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Geopolítica

Tarifaço dos EUA contra Brasil marca o início de uma fase de guerras comerciais globais?

As medidas impostas aos produtos brasileiros não são um caso isolado na avaliação de especialistas

Tarifaço dos EUA contra Brasil marca o início de uma fase de guerras comerciais globais?

Os Estados Unidos anunciaram oficialmente a implementação de uma nova tarifa aos produtos brasileiros, no valor de 25% na última quarta-feira (15), com previsão de entrar em vigor a partir do dia 22 de julho.

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Como mostrou O Brasilianista, a decisão é justificada pela necessidade de proteção econômica nacional, uma vez que as práticas brasileiras prejudicam o comércio norte-americano. Jamieson Greer, Representante Comercial dos Estados Unidos, não descartou a possibilidade de diálogo com o Brasil, porém afirmou que a tarifa é imprescindível.

Para José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), esse não é um caso isolado, mas faz parte de uma transformação mais ampla de política comercial norte-americana.

“Trump usa tarifas não apenas para proteger setores econômicos, mas para pressionar governos, interferir em decisões regulatórias e impor custos políticos aos países que resistem aos interesses de Washington. […] No caso brasileiro em específicos, embora tenham preservado algumas importações relevantes para o próprio consumidor norte-americano, como café, carne bovina, (1:07) suco de laranja e componentes aeronáuticos, isso revela, que não existe qualquer princípio comercial coerente. Existe cálculo político. Pune-se o que pode atingir o Brasil e poupa-se aquilo cuja taxação prejudicaria demais do próprio Estados Unidos”, afirma Silveira.

Segundo o especialista, o presidente dos EUA transforma a economia norte-americana em instrumento de intimidação, em que acusa no primeiro momento, apresenta a tarifa como sentença e finalmente oferece uma negociação na qual ele mesmo define as condições.

“Se essa estratégia produzir concessões, outros países serão submetidos ao mesmo momento. O Brasil, por ser a maior economia da América do Sul, no ator relevante do Sul Global, funciona também como um exemplo. Há uma mensagem clara. Quem pretende desenvolver autonomia tecnológica, regulatória ou diplomática poderá se economicamente punir”, avalia o professor.

Tiago Velloso, economista, concorda com a posição de que esse não é um caso isolado e explica que vê a medida muito mais como uma continuidade do que começou em 2018.

“Antes o foco era produzir onde fosse mais barato. Hoje os países estão priorizando segurança econômica, reindustrialização e proteção de setores estratégicos. Primeiro foi a disputa entre Estados Unidos e China. Depois vieram as restrições em semicondutores, minerais críticos, veículos elétricos e tecnologia. Agora, o comércio virou também uma ferramenta de pressão geopolítica. Na minha visão, essa tendência deve continuar independentemente de quem esteja no poder”, comenta o economista.

O Brasil teria chances de “ganhar” a guerra comercial?

Os especialistas mostram que, em guerras comerciais, dificilmente algum lado, de fato, ganha. Os Estados Unidos são um mercado importante para o Brasil, mas o Brasil também tem ativos estratégicos.

“Somos grandes exportadores de alimentos, petróleo, celulose, minério de ferro e minerais críticos, com reservas significativas de terras raras. Além disso, hoje nossa dependência dos Estados Unidos é menor do que era há alguns anos. A China já é o principal parceiro comercial brasileiro. Então o Brasil consegue absorver parte desse impacto, mas uma escalada tarifária reduz competitividade, aumenta custos e gera insegurança para quem produz e investe”, avalia Velloso.

Ainda assim, o professor de Economia e Relações Internacionais reforça que o país não possui a mesma capacidade financeira, tecnológica ou militar dos EUA.

“Os dois países possuem pesos muito diferentes do sistema internacional. Mas isso não significa que o Brasil esteja condenado a uma restrita submissão. O Brasil pode ‘vencer’ se conseguir impedir que a pressão comercial produza mudanças em suas decisões soberanas”, afirma Silveira.

A verdadeira vitória não é necessariamente fazer Trump retirar todas as tarifas imediatamente, mas evitar que Washington determine como o Brasil deve regular plataformas digitais, organizar seus sistemas de pagamento, relacionar-se com a China, ou formular sua política externa.

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