Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o motivo da pressão aos juros do Brasil é a situação global, incluindo o diferencial de taxa que existe em relação aos Estados Unidos.
Atualmente, o país possui uma das maiores taxas do mundo. A Selic opera a 14,25% ao ano e deve permanecer nessa faixa por mais algum tempo enquanto a situação global é de incerteza, especialmente com o bloqueio do Estreito de Ormuz e as tensões entre EUA e Irã.
Em entrevista no início de julho à Carta Capital, Durigan afirmou que não há uma resposta simples para mudar estruturalmente o atual patamar.
“Isso passa por a gente ter, primeiro, estabilidade institucional e planejamento fiscal de longo prazo. A segunda resposta é institucional, do ponto de vista de democracia. Não dá para não ter reconhecimento de eleições, quebra-quebra, bloqueio de rodovias, pedidos de golpe”, disse.
Contudo, o economista Natale Papa reforça que a situação global contribui para pressionar os juros, mas não explica sozinha por que o Brasil precisa manter taxas tão elevadas.
O que mantém os juros elevados no Brasil?
O cenário internacional é influenciado, especialmente por meio dos juros americanos, do fluxo de capitais e do câmbio. Porém, o Brasil também possui fatores domésticos que elevam o prêmio de risco, como incertezas fiscais, inflação ainda pressionada e dúvidas sobre a trajetória das contas públicas.
“A diferença está no grau de risco percebido. Economias com maior estabilidade fiscal, inflação mais previsível e instituições mais consolidadas conseguem financiar suas dívidas pagando juros menores”, explica Papa.
Para o Brasil, uma redução sustentável dos juros dependeria de uma combinação de inflação controlada, equilíbrio fiscal, previsibilidade nas contas públicas e maior confiança dos investidores.
“Não existe um número universal de ‘juros aceitáveis’, mas, em um cenário de inflação próxima da meta e estabilidade fiscal, uma taxa básica real significativamente menor que a atual — algo próximo de 3% a 4% acima da inflação — seria mais compatível com uma economia em crescimento. O mais importante, porém, é que esse patamar seja sustentável, e não obtido artificialmente à custa de mais inflação ou perda de confiança”, avalia.
Foco no tom da última decisão dos juros americanos
A última decisão monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve os juros da economia americana na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, de forma unânime, o que já era esperado pelo mercado. O destaque ficou para o recado de inflação, conforme explicou O Brasilianista.
O tom do Fed agora será mais duro. Foi a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Fed em maio com um perfil reconhecidamente mais duro que o de seu antecessor, Jerome Powell.
Com nove dos dezoito membros projetando ao menos uma alta de juros ainda em 2026 e seis vendo duas altas, o recado é de paciência longa antes de qualquer afrouxamento. Para especialistas, a leitura que fica é que Warsh quer ser lembrado pelo compromisso com a meta de 2% na inflação americana, num momento em que a inflação americana roda bem acima disso.
Para o Brasil, o tom também ficou mais restritivo e elevou o nível de exigência para a continuidade do ciclo, em linha com os EUA.

