O governador de São Paulo (SP), Tarcísio de Freitas (Republicanos), enfrentará muitos problemas para resolver o problema do transporte público em São Paulo. A questão vai além do transporte ferroviário e pode afetar até a campanha do candidato à reeleição ao Palácio dos Bandeirantes.
Fontes ligadas aos ferroviários afirmaram que a pane nos trens intermunicipais da Linha 12 Safira, em 26 de julho, gerida pela Trivia Trens, foi causada por falta de treinamento adequado das equipes da ViaMobilidade, que assumiu a gestão férrea após a privatização do trecho. Esses interlocutores da categoria também relataram mudanças e redução nos equipamentos usados para gerir e monitorar o tráfego férreo.
Outro motivo para o incêndio nos vagões da linha 8 Diamante, na segunda-feira (3), foi a sobrecarga de composições trafegando simultaneamente na mesma linha. “Se você sobrecarrega a linha, com quatro ou cinco trens a mais do que o previsto, o fio derrete”, disse uma das fontes ouvidas.
Não houve feridos no dia do incêndio, segundo a Viamobilidade, mas há outros problemas registrados nos trens que antes eram administrados pela Companhia de Trens Metropolitanos (CPTM). Há diversos registros, inclusive na imprensa, de portas abrindo em momentos inadequados do translado das composições e vagões parando fora dos limites das plataformas.
Esse contexto fez com que o governo de Tarcísio de Freitas devolvesse a gestão das linhas férreas afetadas à CPTM por 90 dias — mesmo prazo das eleições, caso haja segundo turno, previsto para o começo de novembro.
Porém, as demissões feitas nos quadros da Companhia de Trens Metropolitanos reduziram o número de funcionários, afetando a capacidade do órgão estatal de gerir o tráfego nos moldes anteriores à privatização, segundo as fontes da categoria ferroviária.
O caos no transporte intermunicipal por trilhos paulista foi o argumento perfeito para a greve iniciada pelos ferroviários na terça-feira (4). A paralisação será mantida indefinidamente, segundo o movimento sindical, que exige a revogação da privatização, movimento que o governo Tarcísio de Freitas diz que não pode fazer.
Mas, além das demandas públicas dos funcionários da CPTM, há um sentimento de traição que permeia o movimento grevista, segundo as fontes ouvidas por O Brasilianista.
Hoje, a greve só foi encerrada porque os funcionários da Companhia de Trens Metropolitanos aceitaram a proposta de Tarcísio, que prometeu manter o quadro atual de funcionários da CPTM por meio de um projeto de lei a ser apresentado à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
O acordo foi firmado durante um processo de mediação organizado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. Já há um projeto nesse sentido, apresentado pelo Psol na Alesp, mas fontes que participaram das negociações afirmam que o governo de São Paulo não vai aproveitar esse texto.
A vontade original do movimento sindical era retomar os empregos e a gestão das linhas férreas nos moldes anteriores à privatização. Como elas já foram concedidas, rescindir contratos seria muito custoso para o estado de São Paulo.
A categoria férrea quer que Tarcísio use essa força de trabalho para expandir o atendimento do transporte público por trens para o interior do estado, mas pondera que o governo paulista está focado em cortar custos — principal bandeira de campanha do atual governador.
Ainda no interior, há outra questão, a da redução das linhas intermunicipais de ônibus. As principais ligam cidades como Campinas e Santos à capital paulista. Mas elas também oferecem transporte entre cidades pequenas e médias do interior, por exemplo Franca, Ribeirão Preto, Araras, Cordeirópolis, Sertãozinho e Pontal.
A redução, ou encerramento, dessas linhas tem sido justificada pela falta de retorno financeiro às viações que operam os trechos, e tem incomodado os moradores dessas cidades, de acordo com fontes que atuam no transporte público estadual. O impacto eleitoral disso é considerável.
Historicamente, a aversão do eleitor do interior paulista ao PT garantiu as vitórias de MDB e PSDB ao longo das últimas décadas, enquanto a capital — que já elegeu Luiza Erundina e Fernando Haddad como prefeitos — costuma oscilar entre Esquerda, Centro-Direita e, mais recentemente, o bolsonarismo encampado por Tarcísio de Freitas.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

