A Polícia Federal (PF) intensificou diligências relacionadas ao Banco Master e passou a mirar nomes que orbitam o controlador da instituição, Daniel Bueno Vorcaro.
O inquérito apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.
O empresário mineiro, de 42 anos, foi preso em novembro durante a primeira etapa da Operação Compliance Zero, no momento em que tentava embarcar em um jato particular para Dubai.
Dias depois, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região permitiu sua soltura. Desde então, ele utiliza tornozeleira eletrônica.
Investigadores atribuem a ele a liderança de um grupo que teria negociado carteiras de crédito sem lastro com o Banco de Brasília (BRB), instituição financeira pública do Distrito Federal.
O valor da operação sob análise chega a R$ 12,2 bilhões. As informações são do portal G1.
A defesa sustenta que não houve transferência definitiva de ativos e que as conversas com o banco público ficaram em fase preliminar.
Também argumenta que a estratégia de captação do Master estava apoiada em instrumentos cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que assegura ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em caso de liquidação de instituições financeiras.
Crescimento acelerado
Vorcaro iniciou a carreira no setor imobiliário em Belo Horizonte, seguindo os passos do pai, empresário do ramo.
Em 2017, assumiu o controle do então Banco Máxima, que enfrentava restrições operacionais impostas pelo Banco Central.
A instituição foi rebatizada como Master e passou a adotar uma política agressiva de captação por meio de CDBs com remuneração acima da média de mercado.
Essa estratégia atraiu investidores ao oferecer taxas entre 130% e 140% do CDI, enquanto concorrentes trabalhavam em patamares inferiores.
O crescimento acelerado resultou em expansão patrimonial da família e maior presença do banqueiro em ambientes políticos e jurídicos de Brasília.
Durante a primeira fase da operação, a PF apreendeu bens avaliados em R$ 230 milhões, incluindo joias, obras de arte e dinheiro em espécie.
O cunhado pastor e empresário
Na segunda etapa da operação, deflagrada em 14 de janeiro, a PF incluiu entre os alvos Fabiano Campos Zettel, cunhado do controlador do banco.
Empresário do setor de saúde e bem-estar e fundador da Moriah Asset, ele foi detido no Aeroporto de Guarulhos quando se preparava para viajar aos Emirados Árabes Unidos e liberado no mesmo dia.
O ministro Dias Toffoli autorizou a medida. A decisão menciona suspeitas relacionadas a crimes financeiros, mas não detalha condutas específicas.
Zettel já atuou como diretor de uma empresa ligada ao grupo familiar que adquiriu a mansão utilizada pelo banqueiro em Brasília.
Em 2022, ganhou notoriedade por doações eleitorais que somaram R$ 5 milhões a campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
Além da atuação empresarial, ele é pastor ligado à Igreja Batista da Lagoinha. Em nota, afirmou que suas atividades são lícitas e não têm relação com a gestão do banco.
O gestor de investimentos
Outro nome alcançado é João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos. Ele foi alvo de busca e apreensão, mas não chegou a ser preso. No dia seguinte à operação, a empresa, hoje chamada CBSF DTVM, teve a liquidação decretada pelo Banco Central.
As investigações indicam que fundos administrados pela gestora teriam sido utilizados para operações que beneficiariam o grupo Master, incluindo movimentações consideradas atípicas e indícios de lavagem de dinheiro.
Mansur tem formação em contabilidade, fundou a empresa em 2012 e acumulou relevância no mercado de capitais, administrando cerca de R$ 299 bilhões em fundos, segundo a Anbima.
Ele também possui histórico no setor imobiliário e no futebol, tendo participado da WTorre, responsável pela arena do Palmeiras.
Em 2025, o empresário também apareceu em outra investigação, a Operação Quasar, que examina o uso de estruturas financeiras para lavar recursos do mercado clandestino de combustíveis.
O investidor experiente
Nelson Tanure, de 74 anos, conhecido por adquirir empresas em dificuldade e revendê-las com lucro, também foi alvo de buscas autorizadas pelo Supremo. Ele possui participações em companhias como Light, Prio e Gafisa.
Segundo informações citadas no inquérito, ele teria atuado como “sócio oculto” nas operações ligadas ao banco, utilizando estruturas societárias complexas e fundos de investimento.
A defesa divulgou carta na qual nega qualquer vínculo societário com a instituição financeira, direta ou indiretamente.
“Não fui nem sou controlador do extinto Banco Master, tampouco seu sócio, ainda que minoritário, direta ou indiretamente, inclusive por meio de opções, instrumentos financeiros, debêntures conversíveis em ações ou quaisquer mecanismos equivalentes”, enfatiza a carta.
Possível colaboração
Como divulgado pelo O Brasilianista, nos bastidores de Brasília, ganhou força a hipótese de uma negociação de delação premiada envolvendo o ex-banqueiro.
As tratativas enfrentam obstáculos porque a defesa busca imunidade penal ampla e a inclusão de familiares em eventual acordo.
A Procuradoria-Geral da República ainda não sinalizou concordância com essas condições. O caso se tornou mais sensível diante da possibilidade de menções a integrantes do Judiciário em relatos relacionados a eventos e seminários jurídicos.
Depoimentos de ex-dirigentes ligados ao conglomerado vêm sendo colhidos dentro do próprio STF, por determinação de Dias Toffoli, situação considerada incomum e que gerou críticas no Senado.
Parlamentares passaram a defender investigações mais abrangentes sobre as conexões do banco com autoridades públicas e estruturas políticas, ampliando o alcance do debate para além do setor financeiro.

