Cerca de um quinto de toda a geração possível de usinas solares e eólicas deixou de ser aproveitado em 2025.
A interrupção, chamada no setor de curtailment, ocorre quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico reduz a produção para impedir que a oferta ultrapasse a demanda e coloque a rede em risco.
O volume desperdiçado ao longo do ano equivale à produção da hidrelétrica Usina Hidrelétrica de Belo Monte durante dez meses.
Em alguns dias, especialmente fins de semana, o sistema operou próximo do limite de segurança por causa da combinação de baixo consumo e alta geração solar.
Levantamento da consultoria Volt Robotics indica que, em 16 dias de 2025, a operação ficou em zona crítica. As informações são do jornal Folha de São Paulo.
Aos domingos, o corte médio por excesso chegou a mais de 5 mil megawatts médios, enquanto nas segundas-feiras ficou em torno de 1.040 MW médios.
O que é Belo Monte?
Segundo o portal NeoEnergia, a Usina Hidrelétrica Belo Monte foi inaugurada em 5 de maio de 2016 pela Norte Energia S.A., consórcio que reúne diferentes empresas do setor elétrico, entre elas a Neoenergia.
Instalada no rio Xingu, no Pará, a usina possui capacidade instalada de 11.233,1 megawatts e é considerada a maior hidrelétrica integralmente brasileira. Hoje, as 24 unidades geradoras estão em operação comercial.
O projeto adota o modelo chamado “fio d’água”, tecnologia que reduz a necessidade de grandes reservatórios e busca diminuir impactos ambientais, ao mesmo tempo em que mantém a produção de energia.
O empreendimento começou a tomar forma em 2010, quando foi assinado o contrato de concessão, e as obras tiveram início no ano seguinte, até a entrada em funcionamento em 2016.
A estrutura opera com um Plano de Segurança de Barragens acompanhado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que fiscaliza periodicamente as condições da usina.
O sistema de monitoramento conta com quase dois mil instrumentos instalados nas barragens e diques que compõem o reservatório intermediário, permitindo avaliação constante da integridade das estruturas de concreto.
Geração distribuída cresce fora do controle central
De acordo com a Folha de São Paulo, a expansão acelerada de painéis solares instalados em residências e comércios, chamada de geração distribuída agravou o desequilíbrio.
Essa energia entra diretamente na rede sem possibilidade de limitação pelo operador, o que desloca os cortes para as grandes usinas conectadas ao sistema central.
A capacidade instalada desse modelo já supera 42 gigawatts e pode alcançar 50 GW até 2028. A expectativa oficial é que, em poucos anos, quase um terço da matriz elétrica venha desse tipo de fonte, aumentando a frequência de interrupções por sobreoferta.
Sol de dia, térmica à noite
O paradoxo se intensifica no início da noite. Mesmo com energia renovável sobrando durante o dia, o país precisa acionar termelétricas quando o sol se põe e o consumo cresce rapidamente. Especialistas defendem ampliar a flexibilidade do sistema, tanto na geração quanto no consumo.
Entre as soluções discutidas estão grandes baterias para armazenar eletricidade, uso das hidrelétricas como reservatórios energéticos por bombeamento de água e tarifas diferentes conforme o horário para incentivar o uso diurno.
A Agência Nacional de Energia Elétrica discute a ampliação dessas tarifas dinâmicas, enquanto o Ministério de Minas e Energia prepara um leilão específico para armazenamento.
Prejuízos e disputa regulatória
Empresas de geração calculam perdas de R$ 6,5 bilhões em 2025 por terem contratos firmados e não poderem entregar a energia vendida. A legislação prevê compensações em alguns casos, mas não cobre situações de excesso de oferta.
Associações do setor defendem mudanças regulatórias para permitir remuneração pelos cortes e dar segurança a novos investimentos.
O operador do sistema discute com o governo e a agência reguladora formas de aprimorar as regras e aumentar a capacidade de controle também sobre a geração distribuída.
Matriz limpa vira ativo estratégico no cenário global
Como divulgado pelo O Brasilianista, enquanto os Estados Unidos buscam ampliar rapidamente sua oferta de energia para sustentar a expansão da inteligência artificial, com demanda projetada equivalente a várias hidrelétricas de grande porte, o Brasil já dispõe de uma matriz predominantemente renovável.
Cerca de 88% da eletricidade brasileira vem de fontes limpas, segundo dados oficiais. Esse perfil coloca o país em posição favorável para atrair atividades intensivas em energia, como centros de dados, desde que consiga resolver gargalos de transmissão, armazenamento e coordenação do sistema.
Estudos acadêmicos citados indicam que o avanço em baterias, digitalização da rede, hidrogênio verde e mobilidade elétrica pode transformar a atual sobra de energia em vantagem competitiva.

