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Geopolítica

Os efeitos da substituição do “pedágio” de Trump no Estreito de Ormuz

O presidente dos EUA recuou da sua ideia de impor taxa na navegação de cargas na região do Golfo Pérsico

Os efeitos da substituição do “pedágio” de Trump no Estreito de Ormuz

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desistiu de cobrar uma taxa de 20% sobre produtos de navios que circulem pelo Estreito de Ormuz um dia após anunciar a tarifa.

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Nesta terça-feira (14), ele afirmou que vai “substituir” a cobrança da taxa por acordos comerciais e de investimentos grandes de países do Golfo Pérsico. Ainda assim, o bloqueio naval no Estreito de Ormuz seguirá valendo.

José Renato Ferraz da Silveira. professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), avalia que a medida é um recado aos países do Golfo, de que a proteção enviada pelos americanos terá um preço.

Ao substituir a taxa por investimentos, Trump não abandonou essa lógica. Ele apenas mudou a forma de cobrança.

“Esse é um conceito que eu tenho tentado utilizar, que é a chamada diplomacia da incerteza calculada. Ela funciona ao ameaçar o extraordinário para obter o que em circunstâncias normais seria muito mais difícil de negociar. É a forma que Donald Trump ia agir. Então o problema que é o Estreito de Ormuz, não é apenas mais uma mesa de negociação, mas uma das regiões mais militarizadas e sensíveis do mundo. E nesse ambiente, uma ameaça utilizada como técnica de barganha, pode ser interpretada pelo adversário como preparação para a guerra. O que não deixa de ser, evidentemente”, explica.

Essa é uma característica fundamental da política externa de Donald Trump, de acordo com o especialista. “Ele lança uma proposta extrema, desloca os limites do debate, provoca insegurança, um certo temor, e em seguida ele oferece uma solução aparentemente mais moderada. Essa é uma estratégia que Donald Trump sempre utilizou como empresário e agora como negociador. Ele sempre, evidentemente, procura extrair vantagens econômicas e políticas”, afirma.

Além disso, a possibilidade de criar uma espécie de pedágio dos produtos transportados no estreito violaria princípios do direito internacional. Afinal, a passagem não pode ser tratada como uma “rodovia privada”, como avalia o professor.

A cobrança por serviços específicos que efetivamente são prestados a uma embarcação, por exemplo, um reboque, uma pilotagem ou uma assistência portuária são permitidos. No entanto, Trump propôs uma taxa geral baseado no uso da rota marítima. Os Estados Unidos também não são o estado costeiro do Estreito e, portanto, não possuem soberania territorial sobre aquelas águas, nem competência ordinária para instituir um pedágio internacional sobre o valor das cargas transportadas.

“Juridicamente, essa sustentação seria extremamente frágil. Sem tratado, sem mandato internacional ou acordo expresso entre os países envolvidos, a medida dificilmente encontraria fundamento legítimo do direito internacional. Não seria propriamente um pedágio reconhecido pelo direito do mar. Seria uma tentativa de converter superioridade naval com capacidade tributária”, diz Silveira.

Os efeitos de um possível pedágio no Estreito de Ormuz

Em meio às recentes tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos e o Irã, o estreito de Ormuz tem se destacado como um dos pontos focais de maior preocupação para a economia global. A região, responsável pela passagem de mais de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito, atua como um barômetro para a estabilidade econômica e logística internacional.

A sugestão de implementação de uma taxa ou pedágio no estreito de Ormuz gerou reações imediatas nos mercados globais. De acordo com Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), a criação de tal barreira traria consequências diretas e severas, incluindo o aumento nos custos de transporte (elevação imediata dos fretes marítimos e dos prêmios de seguro das embarcações), a pressão inflacionária (aumento do preço internacional do petróleo e do gás, impactando diretamente o custo de produção na indústria global) e a desaceleração econômica (possível adiamento de cortes de juros por bancos centrais e redução do crescimento econômico global).

Embora o recuo do governo norte-americano sobre a imposição de um pedágio tenha trazido um alívio momentâneo, reduzindo a volatilidade dos mercados financeiros e a pressão inflacionária, analistas alertam que o risco permanece elevado. A continuidade dos conflitos na região mantém um “prêmio de risco” embutido nos preços de energia e seguros.

Fatores como a possibilidade de ataques a navios, a interrupção temporária da navegação e tensões militares entre Estados Unidos, Irã e aliados continuam a pairar sobre a economia global, gerando incertezas para as cadeias de suprimentos mundiais.

Na visão de Almeida, o cenário atual exige, mais do que nunca, uma abordagem diplomática resolutiva. A dependência global das rotas do Golfo torna a estabilidade do estreito de Ormuz uma questão estratégica de primeira ordem.

“A manutenção da livre navegação não é apenas uma necessidade comercial, mas um imperativo para evitar choques adicionais sobre a inflação e garantir a eficiência do comércio internacional. O debate sobre a segurança na região continuará a ser monitorado de perto por mercados e governos, visto que qualquer desdobramento negativo pode impactar diretamente a economia brasileira, encarecendo produtos básicos e combustíveis, através do aumento dos custos logísticos”, comenta.

Investimentos aos EUA

Com a medida de substituição, os EUA seriam altamente beneficiados pela entrada de capital externo, que pode financiar infraestrutura, indústria, tecnologia, energia, inteligência artificial, defesa e novos projetos produtivos.

O professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM ainda reitera que os investimentos podem gerar empregos e permitir que Trump apresente resultados econômicos concretos, conquistando maior eleitorado norte-americano. Para o especialista, essa é a grande entrada de preocupação dele nesse ano de 2026.

Além disso, quanto mais capital dos países do Golfo estiver vinculado à economia dos Estados Unidos, maior será a interdependência entre essas monarquias de Washington.

Então, o investimento não é econômico. Ele também funciona como instrumento de alinhamento automático, de alinhamento político. Para os países do Golfo, investir nos Estados Unidos, vai oferecer acesso a tecnologias, mercados, ativos financeiros, empresas de ponta e, evidentemente, influência institucional. É igualmente, uma maneira de diversificar economias ainda dependentes, em graus variados, nas receitas de petróleo e, principalmente, de gás”, explica.

Ainda assim, o sistema norte-americano continuará decidindo quais capitais deseja receber, em quais condições e com quais ressalvas.

Instabilidade de Trump

Donald Trump é conhecido por suas declarações instáveis e mudanças frequentes de discursos, especialmente observadas durante suas ameaças em relação à guerra contra o Irã.

Para Silveira, é possível esperar mudanças rápidas, bruscas, ameaças, recusas e reconfigurações. Mas isso não significa, em sua minha visão, que tudo seja aleatório a um método da aparência de instabilidade de Trump.

“Ele frequentemente anuncia uma medida extrema, testa a reação dos mercados, dos aliados, dos adversários, aumenta a pressão e depois substitui por uma proposta inicial, por um acordo que apresenta como uma vitória pessoal. Ele age dessa forma. Muita pressão, gera certa instabilidade, gera certo sufoco, gera certa pressão, depois ele modifica, mas ele sempre quer trazer como uma vitória pessoal, como se ele fosse um excelente negociador”, comenta.

Para ele, essa seria a diplomacia da incerteza calculada. No entanto, o risco de uma estratégia baseada na incerteza produz uma crise que nem mesmo seu autor consiga controlar. “A reputação de ser imprevisível pode gerar poder, mas quando ninguém conhece os unidos do jogo, aumenta também o perigo de erro de cálculo”, conclui.

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