A interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no caso envolvendo o atacante Folarin Balogun durante a Copa do Mundo de 2026 retomou a discussão sobre a relação entre poder político e futebol.
O jogador teve uma suspensão revertida depois que Trump procurou o presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Gianni Infantino, episódio que provocou críticas de entidades esportivas europeias e se somou a um histórico de aproximações entre governos e o principal torneio da modalidade.
Ao longo de quase um século, governantes de diferentes países recorreram à visibilidade das Copas para promover regimes, fortalecer discursos nacionalistas, melhorar a imagem internacional de seus países ou se aproximar do apoio popular.
No Brasil, a competição também coincidiu com campanhas eleitorais e foi incorporada às estratégias políticas de presidentes, candidatos e governos.
Mussolini transformou a Copa de 1934 em propaganda fascista
A Copa do Mundo de 1934, disputada na Itália, tornou-se um dos primeiros exemplos da utilização política do torneio por um governo.
O ditador Benito Mussolini acompanhou a organização da competição e utilizou o evento para projetar uma imagem de força, disciplina e unidade nacional associada ao regime fascista.

O governo italiano investiu recursos na construção e modernização de estádios, enquanto autoridades e símbolos do fascismo ocupavam espaço durante as cerimônias e partidas. A seleção anfitriã conquistou o título ao derrotar a Tchecoslováquia por 2 a 1 na final realizada em Roma.
A vitória passou a integrar a propaganda do regime e foi apresentada como demonstração da força do país. Quatro anos depois, a Itália voltou a conquistar o Mundial, realizado na França, mantendo a associação entre o desempenho da seleção e o discurso nacionalista promovido pelo governo.
Candidatos invadiram a concentração brasileira em 1950
A Copa do Mundo de 1950 foi disputada no Brasil em um ano de eleições presidenciais e atraiu candidatos interessados em associar a própria imagem ao favoritismo da seleção.
Dezenas de políticos visitaram os jogadores e fizeram discursos durante a preparação para a decisão contra o Uruguai.

O goleiro Moacir Barbosa relatou posteriormente que as visitas chegaram a interromper a rotina dos atletas no dia da final.
Candidatos apareciam durante as refeições para discursar diante da equipe, que era considerada favorita à conquista do primeiro título mundial do Brasil.
O Mundial também foi utilizado pelos governantes para projetar uma nova imagem do país no exterior. A construção do Maracanã, então apresentado como o maior estádio do mundo, integrou o esforço de demonstrar a capacidade econômica, política e cultural brasileira após o fim do Estado Novo.
Juscelino Kubitschek aproximou o governo dos campeões de 1958
A conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil, em 1958, ampliou a aproximação entre a Presidência da República e a seleção.
O então presidente Juscelino Kubitschek acompanhou a repercussão dos jogos e buscou se aproximar do crescimento da popularidade do time.
Durante a competição, JK convidou Amaro Francisco dos Santos, pai de Garrincha, para acompanhar uma partida no Palácio do Catete.

Depois da conquista na Suécia, o presidente enviou uma aeronave para buscar os jogadores durante uma escala no Recife.
Os campeões foram recebidos pelo governo e participaram de comemorações ao lado do presidente. A relação entre a seleção e o poder político ganhou espaço nos anos seguintes, à medida que o futebol se consolidava como elemento da identidade nacional e ampliava a exposição pública dos governantes.
João Goulart buscou associar o bicampeonato à agenda política
A Copa do Mundo de 1962 ocorreu durante um período de instabilidade institucional no Brasil. O presidente João Goulart recebeu os jogadores em Brasília após a conquista do bicampeonato mundial no Chile, em uma celebração acompanhada por uma grande manifestação popular.
Naquele período, Jango buscava antecipar o plebiscito que decidiria sobre a continuidade do parlamentarismo implantado após a renúncia de Jânio Quadros.

O presidente acompanhava os jogos pelo rádio e explorava sua ligação anterior com o futebol em meio às discussões políticas do período.
A aproximação chegou à disputa esportiva. Após Garrincha ser expulso na semifinal contra o Chile, o governo e dirigentes brasileiros participaram das articulações para permitir que o jogador disputasse a decisão contra a Tchecoslováquia.
O atacante foi liberado e esteve em campo na vitória que garantiu o segundo título brasileiro.
Ditadura militar incorporou o tricampeonato de 1970 à propaganda
A conquista da Copa de 1970 ocorreu durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, no período de maior repressão da ditadura militar.
O governo associou a vitória da seleção no México a campanhas nacionalistas e ao discurso de modernização do país.
A primeira Copa transmitida ao vivo pela televisão brasileira ampliou o alcance da campanha da seleção. O governo utilizou o ambiente de mobilização nacional enquanto promovia slogans políticos e peças publicitárias que associavam o desenvolvimento econômico à ideia de unidade do país.

O episódio também ficou marcado pelas divergências entre Médici e João Saldanha, então treinador da seleção e integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Saldanha deixou o comando antes do Mundial e foi substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo, que conquistou o tricampeonato com uma delegação que contava com a presença de militares em diferentes funções.
Ditadura argentina utilizou o Mundial de 1978 para projetar o regime
A Copa de 1978 foi realizada na Argentina dois anos depois do golpe militar que levou o general Jorge Rafael Videla ao poder.
Como mostrou O Brasilianista, o torneio ocorreu enquanto o país enfrentava denúncias de prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos promovidos pelo regime.

O governo investiu na organização da competição e buscou apresentar uma imagem de estabilidade ao público internacional. A relação entre futebol e repressão também atingiu a seleção brasileira: José Reinaldo de Lima, jogador conhecido pelas posições contrárias à ditadura no Brasil, foi monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI).
A Argentina conquistou o título após derrotar a Holanda na decisão. A competição também ficou marcada pela vitória dos anfitriões por 6 a 0 sobre o Peru, resultado que eliminou o Brasil da disputa pela final e permanece cercado por suspeitas de interferência política que nunca foram comprovadas.
Copa de 2014 passou de projeto político a fonte de desgaste
A escolha do Brasil para receber a Copa do Mundo de 2014 ocorreu durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrou uma agenda de grandes eventos internacionais realizados no país.
A competição, porém, passou a enfrentar críticas relacionadas aos gastos públicos durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

As manifestações realizadas em 2013 incorporaram críticas aos investimentos destinados ao Mundial e reivindicações por melhorias nos serviços de saúde, educação e transporte. No ano seguinte, Dilma enfrentou vaias e manifestações contrárias ao governo durante a competição.
A seleção foi eliminada pela Alemanha por 7 a 1 na semifinal, mas o resultado esportivo não impediu a reeleição da presidente 110 dias depois.
Copa de 2026 entrou na disputa política entre Lula e seus adversários
A Copa do Mundo de 2026 voltou a coincidir com uma eleição presidencial no Brasil e recolocou os símbolos do futebol no centro da disputa política.
Grupos ligados à direita e à esquerda passaram a disputar a associação com as cores nacionais e com a seleção brasileira durante a campanha.
O senador Flávio Bolsonaro comemorou publicamente a convocação de Neymar, jogador que já declarou apoio político ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, utilizou as redes sociais para comentar a situação física do atacante durante a competição.

