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Política

Fama vale voto? Como celebridades viraram aposta dos partidos nas eleições

Sistema usado para escolher deputados e vereadores considera os votos recebidos pelo partido ou federação na distribuição das cadeiras

Fama vale voto? Como celebridades viraram aposta dos partidos nas eleições

Personagens, apelidos e nomes conhecidos fora da política voltam a ganhar espaço nas eleições brasileiras. Candidaturas como Binladen de Diadema, Kiko e versões de personagens como Wolverine já chegaram às urnas, enquanto figuras com trajetória na televisão, no esporte e no entretenimento também transformaram popularidade em campanhas eleitorais.

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O Brasilianista reuniu exemplos de concorrentes que buscaram vagas com identidades distantes do perfil tradicional da política.

A legislação permite o uso de apelidos e nomes pelos quais a pessoa é conhecida, desde que sejam cumpridos os requisitos para disputar o cargo e as regras previstas para o registro eleitoral.

A presença desses nomes também pode ter impacto sobre a estratégia partidária. Nas eleições para deputado federal, deputado estadual, deputado distrital e vereador, o sistema proporcional considera o desempenho das legendas na definição das vagas, criando espaço para candidatos com grande votação contribuírem para o resultado de outros integrantes do mesmo grupo político.

Celebridades já foram apostas para ampliar votação

A entrada de pessoas conhecidas do público nas disputas eleitorais não é recente. Humoristas, jogadores, músicos, atores e personalidades da televisão já trocaram a exposição conquistada em suas profissões por campanhas para cargos públicos, embora a fama não tenha garantido o mesmo resultado para todos.

Reportagem da Câmara dos Deputados sobre as eleições de 2010 registrou diferentes resultados entre as celebridades que concorreram naquele ano.

O humorista Tiririca recebeu mais de 1,3 milhão de votos para deputado federal por São Paulo, enquanto o ex-jogador Romário esteve entre os candidatos mais votados para a Câmara no Rio de Janeiro.

Outros nomes conhecidos não conseguiram conquistar mandato. O cantor Netinho ficou em terceiro lugar na disputa pelo Senado em São Paulo, mas não obteve votação suficiente para uma vaga.

Agnaldo Timóteo, Reginaldo Rossi, Renner, Popó, Tati Quebra-Barraco e Mulher Melão também estiveram entre os famosos que não se elegeram naquele pleito.

Tiririca virou símbolo dos puxadores de voto

Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, entrou na política depois de construir carreira como humorista, cantor, palhaço e ator.

Em 2010, concorreu pela primeira vez a deputado federal por São Paulo e recebeu 1.348.295 votos, tornando-se o deputado federal mais votado do país naquele pleito.

A campanha utilizou a imagem que o público já conhecia do artista e adotou bordões que reforçavam seu perfil humorístico. O resultado ultrapassou a eleição individual: a quantidade de votos recebida pelo candidato contribuiu para o desempenho de sua coligação na distribuição das cadeiras da Câmara.

A votação de 2010 ajudou outros três candidatos da mesma coligação a conquistar mandato. Quatro anos depois, Tiririca recebeu novamente mais de 1 milhão de votos e contribuiu para a eleição de correligionários do Partido da República (PR), episódio associado ao chamado “Efeito Tiririca”.

Em 2022, Tiririca conquistou novo mandato com 71.754 votos e, dessa vez, foi beneficiado pelo desempenho eleitoral de nomes de sua legenda com votações maiores.

Como funciona o quociente eleitoral

A possibilidade de um candidato influenciar a eleição de integrantes do mesmo partido está relacionada ao sistema proporcional. Diferentemente das eleições para presidente, governador, prefeito e senador, nas quais prevalece o sistema majoritário, a escolha de vereadores e deputados envolve cálculos para determinar quantas cadeiras cabem a cada partido ou federação.

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) explica que o primeiro cálculo é o quociente eleitoral, obtido pela divisão do total de votos válidos para determinado cargo pelo número de vagas disponíveis. Em uma eleição com 1 milhão de votos válidos e dez cadeiras, por exemplo, o quociente eleitoral seria de 100 mil votos.

Depois entra o quociente partidário, que determina inicialmente quantas vagas o partido ou federação conquista. Para chegar ao número, divide-se a votação recebida pela legenda pelo quociente eleitoral. Nessa soma entram os votos nominais destinados aos candidatos e os votos dados diretamente à legenda.

O candidato também precisa cumprir exigências individuais previstas na legislação. Na distribuição pelo quociente partidário, é necessário alcançar votação nominal correspondente a pelo menos 10% do quociente eleitoral e estar entre os candidatos mais votados da legenda dentro do número de cadeiras conquistadas.

Por que muitos votos podem beneficiar o partido?

O funcionamento do sistema ajuda a explicar o interesse eleitoral em candidatos capazes de mobilizar grandes públicos. Uma celebridade, atleta, influenciador ou outro nome conhecido pode entrar na disputa com uma base de seguidores construída antes da campanha e converter parte dessa visibilidade em votos para uma candidatura proporcional.

Como esses votos integram a votação utilizada na definição das cadeiras partidárias, uma candidatura de grande desempenho pode contribuir para aumentar a representação da legenda.

Isso não significa, porém, que qualquer candidato pouco votado será automaticamente eleito porque um colega recebeu muitos votos, já que existem requisitos individuais e regras para a distribuição das vagas.

Também há situações em que candidatos com mais votos ficam sem mandato enquanto concorrentes com votação menor conseguem uma cadeira.

A diferença ocorre porque, nas eleições proporcionais, a classificação não depende apenas de uma lista geral dos candidatos mais votados, mas também da quantidade de vagas conquistadas por cada partido ou federação.

As vagas que permanecem abertas após a primeira distribuição passam pelo cálculo das chamadas sobras. As regras dessa etapa foram alteradas por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo mudanças sobre a participação das legendas na última fase de distribuição das cadeiras.

Redes sociais ampliam alcance de candidaturas fora do padrão

A popularidade eleitoral não depende apenas de carreiras construídas na televisão, no esporte ou na música. A expansão das redes sociais criou outro caminho para pessoas que acumulam audiência fora das estruturas partidárias tradicionais e depois levam essa base de seguidores para uma campanha.

O advogado Alan Januário relaciona o crescimento de candidaturas fora do perfil convencional ao descrédito nas instituições.

“Candidatos fora do padrão tradicional representam uma ruptura com a elite política e podem ser lidos como resposta à percepção de exclusão ou seletividade do sistema. A criminologia analisa esse fenômeno como tensão entre ampliação de representação e potencial entrada de perfis oportunistas ou com baixa aderência às normas institucionais”, explicou Januário.

A legislação eleitoral permite que candidatos utilizem na urna prenome, sobrenome, cognome, nome abreviado, apelido ou a denominação pela qual são conhecidos, desde que o registro não provoque dúvida sobre a identidade e respeite as demais exigências legais.

Essa possibilidade abriu espaço, ao longo das eleições brasileiras, para nomes como Papai Noel, Palhaço Soneca, Chapolin Colorado, Saci Pererê, Pato Rouco e Binladen de Diadema.

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