A eleição presidencial de 2026 será a primeira deste século sem mulheres em chapas consideradas competitivas.
O cenário se consolidou após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escolher o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente, encerrando as especulações sobre a possibilidade de uma mulher integrar uma das principais candidaturas ao Palácio do Planalto.
A ausência feminina ocorre justamente em um momento de crescimento do eleitorado e de fortalecimento da participação das mulheres no cadastro eleitoral brasileiro.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o país encerrou 2025 com mais de 155,3 milhões de eleitores aptos, dos quais o eleitorado feminino continua sendo maioria.
Mulheres chegam à política, mas nem todas alcançam competitividade
Embora a presença feminina tenha aumentado nos últimos anos, esse crescimento não ocorreu de forma homogênea entre os diferentes espectros ideológicos.
Nos últimos pleitos, mulheres identificadas com pautas conservadoras passaram a ocupar espaço relevante em partidos de direita, sobretudo em segmentos ligados ao eleitorado religioso, à defesa da família e às agendas de segurança pública.
Ao mesmo tempo, candidaturas progressistas continuam enfrentando maiores dificuldades para transformar visibilidade política em desempenho eleitoral competitivo.
O debate ganhou força porque a ausência de mulheres nas chapas presidenciais de 2026 acontece justamente após um período em que figuras como Michelle Bolsonaro passaram a ocupar posição estratégica dentro da direita brasileira.
Conservadoras conquistam maior espaço eleitoral
Nos últimos anos, lideranças conservadoras passaram a receber maior investimento partidário e conquistaram posições de destaque em legendas de direita.
Como mostrou O Brasilianista, Michelle Bolsonaro transformou o PL Mulher em uma das principais estruturas de mobilização feminina do Partido Liberal.
Segundo a própria ex-primeira-dama, o movimento contribuiu para a eleição de 1.005 mulheres nas eleições municipais de 2024, crescimento de 45,8% em relação ao pleito anterior.
Essas lideranças costumam encontrar maior aceitação quando representam valores já consolidados dentro das estruturas partidárias, defendendo pautas alinhadas ao perfil predominante do eleitorado dessas legendas.
Barreiras vão além da presença nas urnas
A discussão também envolve o funcionamento interno dos partidos. Mesmo com regras que determinam cotas mínimas de candidaturas femininas e distribuição obrigatória de recursos do fundo eleitoral, mulheres ainda encontram dificuldades para acessar estruturas partidárias, financiamento e espaços estratégicos de decisão.
Uma pesquisa do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getulio Vargas (FGV), identificou que cerca de 87% das mensagens encontradas em grupos da chamada “machosfera” no Telegram sobre “voto feminino” atacavam esse direito de forma explícita.
Segundo a coordenadora do estudo, a pesquisadora Julie Ricard, os argumentos utilizados não são novos e retomam estereótipos históricos que retratam mulheres como menos racionais ou afirmam que elas votariam majoritariamente na esquerda.
O debate ganhou força após o empresário Paulo Figueiredo divulgar um vídeo nas redes sociais defendendo restrições ao voto feminino sob o argumento de que as mulheres “votam mal” por, segundo ele, apoiarem majoritariamente candidatos de esquerda.
Histórico das urnas mostra diferenças entre perfis de candidatas
Os resultados das eleições presidenciais das últimas décadas também ajudam a ilustrar esse cenário.
Em 2010, Dilma Rousseff (PT) recebeu 46,91% dos votos no primeiro turno, enquanto Marina Silva (PV) alcançou 19,33%. Quatro anos depois, Dilma foi reeleita após obter 41,59% no primeiro turno e Marina, então no PSB, registrou 21,32%.
Já candidatas identificadas com posições mais à esquerda e discursos de ruptura encontraram maior dificuldade para ampliar sua votação nacional.
Luciana Genro (PSOL) recebeu menos de 2% dos votos em 2014, enquanto Heloísa Helena (PSOL) obteve 6,85% em 2006. Em 2022, Simone Tebet (MDB), posicionada como uma alternativa de centro, terminou o primeiro turno com menos de 5% dos votos.
Os números mostram que mulheres conseguem alcançar competitividade eleitoral em diferentes posições ideológicas, mas também evidenciam que candidaturas vinculadas a partidos menores ou com propostas consideradas mais radicais costumam enfrentar obstáculos adicionais para ampliar sua base eleitoral.
Da conquista do voto à busca por representação
O direito ao voto feminino no Brasil foi reconhecido em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, mas a conquista da participação política ocorreu de forma gradual.
Embora as mulheres tenham passado a votar e disputar eleições, a presença em cargos eletivos permaneceu reduzida por décadas. Levantamento da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE) mostrou que, em 1994, elas ocupavam apenas 8% das cadeiras das Assembleias Legislativas e 6% da Câmara dos Deputados.
Nas eleições de 2002, foram eleitas 44 deputadas federais e nove senadoras, o equivalente a menos de 9% da Câmara e cerca de 11% do Senado.
Na tentativa de ampliar essa participação, o Brasil adotou, em 1996, a política de cotas para candidaturas, determinando que cada partido ou coligação reservasse ao menos 30% das vagas para homens e mulheres.
A ausência de punições para as legendas que não cumprem esse percentual limitou os resultados da medida. O próprio estudo do IBGE mostrou que diversas cidades sequer lançaram candidatas ao Legislativo municipal, reforçando que, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, a ampliação da presença feminina na política continua enfrentando barreiras estruturais dentro dos partidos e do sistema eleitoral.

