Depois de oito anos como Procurador-Geral do Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo, o advogado Wilson Marqueti Júnior aceitou, em 2024, o convite do presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Reinaldo Carneiro Bastos, para assumir a vice-presidência de Relações Institucionais da entidade. Mas o que Marqueti viu na federação não lhe agradou, levando à sua renúncia em agosto de 2025, apenas um ano depois de assumir o cargo.
Agora, Marqueti será o primeiro pré-candidato de oposição da história da FPF — todos os pleitos até hoje foram vencidos por chapas únicas. A gestão de Bastos tem de convocar eleições até o final do ano.
A inédita disputa eleitoral marca a crise da gestão Reinaldo Bastos, que enfrenta ações judiciais questionando contratos com verbas públicas considerados ilegais pelo Tribunal de Contas da União e uma denúncia, de que a empresa que pertenceu a Bastos e que está em nome de seu ex-sócio tem um contrato milionário com o São Paulo Futebol Clube, sem que os serviços previstos sejam entregues.
Em entrevista a O Brasilianista, Marqueti afirma ver falta de transparência e autoritarismo na gestão de Reinaldo Bastos, que ocupa cargos na FPF há 40 anos e está na presidência há 10. “A gota d’água foi quando membros da diretoria e muitos clubes descobriram que havia sido aprovada uma alteração no estatuto da federação para permitir que o presidente concorresse a mais uma reeleição, sem qualquer debate e sem que fosse dada clareza sobre o que estava sendo alterado”, diz o advogado.
A alteração estatutária mencionada por Marqueti é alvo de uma ação apresentada pelo então auditor do TJD-SP, Joel Passos de Mello, demitido por Bastos após o ajuizamento do processo. Em dezembro, o Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu que um contrato de patrocínio assinado entre a FPF e a Petrobras feriu a Lei Geral do Esporte por causa dessa alteração, uma vez que a legislação proíbe que verbas públicas, como as da estatal, financiem entidades esportivas que permitem mais de uma reeleição consecutiva.
Confira abaixo a entrevista:
O senhor acusa Reinaldo Bastos de gerir a FPF com foco em interesses pessoais. Esse foi o motivo de sua renúncia ao cargo de vice-presidente da entidade?
Não só, mas também é um deles. O autoritarismo é total e não há transparência nenhuma, seja para os clubes, seja para a própria diretoria. E essas coisas se misturam, como no caso da aprovação da segunda reeleição. A lei é clara: a federação não pode receber recursos públicos e permitir duas reeleições [consecutivas]. Então, o que deveria ser feito? Se o interesse dos clubes estivesse em primeiro lugar, a gestão voltaria atrás no tema da reeleição e resolveria o problema jurídico que criou para a federação.
Mas estão fazendo o contrário: o atual presidente acabou de anunciar sua candidatura à imprensa. Veja que a própria gestão atual sempre convocou as eleições em conjunto com a assembleia anual do último ano de mandato, o que ocorreria agora em janeiro. Neste ano, estão segurando a convocação das eleições para quando for mais conveniente para as chances do atual presidente. Outra questão que me incomodou demais foi ver que a gestão atual não olha para os clubes, muito menos para os do interior.
O que deveria ser feito de diferente em prol dos clubes?
Primeiro, há a questão da transparência. Não dá para imaginar uma federação sendo tocada sem que os clubes saibam o que está acontecendo. Em segundo lugar, a Federação Paulista está isolada e não dá para defender os clubes paulistas sem interlocução na CBF. O atual presidente lançou uma candidatura “kamikaze” à presidência da CBF, que obviamente terminou mal. Se os clubes paulistas estivessem em primeiro lugar, essa candidatura malsucedida jamais teria existido.
Diante do fracasso no ataque à CBF, nasce a alteração obscura do estatuto para permitir uma nova reeleição na FPF, como plano B. Depois, há a questão da agenda. Hoje, o que a maioria dos clubes do interior tem de apoio da federação é uma agenda fraca, nada de crédito — ou crédito com juros abusivos — e alguns materiais esportivos. É esmola perto do potencial do futebol paulista.
O senhor vê esses problemas como localizados na Federação Paulista ou generalizados no futebol brasileiro?
Vejo um movimento de profissionalização muito forte, que precisa ser acompanhado pela FPF. Basta ver como os clubes paulistas estão perdendo espaço. É só olhar para o espaço que os clubes cariocas ocuparam em títulos nacionais e continentais nos últimos anos, por exemplo. Nos últimos cinco anos, o futebol paulista ganhou dois campeonatos brasileiros e uma Libertadores, tudo isso com um mesmo clube. Isso não é proporcional ao tamanho do esporte em São Paulo.
Temos que aproveitar este momento, em que a gestão do futebol brasileiro também está mudando, com novos nomes assumindo cargos importantes e com vontade de modernizar o esporte. E não tem como isso acontecer sem uma nova gestão.
Além do contrato com a Petrobras, considerado ilegal pelo TCU, há denúncias sobre um contrato do São Paulo Futebol Clube com uma empresa que pertencia a Reinaldo Bastos e que hoje está no nome de seu ex-sócio. O presidente do clube, Julio Casares, é alvo de investigação por condutas na gestão e é apoiador do presidente da FPF. O senhor acredita que há corrupção na federação ou na relação da gestão com os clubes?
Não tenho conhecimento suficiente para responder a essa pergunta, mas isso precisa ser investigado e esclarecido. Eu sei apenas o que li nas páginas policiais dos grandes jornais. No caso do contrato de serviços com o clube, se não há nada de errado, basta vir a público e esclarecer. É mais uma situação em que a falta de transparência não só não cai bem, como pode ter consequências graves.
Já no caso do TCU, o problema vem da alteração de estatuto que foi feita sem que os clubes sequer ficassem sabendo do que estava sendo votado. A convocação dos clubes e ligas para a assembleia não falava em alterar a regra de reeleição. A matéria que foi publicada no site da federação após a assembleia também não. Muita gente só ficou sabendo quando o presidente começou a fazer campanha, meses depois.
A legalização das apostas no Brasil aumentou muito as verbas de patrocínio aos clubes e campeonatos. Qual é o desafio das federações nesse cenário, em que também surgem denúncias de manipulação de resultados envolvendo até mesmo árbitros e jogadores?
A legalização das apostas no Brasil trouxe recursos relevantes ao esporte, mas também ampliou a responsabilidade das federações. O principal desafio é conciliar o aumento das receitas com a preservação da integridade das competições. No meu ponto de vista, a obrigação das bets é monitorar as apostas em busca de movimentos anormais que possam sugerir manipulação. Depois, a função das federações e das autoridades é adotar políticas rígidas de compliance e agir rápido e com transparência nas decisões disciplinares.
Sou advogado, fiz minha vida no Direito, não no esporte. Por isso, sei que o combate ao crime e às ilegalidades passa também pela colaboração entre todos os elos dessa cadeia. Acredito que a FPF, como maior federação esportiva do país, tem o dever de dar exemplo nessa questão, firmando convênios, investindo em educação e prevenção, capacitando árbitros e todos os demais agentes do esporte.

