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Entrevistas

Por que o brasileiro desistiu da política?

Na análise do cientista político, o desânimo com o Brasil está relacionado a um conjunto de instituições em crise

Por que o brasileiro desistiu da política?
A cada eleição, a curva de abstenção de votos segue em crescimento progressivo, já ultrapassando a marca de 30 milhões de eleitores Paulo Pinto/Agência Brasil

A abstenção registrada no primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil foi de 33,4 milhões de eleitores (21,08%), a maior desde 1998, quando atingiu 21,5%. Já os votos brancos (1,84%) e nulos (2,93%) somaram 4,77% em 2026. Juntos, abstenções, nulos e brancos chegam a quase 40 milhões.  

Nos últimos oito anos, o que se observa é um empobrecimento dos debates políticos entre os candidatos à presidência, que pouco apresentaram suas propostas.

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O bolsonarismo e o petismo continuam como as duas correntes políticas de maior projeção, embora altamente polarizadas.

Em 2014, quase 28 milhões de pessoas não foram votar no primeiro turno das eleições, o que correspondeu a 20%. Em 2018, foram quase 30 milhões (20,33%). Em 2022, o fenômeno se repetiu e atingiu 21%, com a ausência de 32,7 milhões de eleitores.

O campo de atuação já não é a abordagem física na rua, abordando os eleitores para eventualmente conquistar um voto, e sim o ambiente digital, que se ampliou nos últimos anos. Vale avaliar os novos candidatos da próxima legislatura que conseguiram ampliar sua campanha nas redes.

Para entender esse fenômeno e os motivos pelos quais se destaca essa ruptura em que o eleitor não participa do ato de votar, O Brasilianista entrevistou o cientista político, analista, comentarista e diretor executivo do Livres, Magno Karl.

O que explica um número tão alto de abstenções nas últimas eleições? O primeiro turno registrou cerca de 33,4 milhões de ausentes. O que esse número revela sobre a relação do brasileiro com a política?

Revela um constante desengajamento entre o brasileiro e a política que, na minha opinião, vem dos dois lados. O brasileiro se interessa menos em votar, apesar de se interessar mais pela política. A gente tem o aumento da abstenção e do não comparecimento quase constante desde 2006; então, nos últimos 20 anos, temos taxas de não comparecimento crescendo. A exceção foi o segundo turno de 2022, quando o engajamento era tão grande que acabou criando um cenário inédito.

O cenário mencionado por Karl trata do segundo turno entre Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, com o eleitorado altamente mobilizado. Na ocasião, Lula foi eleito para o seu terceiro mandato com 60 milhões de votos, e o então presidente, que disputava a reeleição, obteve 58 milhões.

Sobre o desinteresse pela política, Karl disse que "a política tem deixado de se interessar pelo público de forma mais ampla". O cientista político explica que se deve levar em conta o fato de que a política tem se aproximado mais de um público "barulhento, que é capaz de reproduzir discurso e se tornar militante" do que do brasileiro que é mais distante da política. "E essas pessoas acabam se desalinhando com a polarização, que chega a um estágio de maior esgotamento, o que aumenta a desconexão."

Existe outro fato que se deve constatar: ao mesmo tempo em que o brasileiro se aproxima pelo interesse na política, em paralelo, aumenta-se a abstenção. "Esse aumento de interesse acaba por espantar alguns eleitores, que acham isso tudo muito pesado e as opções não boas o suficiente para fazer com que eles saiam de casa", acrescenta Karl.

Fatores que levam à abstenção

O cientista político explica que, entre os motivos que levam a essa abstenção, estão as penalidades muito baixas que, por sinal, não são reajustadas há muito tempo.

Conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitor que não vai votar e não justifica a ausência precisa pagar uma multa de até R$ 3,51 por turno ou eleição. Caso o eleitor não tenha dinheiro suficiente para pagar a multa, uma declaração escrita apresentada ao juiz pode livrá-lo da obrigação do pagamento.

