovável e gestão de resíduos reduzem desperdícios e fortalecem a capacidade das empresas de enfrentar eventos extremos.
“Sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda de imagem e passou a ser estratégia de gestão”, afirma.
Fellipe Rabelo cita estudos internacionais que apontam retorno financeiro para empresas que investem em adaptação climática.
Segundo ele, a relação entre benefício e custo pode chegar a quatro para um, além de facilitar o acesso ao crédito e a financiamentos verdes.
Para Tiago Trentinella, utilizar recursos naturais de forma mais eficiente também significa gastar menos para produzir.
“Uma empresa que gera menos resíduos usa melhor sua matéria-prima, reduz custos de manejo e melhora sua eficiência financeira”, explica.
Empresas ainda enfrentam dificuldades para se adaptar
Embora grandes empresas tenham avançado na agenda ambiental, os especialistas avaliam que boa parte do setor produtivo ainda está atrasada.
Marco Vinholi afirma que muitos empresários ainda enxergam sustentabilidade como despesa e não como investimento.
“O Brasil precisa ampliar o acesso à informação, tecnologia e financiamento para que essa transição seja possível para empresas de todos os portes”, diz.
Rabelo faz avaliação semelhante e destaca que pequenas e médias empresas continuam sendo as mais vulneráveis.
Já Trentinella observa que muitas organizações só começam a investir em adaptação após sofrerem prejuízos provocados por eventos extremos ou por exigências regulatórias.
Políticas públicas são consideradas fundamentais
Além dos investimentos privados, os especialistas defendem maior participação do poder público para reduzir os impactos econômicos das mudanças climáticas.
Marco Vinholi propõe ampliação das linhas de crédito para adaptação climática, incentivo à inovação, fortalecimento da eficiência energética e investimentos em infraestrutura resiliente.
Fellipe Rabelo defende a reconstrução do seguro rural, ampliação da infraestrutura de prevenção e fortalecimento do mercado brasileiro de carbono.
Já Tiago Trentinella afirma que o caminho passa por planejamento urbano, incentivos fiscais para tecnologias limpas, ampliação do seguro rural e sistemas de monitoramento climático.
Os três especialistas convergem em um ponto: adaptar-se às mudanças climáticas deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser uma estratégia para reduzir custos, proteger investimentos e manter a competitividade das empresas diante de um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.

