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Economia

Embargo da UE pode reduzir receita da carne brasileira mesmo sem queda nas exportações

UE deixará de importar carne bovina, frango e mel do Brasil a partir de 3 de setembro

Embargo da UE pode reduzir receita da carne brasileira mesmo sem queda nas exportações

Falta menos de um mês para entrar em vigor o embargo da União Europeia às importações de produtos de origem animal do Brasil, previsto para 3 de setembro.

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A decisão atinge principalmente carne bovina, frango e mel, após o bloco europeu retirar o país da lista de nações consideradas compatíveis com suas regras sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária.

Embora as autoridades europeias não tenham apontado problemas na qualidade da carne brasileira, entendem que o sistema de fiscalização nacional ainda não atende às exigências de rastreabilidade e monitoramento adotadas pelo bloco.

Na avaliação da economista e consultora financeira Isabel Abreu, o maior prejuízo tende a aparecer na receita obtida com as exportações, e não necessariamente na quantidade de produtos embarcados.

“O maior impacto não está na quantidade exportada, mas no valor que o Brasil deixa de receber. A União Europeia representa cerca de 3,7% do volume exportado de carne bovina, mas responde por aproximadamente 6% da receita dessas exportações, porque compra cortes de maior valor agregado e paga preços superiores aos de outros mercados”, afirma Isabel Abreu.

Segundo a especialista, essa diferença faz com que o embargo tenha potencial para reduzir a rentabilidade de frigoríficos e produtores voltados ao mercado europeu, mesmo que parte das exportações seja redirecionada para outros destinos.

“Mesmo que o Brasil consiga manter boa parte do volume exportado, a tendência é de redução na rentabilidade dos frigoríficos e produtores voltados para esse mercado. Além do efeito financeiro, a suspensão também afeta a imagem do agronegócio brasileiro, já que a Europa é referência mundial em exigências sanitárias e regulatórias”, destaca a economista.

Ela pondera que os reflexos sobre a economia brasileira como um todo devem ser limitados, mas ressalta que a cadeia exportadora poderá enfrentar perda de competitividade e redução do faturamento nos próximos meses.

Estados exportadores devem concentrar os maiores impactos

Os efeitos da suspensão tendem a ser sentidos principalmente pelos estados que concentram a produção destinada ao mercado europeu.

Segundo Isabel Abreu, a pecuária bovina deve registrar impactos mais intensos em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

“Os mais afetados serão os segmentos voltados à exportação de produtos de maior valor agregado. Na avicultura, os reflexos devem se concentrar no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, importantes polos exportadores. Outros setores de produtos de origem animal, como a apicultura, também podem sentir os efeitos das restrições comerciais”, explica a economista.

Apesar do cenário, Isabel Abreu avalia que o Brasil possui alternativas para reduzir parte das perdas comerciais.

No entanto, ela ressalta que substituir o mercado europeu não significa manter o mesmo nível de faturamento, já que outros compradores costumam pagar menos pelos produtos brasileiros.

“O Brasil já possui mercados consolidados, como China, Oriente Médio, Sudeste Asiático e, em menor escala, os Estados Unidos, que podem absorver parte desse volume. O desafio é que esses compradores têm perfis de consumo diferentes e, em geral, pagam menos do que a União Europeia. Na prática, o país pode conseguir manter boa parte das exportações, mas dificilmente manterá o mesmo faturamento”, destaca.

Retomada dependerá de adequação técnica

Para recuperar o acesso ao mercado europeu, o Brasil precisará demonstrar que atende às exigências relacionadas ao controle do uso de antimicrobianos e à rastreabilidade da produção animal.

Isabel Abreu ressalta que a suspensão não foi motivada por problemas na qualidade da carne brasileira.

“O primeiro passo é restabelecer a confiança. É importante destacar que a suspensão ocorreu pela necessidade de comprovar conformidade com as novas exigências da União Europeia sobre rastreabilidade e controle do uso de antimicrobianos durante todo o ciclo produtivo”, afirma a economista.

Segundo a especialista, o processo de adequação pode levar mais tempo na pecuária bovina devido ao ciclo de produção dos animais, enquanto a avicultura tende a responder mais rapidamente às novas exigências.

“Agora, o Ministério da Agricultura e a cadeia produtiva precisam demonstrar, com dados e auditorias, que esses protocolos estão sendo cumpridos. Na pecuária bovina, esse processo pode levar até 24 meses”, conclui Isabel Abreu.

Embargo amplia disputa comercial entre Brasil e União Europeia

O impasse ocorre em um momento de aumento das exigências regulatórias impostas pela União Europeia aos produtos agropecuários importados.

Nos últimos anos, o bloco europeu tem adotado regras mais rígidas relacionadas à rastreabilidade, sustentabilidade e controle sanitário, medidas que frequentemente são vistas pelo setor produtivo brasileiro como potenciais barreiras ao comércio internacional.

Nesse contexto, a suspensão das compras reforça um cenário de maior pressão para que exportadores se adaptem aos padrões exigidos pelos mercados de maior valor agregado.

Para Isabel Abreu, a solução passa por uma combinação de adequação técnica e articulação diplomática.

“Paralelamente, a diplomacia comercial será fundamental para acelerar a retomada das exportações e evitar que exigências técnicas sejam utilizadas como barreiras protecionistas”, ressalta Isabel Abreu.

Enquanto não houver um acordo, a expectativa do setor é de que frigoríficos e produtores ampliem a busca por mercados alternativos para reduzir as perdas.

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