A Polícia Federal (PF) encontrou, na agenda da então diretora de Controle e Riscos do Banco de Brasília (BRB), Luana de Andrade Ribeiro, uma anotação feita em julho do ano passado que descreve uma fala atribuída ao então presidente da instituição, Paulo Henrique Costa.
O BRB é um banco público vinculado ao Governo do Distrito Federal. Já o Banco Master era uma instituição financeira privada controlada pelo empresário Daniel Vorcaro, que entrou em liquidação após investigações sobre a origem de créditos negociados no mercado.
O registro indica que a diretoria deveria comprar carteiras de crédito do banco privado para evitar a quebra da instituição.
A anotação foi apresentada pelos investigadores durante o depoimento prestado pelo ex-presidente do BRB em 30 de dezembro. As informações são da Folha de São Paulo.
Explicação apresentada no depoimento
Ao ser questionado sobre o conteúdo da agenda, o ex-dirigente afirmou que as aquisições ocorreram no contexto de um processo de substituição de carteiras que já estava em andamento dentro do banco público.
No depoimento, ele declarou: “Se a gente olhar essa data, a gente está no meio do processo de substituição de carteiras. Então, todas as cessões que nós fizemos ao longo desse período, eu vou chamar final, elas tinham dois objetivos, cumprir o nosso objetivo de mudar a carteira do banco, de aumentar a rentabilidade, que está previsto no planejamento, e dois, permitir que a gente fizesse as substituições”.
Segundo a investigação, o banco estatal adquiriu R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas irregulares. A instituição informou anteriormente que parte do prejuízo foi recuperado.
Identificação de padrão documental diferente
O ex-gestor relatou que, no início das compras, não havia indícios de problemas na documentação nem no desempenho financeiro dos créditos.
Ele afirmou que apenas em abril de 2025, por causa do volume das carteiras adquiridas, o banco decidiu ampliar os testes internos.
“Durante todo o processo de aquisição de carteiras do Banco Master, nós seguimos o mesmo padrão que seguíamos para todas as outras instituições financeiras e para todas as outras carteiras”.
Com a ampliação das verificações, a equipe técnica concluiu que os contratos não tinham sido originados diretamente pelo banco privado, como previa o acordo entre as instituições.
Medidas adotadas e comunicação ao Banco Central
Após a identificação das inconsistências, o banco público solicitou auditoria independente, exigiu a apresentação integral dos contratos e passou a adotar medidas de cautela, como a exigência de garantias e a substituição dos ativos.
O caso foi comunicado ao Banco Central, órgão responsável por supervisionar o sistema financeiro, depois que surgiram dificuldades de liquidez na instituição privada.
“Nesse momento, a gente aciona o Banco Master, pede uma auditoria independente e o fornecimento não mais de uma amostra, mas sim da totalidade dos contratos envolvidos”. afirmou o ex-presidente
A defesa do empresário declarou que os ativos negociados foram substituídos por outros regularmente registrados, auditados e avaliados segundo critérios técnicos sob acompanhamento do Banco Central.
Possibilidade de colaboração premiada amplia pressão política
Como divulgado pelo O Brasilianista, circulam em Brasília informações sobre uma possível negociação de delação premiada envolvendo o controlador do banco privado.
A colaboração premiada é um mecanismo jurídico que permite redução de pena em troca de informações relevantes às investigações.
A defesa busca imunidade penal total e a inclusão de familiares no eventual acordo, pontos que ainda não teriam sido aceitos pela Procuradoria-Geral da República.
Há expectativa de que eventuais relatos possam mencionar autoridades de alto escalão, inclusive integrantes ou ex-integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), a mais alta instância do Judiciário brasileiro.
Depoimentos na sede do STF
Três ex-dirigentes ligados ao empresário prestam depoimento à Polícia Federal dentro do prédio do Supremo, por determinação do ministro relator do caso. A realização dessas oitivas no local gerou questionamentos entre parlamentares.
Senadores passaram a cobrar investigações mais amplas sobre as relações entre o banco privado, o Judiciário e o meio político, defendendo que o Congresso acompanhe os desdobramentos.
A Polícia Federal também investiga se influenciadores digitais teriam sido procurados para divulgar conteúdos favoráveis ao banco privado e críticas ao Banco Central após a liquidação da instituição.

