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Política

A crise do sarampo pode virar política

Um cenário de vacinação que vem piorando desde a pandemia pode ser explorado na campanha eleitoral de 2026

A crise do sarampo pode virar política

O Brasil está registrando novos casos de sarampo anos após a eliminação da circulação do vírus. O último registro foi em 2015 e o país recebeu, em 2016, da Organização Pan-Americana da Saúde, a certificação de eliminação do sarampo.

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No entanto, a partir de 2018, houve retorno da circulação do vírus, associado ao fluxo migratório e à redução das coberturas vacinais. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação após manter a transmissão do vírus do sarampo por mais de 12 meses.

Em 2026, o Ministério da Saúde voltou a reportar um aumento dos casos, com cerca de 20 somente no estado de São Paulo, associado a viagem internacional e ausência de vacinação, por exemplo.

Mesmo com baixos índices, a situação preocupa profissionais da saúde e também cientistas políticos, especialmente porque o retorno da doença pode ser muito explorado durante o período de campanha eleitoral que começa neste mês de agosto.

O Brasil é conhecido por registrar boa aderência às vacinas, um legado registrado desde a década de 70, com a instituição do Programa Nacional de Imunizações, que combinou obrigatoriedade, gratuidade e capilaridade. Assim, no longo prazo, o Brasil se tornou referência mundial em imunização, sem qualquer aparecimento de atrito político.

“Do ponto das liberdades individuais, na minha visão, a obrigatoriedade das vacinas não é um caso tão difícil como se imagina. Doenças transmissíveis são um bom exemplo de externalidades negativas, em que minhas escolhas impõem custos sobre outros”, afirma Magno Karl, cientista político e diretor executivo do Livres.

“Existem os direitos, mas também os deveres. Existem as obrigações que devem ser cumpridas e as vacinas são cientificamente comprovadas. E quando a população assa a compreender que ela tem uma finalidade, um objetivo relevante para a saúde pública, me parece que as barreiras diminuem”, complementa o cientista político e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando.

Brasil ainda não vive uma epidemia de sarampo

Especialistas da saúde entrevistados por O Brasilianista reforçam que o Brasil não se encontra em uma epidemia de sarampo, mas está em zona de alerta para o vírus.

“Realmente as pessoas não veem sarampo há um tempo e acreditam que é uma simples doença exantemática e não é. O sarampo é algo muito maior. Pode causar pneumonia e outras coisas. E quanto menos se vê o sarampo, menos se vacina. As pessoas, essa geração, perdeu o contato com a doença e então não têm vacinado muito. A gente teve uma diminuição na vacinação como um todo”, afirma Dr. Nelson Douglas Ejzenbaum, médico pediatra e neonatologista, além de membro da Academia Americana de Pediatria.

O vírus do sarampo no corpo humano pode causar outros problemas como pneumonia, otite, encefalite, além de outros quadros. Devido às possíveis complicações severas dessa doença, existe ainda um grau de mortalidade alto em pessoas imunossuprimidas, desnutridas e também crianças menores de cinco anos.

“Então, não se pode minimizar o sarampo, apesar da maioria dos casos ter um curso considerado leve. E ainda existe uma diminuição da imunidade após a infecção por sarampo que dura semanas a meses porque o vírus do sarampo destrói células de defesa e diminui a capacidade de resposta imunológica. Então, é comum que a pessoa possa ter infecções bacterianas secundárias depois do sarampo, nos dias após, nas semanas e até nos meses seguintes”, reforça o Dr. Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário da USP.

O infectologista ainda lembra que o aumento de casos de sarampo no continente americano já estava acontecendo e era uma questão de tempo para alguns registros aparecerem no Brasil novamente. Por outro lado, o país possui uma cobertura avacinal insuficiente para lidar com um salto dos casos.

O efeito da Covid-19

A impressão que fica, entre os especialistas, é de que o Brasil fez parcialmente a “lição de casa” após a pandemia de Covid-19. Um aumento do negacionismo e movimento antivacina, aliado a uma gestão pública que não conseguiu reforçar a importância da saúde pública contribuíram na piora da cobertura vacinal do país.