Karl explica ainda: "Poucos brasileiros são penalizados pelo não comparecimento, como por exemplo não poder prestar concurso público ou renovar o passaporte (que é uma exceção). Parece-me que o acirramento das paixões na política e sua permanência acabam sendo um fator que desanima uma parte dos eleitores".

Apesar de isso fazer parte do dia a dia das pessoas, causa também um saturamento por parte do eleitor. "Um outro fator é a permanência dessa ferramenta. Apesar de isso existir, e isso é um fato (o engajamento por assuntos políticos), parece-me que a permanência da polarização entre lulismo e bolsonarismo também contribui para esse desengajamento."

Convite

Na conversa com o cientista político, foi apresentada outra reflexão importante a se considerar: existe uma ausência por parte do político em se conectar com os seus respectivos núcleos e, consequentemente, essa aproximação só se manifesta no período do processo eleitoral.

"Os partidos políticos não fazem um esforço para chegar até o brasileiro que não está engajado. Ele raramente é convidado para um evento de partido político ou raramente é convidado para conhecê-lo ou participar de um encontro." Na visão de Karl, a junção desse debate focado entre os dois candidatos, que gera polarização, corrobora para que o eleitor não engajado se afaste ainda mais.

Representação

Desde a redemocratização, os representantes políticos tendem a refletir muito mal o conjunto da população. Esse contraste acontece, explica o cientista, por causa do perfil: homens, brancos, ricos e mais escolarizados do que a maioria da população.

Mesmo quando são obrigados a trabalhar com essa mudança, a classe política demonstra resistência. "Os partidos políticos fraudam as leis que eles mesmos propuseram e são eles mesmos que se absolvem das leis que criaram. Então, foi criado um ciclo que incentiva os partidos a se distanciarem".

Apesar de todos os aspectos que agravam esse cenário, Karl acredita que esse problema está sendo corrigido, mesmo que aos poucos ou não exatamente da forma que deveria ocorrer, mas os impactos serão diminuídos aumentando a atenção que os brasileiros prestam à política partidária.

Não comparecimento

Magno também reflete que os votos de protesto podem estar associados ao fato de as pessoas não quererem comparecer às urnas.

Uma medida adotada em diversas cidades foi a gratuidade do transporte público, para solucionar o problema de eleitores que deixavam de votar para não gastar com locomoção.

"Cientificamente, não foi uma afirmação que teve embasamento. O oferecimento de transporte público gratuito não aumentou o número de eleitores, mas foi uma ação tomada para tentar diminuir a abstenção. Não é uma política pública estrutural, mas uma forma de alertar o eleitor acerca da validade e do valor do seu voto", explica.

A crise de confiança em instituições como o Congresso, os partidos políticos e o Supremo Tribunal Federal influencia a decisão de não votar?

Ainda não dá para afirmar que as abstenções ocorrem por causa do Supremo, mas muito da abstenção está relacionado ao desânimo com o Brasil. Para a maioria das pessoas, que não estão muito focadas nisso (já que estão concentradas em sua própria sobrevivência), o Brasil é visto como um grupo de instituições lá em Brasília onde, se uma coisa vai mal, tudo vai mal. Portanto, não necessariamente o discurso de Flávio (sobre a crise do Supremo e o governo Lula) precisaria ter associado Lula a Moraes; é todo esse clima de que algo está errado, tanto no Supremo quanto no Congresso, que faz com que as pessoas engajem pelo voto de oposição.

Qualquer presidente eleito, seja do espectro da esquerda ou da direita, neste momento em exercício do seu poder, enfrentaria o desgaste provocado pelos partidos políticos, pois esse é o maior escândalo pelo qual o Supremo passa. A relação se dá pela incumbência que Lula assume, pois, em todo momento de desconforto enfrentado por uma sociedade, a responsabilidade é atribuída ao Poder Executivo que está exercendo o seu mandato.

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