Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) do Banco Central concluiu que a liquidação extrajudicial das instituições do Conglomerado Master não representa ameaça à estabilidade do Sistema Financeiro Nacional (SFN). A análise consta da Ata da 63ª reunião do colegiado, divulgada nesta quarta-feira (26).
Segundo repercussão do Valor Econômico, a decisão abrange o Banco Master S.A., o Banco Master de Investimento S.A., o Banco Letsbank S.A. e a Master Corretora, além da decretação de Regime de Administração Especial Temporária (RAET) no Banco Master Múltiplo S.A.. O conglomerado é classificado como pequeno porte, do segmento S3, e responde por apenas 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do SFN.
A ata do Comef destaca que o RAET permite o funcionamento regular da Will Financeira, controlada do grupo, enquanto avançam negociações para preservar suas atividades.
Cenário global
A Ata do Comef aponta que o cenário internacional permanece marcado pela resiliência do sistema financeiro, mesmo diante de incertezas persistentes. O colegiado destaca que, embora exista um descompasso entre o apetite por risco e as tensões geoeconômicas, a volatilidade global continua baixa. Ainda assim, permanecem dúvidas sobre a valorização de ativos de risco, o que exige monitoramento constante das autoridades.
O documento ainda registra que as condições financeiras globais se tornaram mais favoráveis desde a reunião anterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve redução da alavancagem de famílias, empresas e bancos, com aumento concentrado apenas nos hedge funds. O Federal Reserve encerrou a fase de contração do balanço e passou a atender necessidades pontuais de liquidez por meio de linhas especiais de assistência.
A ata ressalta ainda que 41 das 54 jurisdições analisadas mantêm o buffer ativado, e 26 já adotam o modelo de buffer neutro positivo, mecanismo que prevê a manutenção de capital adicional mesmo em momentos de menor acúmulo de riscos financeiros, reforçando a robustez do sistema.
Crédito desacelera, mas segue em ritmo alto
Sobre o cenário doméstico, o Comef identifica:
- O crédito está andando mais devagar, embora ainda esteja num nível historicamente alto;
- Crescimento mais forte nas modalidades de maior risco, afetando famílias, pequenas e médias empresas;
- No mercado de capitais, as empresas também estão emitindo menos títulos privados, especialmente as CPRs, acompanhando a queda do crédito rural;
- As debêntures tiveram uma leve alta, com juros menores e prazos mais longos.
- Os fundos de crédito privado têm boa liquidez hoje, mas podem sofrer pressão se os juros dos títulos (spreads) abrirem e a rentabilidade cair.
- Segundo o Banco Central, provisões, capital e liquidez dos bancos continuam adequados e de acordo com as perdas esperadas, mesmo com a nova regra de baixas. Porém, os ativos problemáticos seguem aumentando, o que faz os bancos reforçarem as provisões.
- Os níveis de capital e de liquidez do sistema financeiro seguem acima do mínimo exigido. A rentabilidade dos bancos caiu um pouco por causa do aumento das despesas.
Pontos de atenção
O Comef alerta que a combinação de juros altos, crédito ainda em expansão, endividamento historicamente elevado e inadimplência crescente, especialmente no crédito rural requer cautela adicional.
O cenário global também segue carregado de incertezas relacionadas às políticas comerciais, tensões geopolíticas, riscos fiscais nas economias centrais e ao nível de equilíbrio das taxas de juros de longo prazo. Esses fatores podem provocar reprecificação global de ativos.
Digitalização exige maior robustez tecnológica
O documento destaca a necessidade de fortalecer a gestão de riscos em um sistema financeiro cada vez mais digital. Ele aponta que a dependência de serviços de terceiros e do uso de APIs vem aumentando, o que traz novos desafios para o monitoramento das operações. Por isso, ecossistemas mais resilientes são essenciais para lidar com incidentes e fraudes.
O texto também lembra que houve avanços nas regras que tratam de ativos virtuais, encerramento compulsório de contas, exigências de capital e patrimônio, governança e riscos de prestadores de serviços de tecnologia, além de limites para valores de transações em diferentes instituições.
Confiança, reputação e ética: pilares reforçados pelo Comitê
Conforme a Ata do Comef, a confiança, a reputação e o comportamento ético das instituições, controladores e dirigentes são essenciais para a estabilidade financeira.
O Comitê afirma que atua com rigor técnico e discrição, em colaboração com outras autoridades, sempre visando proteger os interesses da sociedade.
ACCPBrasil permanece em 0%
O Comef decidiu manter o ACCPBrasil em 0%, avaliando que a política macroprudencial neutra segue adequada às condições atuais. Também manteve estudos sobre a implementação do buffer neutro positivo, incluindo metodologias de calibragem e etapas de transição.

