O anúncio de uma paralisação nacional de caminhoneiros chega com barulho, mas com pouca clareza. A convocação mistura duas coisas muito diferentes: reivindicações da categoria e uma agenda política explosiva, centrada na anistia a Jair Bolsonaro e aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro. Essa mistura, na prática, enfraquece o movimento desde a largada.
As pautas profissionais são antigas e conhecidas: estabilidade para o caminhoneiro autônomo, regras mais justas no transporte de cargas, mudanças no marco regulatório. Isso já está em negociação com o governo, o problema é quando essas demandas passam a ser o pano de fundo de uma mobilização politizada, cujo objetivo não parece ser o frete, o diesel ou a jornada de trabalho.
A reação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística (CNTTL) selou esse diagnóstico. Ao rejeitar formalmente a paralisação, denunciar o uso indevido de seu nome e reafirmar o canal de diálogo com o governo, a entidade deixou claro: não se trata de um movimento da categoria organizada. É uma iniciativa paralela, sem consenso e sem liderança reconhecida.
Nos bastidores, o ceticismo é ainda maior. Lideranças do setor avaliam que a adesão deve ser baixa, espalhada e pontual. Caminhoneiros estão sendo orientados a não participar, a multa e as punições chegam rápido. Pouca gente quer arriscar perder o sustento por uma mobilização que mistura interesses econômicos com disputa política.
O fantasma de 2018 sempre volta ao debate, mas a comparação é forçada. Naquele ano, havia uma pauta única, objetiva e com apoio popular massivo: o preço do diesel. Agora, há fragmentação, desconfiança e um desgaste evidente da população com movimentos que paralisam estradas.
Nem mesmo lideranças políticas associadas aos caminhoneiros mostram disposição para assumir o custo do movimento. O recuo de parlamentares que já surfaram esse tipo de onda no passado indica que o cálculo mudou. Ainda assim, o risco de transtornos localizados existe. Basta uma dezena de caminhões para criar um problema real em rodovias estratégicas.