Para Prando, cientista político docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não houve uma ruptura da população, mas uma desinformação em massa sistemática sobre a vacina durante a pandemia.

“Um conjunto de elementos de negacionismo, teorias da conspiração e fake news foram produzidas e foram encampadas especialmente pelo grupo da Presidência da República, o bolsonarismo na figura de Jair Bolsonaro e muitos bolsonaristas. Isso fez com que a população começasse a acreditar que pudesse ocorrer problemas ou colocar em dúvida a eficácia científica das vacinas”, explica.

Por outro lado, falar em virada antivacina brasileira infla o diagnóstico, porque “manda combater guerra cultural onde há desconfiança pontual e falha de execução”, na visão de Magno Karl. O cientista político e sociólogo afirma que a pandemia não causou um aumento generalizado do movimento contra a vacinação, mas uma desconfiança acerca da produção desses imunizantes.

A campanha contra a Covid provou que o Brasil sabe fazer campanhas de vacinação com velocidade e capilaridade. E que o brasileiro, apesar da politização do tema, confia nas vacinas e está disposto a se vacinar. Centenas de milhões de doses foram aplicadas em prazo curto, com um esquema que poucos países conseguiria reproduzir. Os principais adversários das campanhas de vacinação, a desinformação e o descompromisso, também são conhecidos”, comenta Karl.

Cabe às autoridades governamentais, em municípios, estados e do governo federal, atuarem, em conjunto com a imprensa e os formadores de opinião, trabalharem em conjunto para assegurar que a sociedade brasileira permanecerá livre e imune a doenças que são hoje plenamente preveníveis, como é o caso do sarampo.

Sarampo, saúde pública e política

O infectologista do Hospital Universitário da USP, Dr. Gerson Salvador, reforça que o Brasil possui um dos maiores programas públicos de imunizações do mundo.

“A gente tem o Zé Gotinha, que é um ícone popular aqui no Brasil. Então a gente é um adesão exemplar, é um país que é muito grande e com um sistema de saúde muito capilarizado”, comenta.

Agora, ele alerta que está começando um movimento que discute a atribuição da vacina do sarampo à tríplice viral ou aumento de casos de autismo. Entre os candidatos das eleições de 2026, o tema pode surgir e se tornar debate de cargos especialmente do Executivo, como governadores e presidente.

Parece certo que tanto governo quanto oposição deverão atuar para evitar que a atual onda de sarampo vire um problema num ano eleitoral. Porém, mesmo que a discussão sobre vacinas vire tema nas eleições, e há no momento influencers bolsonaristas buscando resgatar o tema, o seu alcance deverá ser limitado.

Isso porque, no momento, o número de casos confirmados ainda é baixo. Se os casos foram controlados pelo esforço atual de vacinação, o tema deverá submergir em breve. No entanto, o tema pode entrar como munição auxiliar numa disputa que já existe sobre a memória da pandemia, ressuscitando uma disputa anterior.

“Executivos locais estão em melhor posição, porque entregam resultado visível e verificável: abrem posto, ampliam horário, mostram fila andando. Mas também parecem mais vulneráveis, se o surto permanecer isolado em regiões específicas. Os presidenciáveis operam no simbólico, e o governo já começou a trabalhar. Na entrevista ao Inteligência Ltda., não por acaso, Lula levou um Zé Gotinha de presente ao estúdio. O gesto anuncia o que a campanha pretende fazer com o tema. Por enquanto, o surto de sarampo está concentrado em São Paulo, onde o governo estadual e a prefeitura da capital são alinhados ao campo adversário do Planalto, e ambos têm todo incentivo para conduzir uma multivacinação eficiente e esvaziar a pauta. O governo federal também não deve dar chance ao crescimento do tema, ou deixar brechas para ser acusado de descaso em relação à vacinação”, afirma Magno Karl.

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