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Política

Lula lidera, mas não empolga

A pesquisa Genial/Quaest de janeiro mostrou um quadro de estabilidade frágil do governo e reestruturação nas eleições

Lula lidera, mas não empolga

A pesquisa Genial/Quaest – janeiro de 2026 desenha um quadro de estabilidade frágil do governo e de indefinição estrutural do sistema político brasileiro, mais do que um retrato fechado da eleição presidencial. O dado central não é apenas quem lidera hoje, mas como lidera e com que tipo de lastro social.

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Do ponto de vista do governo, Lula mantém uma aprovação funcional, ancorada nos mesmos segmentos que historicamente sustentaram o lulismo: Nordeste, eleitores de menor renda, beneficiários de programas sociais e eleitores ideologicamente posicionados à esquerda. No entanto, quando a pesquisa avança da aprovação para a avaliação qualitativa e para a comparação com os dois primeiros mandatos, emerge um sinal claro de desgaste. Cresce a percepção de que o atual governo é igual ou pior do que os anteriores, inclusive entre eleitores que votaram em Lula em 2022. Isso indica não uma ruptura com o presidente, mas uma perda de densidade simbólica do lulismo como projeto.

Essa erosão aparece de forma ainda mais nítida na pergunta sobre se Lula “merece continuar mais quatro anos”. O eleitorado se divide, revelando que a intenção de voto pró-Lula é cada vez menos afirmativa e cada vez mais defensiva. A pesquisa sugere que o principal ativo eleitoral do presidente não é a avaliação positiva do governo, mas o medo do retorno do bolsonarismo, percepção reforçada pela pergunta que contrapõe Lula à volta da família Bolsonaro ao poder.

No campo da oposição, o levantamento expõe uma direita socialmente relevante, mas politicamente desorganizada. Jair Bolsonaro segue influente, mas sua capacidade de transferir votos já não é automática. A indicação de Flávio Bolsonaro é amplamente vista como um erro, inclusive entre eleitores de direita, e a maioria não aceita votar apenas por endosso pessoal. Trata-se de um dado estrutural: o bolsonarismo mantém base, mas perdeu centralidade organizadora. Não há, até aqui, um herdeiro natural nem um nome capaz de unificar o campo conservador.

Na dimensão econômica, a pesquisa confirma um padrão recorrente em governos de terceiro mandato: o presente é avaliado negativamente, mesmo quando o futuro é visto com alguma esperança. A percepção majoritária é de piora do poder de compra, alta dos alimentos e dificuldade no mercado de trabalho. Ainda que parte do eleitorado acredite em melhora nos próximos 12 meses, isso não se converte em aprovação do governo hoje. O problema, portanto, não é apenas econômico, mas de tradução política da economia — o governo não consegue converter indicadores ou expectativas em sensação concreta de bem-estar.

Talvez o dado mais preocupante para o sistema político seja o sentimento difuso de que o Brasil está indo na direção errada, majoritário na maior parte dos recortes regionais e sociais. Esse mal-estar não se transforma automaticamente em oposição organizada, mas corrói o ambiente institucional e eleitoral. Ele favorece narrativas de risco, de ruptura e de personalização extrema da política.

Em síntese, a pesquisa revela um cenário de liderança sem entusiasmo, oposição sem comando e centro sem representação clara. Lula entra em 2026 como favorito relativo, mas sem a folga que marcou outros ciclos. A direita mantém musculatura social, mas carece de engenharia política. E o eleitorado, no conjunto, parece menos mobilizado por projetos e mais orientado por aversão ao risco, o que torna o processo eleitoral altamente volátil e dependente dos choques políticos que ainda virão.

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