Explosão bilionária dos descontos associativos
Em palestra no evento Arko Talks, em São Paulo, o deputado federal Alfredo Gaspar apresentou um retrato devastador do que chamou de “um dos maiores escândalos da história da Previdência brasileira”. Ele descreveu como, ao longo de mais de três décadas, aposentados e pensionistas foram alvo de descontos de R$ 20 a R$ 50 em seus benefícios, sem qualquer contraprestação de serviço.
Esse mecanismo, inicialmente responsável por cerca de R$ 300 milhões por ano, cresceu após 2016 — quando caiu a exigência de carta sindical — até atingir R$ 3,5 bilhões ao ano em 2024. “No total, já são R$ 10 bilhões arrancados de aposentados e pensionistas”, afirmou.
Cooptação dentro do INSS e enriquecimento sem serviço
Gaspar relatou que servidores de diversos níveis, “dos ministros aos funcionários de base”, foram cooptados para permitir o avanço das entidades — muitas criadas do nada e rapidamente enriquecidas. “Não há negócio melhor: não prestam serviço, não produzem nada, cooptam o sistema, tiram alguns milhões para pagar servidores, e o resto vira lucro líquido.”
O número de acordos de cooperação técnica saltou de cinco para mais de quarenta, abrindo caminho para adesões fraudulentas. Em 2016, um sindicato teria incluído 77 mil novos filiados em um único mês, alcançando 277 mil — números humanamente impossíveis.
A República poderia cair
Em um dos momentos mais fortes da palestra, Gaspar afirmou que a dimensão do escândalo revela um risco real às bases institucionais do país.
“A República poderia cair.”
Segundo ele, a escalada de fraudes, a captura institucional e a leniência no combate à corrupção formam um ambiente que mina a legitimidade do Estado. “Estamos falando de bilhões roubados de aposentados, milhões de filiações falsas e cem mil mortos ressuscitados no sistema. Isso não é só irregularidade: isso é ataque ao coração da República”, disse.
Críticas ao STF e ao governo: “Blindagem e leniência”
Gaspar responsabilizou diretamente o desenho atual das instituições. Segundo ele:
“O STF é leniente com crimes de corrupção, enquanto o governo blinda investigações. Se não fosse essa proteção, a República já teria caído.”
A crítica reforça sua visão de que há um desequilíbrio grave entre os poderes, em que o Supremo teria avançado sobre competências que não são suas, ao mesmo tempo em que negligenciou o enfrentamento estruturado da corrupção.
Um sistema que se reproduz há décadas
O deputado destacou que o problema não pertence a um governo específico, mas é um produto da omissão coletiva. Nenhum órgão — MPF, TCU, CGU ou Judiciário — fiscalizou de maneira eficaz os descontos associativos desde 1993, permitindo que o esquema prosperasse por mais de trinta anos.
Segundo ele, o escândalo só veio à tona porque as próprias entidades passaram a disputar mercado ilícito entre si, e a guerra interna chegou à imprensa.
Dinheiro sujo alimenta o crime organizado
Gaspar afirmou que o esquema movimenta recursos que alimentam estruturas criminosas. “Estamos falando de dinheiro sujo. É recurso que irriga facções, redes de influência, escritórios privilegiados e uma engrenagem corrupta que se perpetua.”
Ele completou dizendo que o país prende pouco por corrupção. “A população já calculou o custo da corrupção e deixou de se indignar. A indignação só aparece diante da violência direta. E é esse silêncio social que fortalece a impunidade.”
O alerta final
Para Gaspar, o caso do INSS é a expressão máxima da vulnerabilidade institucional brasileira:
“O sistema se repete, as pessoas apenas mudam de cadeira. E quem paga a conta é o aposentado.”

