O vazamento de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento de “Dark Horse” trouxe novamente ao debate a captação de recursos para produções sobre figuras políticas.
“Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2010, custou R$ 12 milhões e foi financiado por 18 empresas privadas.
Entre as companhias que participaram do financiamento estavam Odebrecht, atual Novonor, Camargo Corrêa, OAS, JBS, EBX, Volkswagen e Hyundai.
De acordo com a produtora Paula Barreto, os recursos utilizados para viabilizar o longa vieram integralmente de aportes empresariais.
Empresas mantinham relações comerciais com o governo federal
Como informou a Folha de S.Paulo à época do lançamento, a maior parte das 18 empresas patrocinadoras identificadas pela reportagem mantinha negócios com ministérios ou bancos ligados ao governo federal.
Somente em 2009, sete companhias receberam aproximadamente R$ 407 milhões em pagamentos diretos da União por obras, equipamentos e outros serviços.
Outras cinco empresas haviam obtido financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desde o início do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Outra companhia tinha entre seus sócios um banco estatal e um fundo de pensão ligado à instituição.
Questionada sobre a captação dos recursos, Paula Barreto afirmou que todas as empresas participantes já investiam em projetos culturais.
Segundo a produtora, apenas 20% dos patrocinadores não tinham relações comerciais anteriores com as produtoras responsáveis pelo longa, e nenhuma companhia teria procurado a equipe para oferecer recursos.
Financiamento entrou na mira da Lava Jato
A Polícia Federal (PF) passou a investigar o financiamento de “Lula, o Filho do Brasil” durante a Operação Lava Jato. As apurações alcançaram a participação das empreiteiras Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa no custeio da produção.
A investigação também analisou mensagens trocadas entre executivos da Odebrecht em 2008. Em um dos e-mails examinados pelos investigadores, Marcelo Odebrecht mencionava o apoio à produção e tratava da atuação de integrantes da empresa na captação dos recursos.
Em depoimento à Polícia Federal, Marcelo Odebrecht afirmou que, pelo conteúdo das mensagens, pagamentos teriam sido realizados à produtora ligada ao filme.
O empresário também declarou que seu pai, Emílio Odebrecht, nunca teria condicionado apoio financeiro relacionado a interesses de Lula à concessão de benefícios específicos para a companhia.
Longa retratou trajetória de Lula até o movimento sindical
O filme é uma adaptação do trabalho desenvolvido pela jornalista Denise Paraná sobre a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. A obra acompanha a infância do presidente em Pernambuco, a mudança da família para São Paulo e sua atuação no movimento sindical no ABC Paulista.
Dirigida por Fábio Barreto e Marcelo Santiago, a produção teve roteiro assinado por Fernando Bonassi, Denise Paraná e Daniel Tendler. Rui Ricardo Diaz interpretou Lula, enquanto Glória Pires viveu Dona Lindu e Juliana Baroni representou Marisa Letícia.
A produção ficou a cargo de Luiz Carlos Barreto e Paula Barreto e registrou público de 848 mil espectadores nos cinemas.
O longa também foi escolhido por uma comissão de especialistas para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011.
Caso “Dark Horse” retomou discussão sobre recursos privados
O financiamento de produções sobre figuras políticas voltou ao debate após as revelações envolvendo “Dark Horse”. O projeto sobre Jair Bolsonaro teria recebido R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro por meio de um fundo localizado nos Estados Unidos.
O senador Flávio Bolsonaro admitiu o recebimento de recursos destinados ao projeto, mas não informou inicialmente o valor envolvido.
A Polícia Federal passou a investigar se parte do dinheiro destinado à produção teria sido utilizada para pagar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
As informações sobre “Dark Horse” também tiveram repercussão política durante o período pré-eleitoral. A divulgação das mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ampliou os questionamentos sobre a origem e a destinação dos recursos utilizados no projeto cinematográfico.
“Lula, o Filho do Brasil”, por sua vez, estreou comercialmente em janeiro de 2010. A produção, baseada na trajetória do presidente desde a infância até a militância sindical, teve orçamento declarado de R$ 12 milhões e recebeu aportes de empresas privadas.

