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Geopolítica

Como Trump tornou os EUA menos populares do que a China?

Pesquisa internacional aponta queda da imagem americana em diversos países

Como Trump tornou os EUA menos populares do que a China?

Durante décadas, a capacidade dos Estados Unidos de construir alianças internacionais foi considerada uma das principais vantagens estratégicas do país em relação à China.

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Na Ásia, aliados como Japão, Coreia do Sul e Taiwan mantinham forte alinhamento com Washington, enquanto até países com histórico de conflitos com os americanos, como o Vietnã, preferiam a aproximação com os EUA à influência chinesa.

Esse cenário, porém, começou a mudar. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center a China passou a ser vista de forma mais favorável do que os Estados Unidos em diversos países, incluindo Canadá, México e importantes nações europeias, em uma mudança atribuída principalmente aos efeitos da política externa conduzida pelo presidente Donald Trump.

Pesquisa mostra avanço da imagem da China

O levantamento ouviu 42.151 adultos em 36 países, entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026, e constatou que a China passou a ser vista de forma mais favorável do que os Estados Unidos na maioria dos países pesquisados.

Os EUA aparecem com avaliação mais positiva em apenas seis países: Índia, Japão, Filipinas, Coreia do Sul e outros dois mercados da região Ásia-Pacífico.

A pesquisa também identificou uma mudança na confiança depositada nos líderes das duas potências. Em diversos países, mais entrevistados afirmaram confiar em Xi Jinping do que em Donald Trump para tomar as decisões corretas sobre assuntos mundiais.

No Canadá, por exemplo, a mudança foi expressiva: em 2023, 57% dos entrevistados tinham opinião favorável sobre os Estados Unidos, contra 14% em relação à China.

Em 2026, o cenário se inverteu, com 44% dos canadenses avaliando positivamente a China, enquanto 33% manifestaram opinião favorável aos EUA.

O estudo também aponta que a percepção de que o governo americano respeita as liberdades individuais diminuiu de forma acentuada em vários países, como Suécia, Canadá, França, Alemanha, Itália, Holanda, Coreia do Sul e Espanha.

(Imagem criada por IA, feita pelo O Brasilianista a partir da pesquisa Pew Research Center)

Guerra e atritos diplomáticos mudaram a percepção internacional

Parte relevante desse desgaste ocorreu após o conflito iniciado entre Estados Unidos e Irã. Embora a economia americana também tenha sentido os efeitos da alta internacional do petróleo, o impacto foi significativamente maior para países que dependem da importação de energia.

Muitos governos passaram a atribuir aos Estados Unidos a responsabilidade por uma crise econômica internacional provocada por uma guerra sobre a qual não tiveram qualquer influência.

A política externa adotada por Trump também ampliou tensões com aliados tradicionais. Declarações sobre Canadá, Groenlândia, México e diversos países europeus produziram desgastes diplomáticos considerados desnecessários e reforçaram, em parte da comunidade internacional, a percepção de que Washington passou a agir de forma mais imprevisível do que em décadas anteriores.

Como mostrou O Brasilianista, esse ambiente favoreceu diretamente a estratégia chinesa de fortalecimento do chamado soft power.

A advogada e professora de Direito Internacional Paula Teixeira Garcia Civolani explicou que o conflito com o Irã acelerou um processo de desgaste diplomático dos Estados Unidos que já vinha ocorrendo anteriormente.

Segundo ela, Pequim conseguiu explorar politicamente esse cenário ao reforçar sua imagem como um ator voltado à estabilidade internacional, especialmente entre países do chamado Sul Global.

China aproveitou o momento para ampliar sua presença internacional

Enquanto os Estados Unidos concentravam parte de seus esforços no Oriente Médio, a China passou a ampliar sua atuação em diferentes regiões consideradas estratégicas.

O Brasilianista mostrou que Pequim intensificou ações militares e diplomáticas sobre aliados históricos de Washington, especialmente nas Filipinas, além de aumentar a pressão sobre Japão e Austrália.

A avaliação apresentada é que Xi Jinping percebeu uma redução da atenção americana na Ásia em razão da guerra contra o Irã, aproveitando esse contexto para ampliar sua influência regional.

Como destacou O Brasilianista, esse avanço ocorre em um momento em que a China já reúne vantagens importantes na disputa global com os Estados Unidos.

O internacionalista Rafael Moredo explica que o país consolidou sua posição como segunda maior economia do mundo após décadas de abertura econômica, investimentos em infraestrutura e fortalecimento da indústria.

Apesar de enfrentar desafios como o envelhecimento da população e a desaceleração do crescimento, a China continua expandindo sua capacidade industrial e tecnológica, tornando menos previsível a possibilidade de uma liderança absoluta americana nas próximas décadas.

A disputa também passou a envolver setores considerados estratégicos para o futuro da economia mundial. De acordo com O Brasilianista, a inteligência artificial tornou-se um dos principais campos de competição entre as duas potências.

Empresas chinesas reduziram parte da vantagem americana ao lançar modelos com desempenho semelhante aos principais sistemas dos Estados Unidos, porém com custos significativamente menores.

Ao mesmo tempo, os dois governos passaram a tratar a inteligência artificial como tema permanente das negociações diplomáticas, enquanto países como o Brasil ampliam conversas com Pequim para cooperação em infraestrutura computacional, desenvolvimento de modelos e soberania tecnológica.

Tecnologia amplia a competição entre as duas potências

O avanço chinês também alcançou a indústria de semicondutores, considerada essencial para inteligência artificial, data centers e equipamentos eletrônicos.

Como mostrou O Brasilianista, a China iniciou a produção em massa de máquinas próprias de litografia ultravioleta profunda (DUV), utilizadas na fabricação de chips avançados.

Embora a tecnologia ainda permaneça atrás dos equipamentos mais modernos produzidos pela empresa holandesa ASML, o anúncio provocou forte reação nos mercados internacionais, com queda nas ações de companhias como Nvidia, AMD, Micron e da própria ASML.

Investidores passaram a avaliar que a produção doméstica permitirá à China reduzir gradualmente sua dependência de fornecedores estrangeiros, fortalecendo seu próprio ecossistema de semicondutores.

Especialistas ressaltam que o impacto imediato não representa a substituição das empresas americanas e europeias, mas reforça uma tendência de aumento da concorrência em um setor considerado estratégico para a liderança tecnológica global.

Além da disputa industrial, a competição também envolve influência econômica e política em mercados considerados estratégicos. Segundo O Brasilianista, o Brasil tornou-se uma das principais áreas de interesse tanto para Washington quanto para Pequim.

O coordenador de comércio e política internacional da BMJ Consultoria, Vitor Vilar, explica que a China ampliou investimentos em infraestrutura, energia, veículos elétricos e logística para fortalecer sua presença na América Latina, enquanto os Estados Unidos buscam recuperar espaço comercial e político na região diante do crescimento da influência chinesa.

O internacionalista Rafael Moredo avalia que o cenário mais provável deixou de ser o predomínio absoluto de uma única potência e passou a caminhar para um sistema internacional dividido entre Estados Unidos e China, com disputas permanentes em áreas estratégicas como inteligência artificial, semicondutores, energia, infraestrutura digital e minerais críticos.

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