Publicidade
Geopolítica

Anúncios da Meta são terra de ninguém

Casos recentes expõem falhas na fiscalização da publicidade da empresa

Anúncios da Meta são terra de ninguém

As plataformas de publicidade da Meta atravessam uma das maiores crises de credibilidade desde a criação do Facebook.

Publicidade

Em poucas semanas, diferentes investigações identificaram anúncios pagos aprovados pela companhia que promoviam golpes financeiros utilizando programas do governo brasileiro, conteúdos produzidos com inteligência artificial para enganar consumidores e, em um dos casos mais graves, imagens de abuso sexual infantil geradas por IA.

Embora envolvam crimes distintos, todos os episódios apresentam um elemento comum, passaram pelos sistemas de revisão da própria Meta e permaneceram ativos tempo suficiente para alcançar milhares de usuários.

O conjunto de casos reforça as críticas de pesquisadores, autoridades e especialistas sobre a capacidade da empresa de impedir que sua estrutura de publicidade seja utilizada para impulsionar fraudes, exploração sexual, desinformação e outras atividades ilícitas.

Como mostrou O Brasilianista, a empresa já vinha sendo alvo de questionamentos por lucrar com anúncios fraudulentos relacionados a programas públicos.

Golpes usam programas públicos para alcançar milhões de usuários

O levantamento produzido pelo NetLab/UFRJ identificou que a estrutura de publicidade da Meta também vem sendo utilizada para impulsionar campanhas de fraude financeira direcionadas ao público brasileiro.

Entre janeiro e março de 2026, os pesquisadores localizaram 860 anúncios fraudulentos, publicados por 152 páginas, que exploravam programas públicos e serviços oficiais para atrair vítimas.

Os conteúdos utilizavam nomes como Valores a Receber, Brasil Sorridente, Minha Casa Minha Vida, Auxílio Gás, Bolsa Família, Carteira de Trabalho e Desenrola Brasil, direcionando os usuários para páginas falsas que imitavam sites governamentais ou prometiam benefícios inexistentes.

Em muitos casos, as campanhas reproduziam elementos visuais de órgãos públicos e veículos de imprensa para transmitir credibilidade, enquanto os endereços eletrônicos simulavam páginas oficiais com o objetivo de capturar dados pessoais ou cobrar taxas indevidas.

Inteligência artificial tornou os golpes ainda mais sofisticados

O estudo também mostra que a inteligência artificial passou a desempenhar um papel central na profissionalização dessas fraudes.

Dos 860 anúncios analisados, 394 (45,8%) continham vídeos gerados ou manipulados por IA, incluindo deepfakes de políticos, jornalistas e outras figuras públicas utilizadas para conferir credibilidade às falsas promessas divulgadas nas plataformas da Meta.

Os pesquisadores identificaram ainda que 146 anúncios (17%) utilizaram o recurso de criativo dinâmico da própria Meta, ferramenta baseada em inteligência artificial capaz de combinar automaticamente diferentes imagens, títulos e textos para exibir versões distintas de uma mesma campanha conforme o perfil do usuário.

Segundo o levantamento, essa funcionalidade pode dificultar a identificação de irregularidades, já que diferentes pessoas recebem versões diferentes do mesmo anúncio, tornando mais complexa a fiscalização e permitindo que campanhas fraudulentas permaneçam ativas por mais tempo.

Meta e anúncios com abuso infantil gerado por IA

A descoberta de dezenas de anúncios pagos contendo imagens de abuso sexual infantil geradas por inteligência artificial ampliou a pressão sobre a Meta e levantou novos questionamentos sobre a eficácia dos sistemas de moderação da companhia.

O Tech Transparency Project (TTP), identificou mais de 50 anúncios publicados entre novembro de 2025 e agosto de 2026 nas plataformas Facebook, Instagram, Messenger e Threads.

Segundo os pesquisadores, parte das peças promovia aplicativos conhecidos como nudify, capazes de criar imagens sexualizadas por meio de inteligência artificial, enquanto outras utilizavam diretamente imagens de menores acompanhadas de mensagens de conotação sexual.

Os anúncios foram aprovados pelo próprio sistema de publicidade da Meta e chegaram a permanecer ativos durante vários dias, alcançando milhares de usuários em países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Espanha, Irlanda, Holanda e Suécia.

Após ser procurada pela WIRED, a empresa removeu o material e afirmou que ele violava suas políticas contra exploração sexual infantil, nudez e atividade sexual.

A Meta também declarou que reforçou seus mecanismos automáticos de detecção e que removeu mais de 36 milhões de conteúdos relacionados à exploração infantil no último ano.

Meta acumula investigações e pressão regulatória

A sucessão de casos também ocorre em um momento de aumento da pressão regulatória sobre a Meta em diferentes países.

Além das discussões envolvendo conteúdos ilegais e publicidade fraudulenta, a companhia enfrenta questionamentos relacionados à privacidade, ao uso de inteligência artificial, ao reconhecimento facial e às ferramentas de automação utilizadas em suas plataformas.

O Brasilianista destacou que os desafios da Meta vão além da moderação de conteúdo. A empresa também enfrenta críticas relacionadas ao NameTag, ferramenta de reconhecimento facial desenvolvida para seus óculos inteligentes, e às soluções de inteligência artificial utilizadas na produção automática de campanhas publicitárias.

No campo da publicidade, O Brasilianista também informou que anunciantes vêm relatando alterações indesejadas provocadas pelos recursos de inteligência artificial da Meta, incluindo mudanças em imagens, textos ilegíveis e modificações automáticas nas campanhas.

Siga O Brasilianista!