O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, deflagrou nesta terça-feira (21) a Operação Janus para cumprir 18 mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão contra suspeitos de integrar o núcleo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), atuar no chamado “tribunal do crime” e dar suporte a chefes da facção, entre eles Leonardo Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho”.
Como informou o Estadão, a operação é um desdobramento de investigações anteriores que identificaram um esquema voltado à sustentação financeira da facção.
O que é a Operação Janus
Batizada em referência ao deus romano Jano, associado às passagens e transições, a operação recebeu esse nome por investigar a conversão de dinheiro obtido pelo crime organizado em recursos aparentemente lícitos.
Segundo a investigação, o grupo utilizava grandes quantias em espécie, transferências bancárias, empresas e contas de terceiros para ocultar a origem dos valores e colocá-los em circulação no sistema financeiro.
Além da lavagem de dinheiro, o Ministério Público sustenta que parte dos investigados participava de reuniões conhecidas como “tribunais do crime”, utilizadas pelo PCC para solucionar disputas patrimoniais entre integrantes da facção.
A estrutura também prestaria apoio financeiro a lideranças do grupo criminoso, permitindo a aquisição de bens e a movimentação de patrimônio em nome de terceiros.
A Operação Janus teve origem na análise de celulares e outros materiais apreendidos em investigações anteriores. A partir desse cruzamento de provas, os promotores afirmam ter identificado uma atuação coordenada entre operadores financeiros, doleiros, empresários e integrantes do PCC responsáveis por administrar recursos provenientes principalmente do tráfico de drogas.
Como funcionava o esquema investigado
As investigações apontam que um dos principais operadores do esquema era Cléber Azevedo dos Santos, classificado pelo Ministério Público como “companheiro” do PCC, expressão usada para identificar pessoas ligadas à organização criminosa, mas que não ocupam a condição de “irmão”, reservada aos membros formalmente batizados pela facção.
Cléber mantinha uma estrutura voltada à movimentação de recursos do PCC por meio de entregas de dinheiro em espécie, utilização de empresas e contas de “laranjas” e operações destinadas a ocultar a origem dos valores.
Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho”, apontado como uma das principais lideranças da facção na Favela do Moinho, aparece entre os beneficiários desse sistema financeiro.
Ainda de acordo com a investigação, o empresário também teria recorrido ao chamado “tribunal do crime” para solucionar uma disputa envolvendo um imóvel avaliado em cerca de R$ 2 milhões, localizado na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista.
A mediação teria contado com a participação de Léo do Moinho, que, posteriormente, passou a utilizar a estrutura de lavagem de dinheiro operada pelo grupo.
Mensagens ampliaram o alcance da investigação
Outra frente da Operação Janus reúne elementos que indicam uma relação de proximidade entre operadores financeiros investigados e coronéis da Polícia Militar de São Paulo.
Entre os materiais analisados pelos promotores está um grupo de WhatsApp chamado “Aniversário general”, no qual participavam Cléber Azevedo dos Santos e o coronel Luiz Carlos Pereira Martins.
O Brasilianista não identificou quem representa a defesa de Pereira Martins.
As mensagens tinham caráter pessoal e social, com referências a encontros e confraternizações, e levaram os investigadores a apontar uma relação de amizade entre os participantes.
Os investigadores afirmam ainda que Pereira Martins teria se colocado à disposição para intermediar contatos com autoridades e políticos.
Além dele, aparecem mencionados nas investigações o ex-comandante-geral da Polícia Militar José Augusto Coutinho e um policial identificado como “Patrício”, citado em planilhas da organização.
Em outra conversa analisada, um dos operadores afirma precisar de recursos para “pagar a polícia”, expressão que passou a integrar o conjunto de provas reunidas pelos promotores.
Para a Folha de São Paulo, a defesa de Coutinho afirmou que não teve acesso à investigação e disse também que “sem prejuízo da análise dos elementos da investigação, a defesa reafirma a integridade e a correção com que o coronel Coutinho sempre exerceu suas funções” e que “está certa de que, no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte”.
A Polícia Militar informou que colaborou com a operação e reafirmou o compromisso com o combate ao crime organizado. Os coronéis mencionados não são investigados nem foram alvo das medidas judiciais.
Como a Janus surgiu a partir de outras operações
A Operação Janus representa o ponto mais recente de uma sequência de investigações iniciadas nos últimos anos. As primeiras provas surgiram na Operação Recidere, deflagrada em 2023 para investigar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro.
Posteriormente vieram as operações Bazaar, que apurou corrupção envolvendo policiais civis, e Salus et Dignitas, responsável pela prisão de Léo do Moinho em 2024.
As análises de celulares, documentos e planilhas apreendidos nessas investigações permitiram aos promotores reconstruir a estrutura financeira do PCC e identificar personagens que aparecem em diferentes esquemas investigados.
A decisão judicial da Janus também faz referência às operações Fim da Linha e Tai-Pan, que ajudaram a conectar doleiros, empresas utilizadas para lavagem de dinheiro e suspeitos já investigados em outras apurações.
Quais medidas foram determinadas pela Justiça
Além das ordens de prisão e busca e apreensão, a Justiça autorizou o bloqueio de contas bancárias, aplicações financeiras, imóveis, veículos e outros bens ligados aos investigados.
Também foram determinadas restrições patrimoniais contra empresas apontadas como integrantes da estrutura financeira da organização criminosa.
O Ministério Público afirma que as apurações continuam para identificar novos integrantes e aprofundar o rastreamento do patrimônio ligado ao esquema investigado.
O que diz a defesa de Leonardo Moja
Em entrevista exclusiva ao O Brasilianista, a defesa afirmou que teve conhecimento da Operação apenas pela mídia, mas não foi notificada oficialmente.
“Pesquisamos no e-SAJ, nada encontramos a respeito. Entramos em contato com a Vara Especializada de Combate ao Crime Organizado de São Paulo, onde há processo em curso dele, no qual ele se encontra preso desde 6 de agosto do ano passado, e o primeiro contato foi via Balcão Virtual. O escrevente não soube informar sobre essa operação veiculada na imprensa, mas não tinha conhecimento em cartório”, informaram.
Eles ainda afirmaram terem tentado e-mail e contato presencial, mas “até a presente data não estamos habilitados em operação e não obtivemos sequer um retorno para que a defesa possa tomar conhecimento, se posicionar e, se for o caso, apresentar a defesa do Leonardo”.
Por fim, eles reafirmaram acreditar na “inocência e na absolvição de Leonardo”, que está preso há aproximadamente dois anos, de acordo com a defesa “sem qualquer édito condenatório em seu desfavor”.
O Brasilianista também procurou a defesa de Cléber Azevedo dos Santos, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

