O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o atual momento da política monetária brasileira exige ajustes finos e decisões baseadas na leitura constante dos dados econômicos. A avaliação foi apresentada durante o evento Estabilidade Financeira e Perspectivas para 2026 e 2027, promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), em São Paulo, onde o dirigente detalhou a estratégia da autoridade monetária diante do processo de desinflação em curso.
Segundo Galípolo, a palavra que define o estágio atual é calibragem. O Banco Central identifica uma melhora relevante no ambiente inflacionário, tanto nos índices correntes quanto nas expectativas, mas avalia que a atividade econômica segue mais resiliente do que o projetado para um cenário de juros elevados. Esse conjunto de fatores impõe cautela no início do ciclo de flexibilização monetária.
De acordo com a Revista Veja, o presidente do BC reiterou que há sinalização para o início da redução da taxa básica a partir de março, mas destacou que o ritmo e a intensidade desse movimento dependerão exclusivamente da evolução dos indicadores econômicos. “O início da flexibilização monetária está sinalizado para março, com o ritmo e a magnitude dependentes da evolução dos dados. O sentimento é de que o processo seja gradual”, esclareceu.
Avaliação do ciclo recente de juros
Ao fazer um balanço da política monetária no último ano, Galípolo lembrou que o Banco Central reagiu de forma ativa à deterioração do cenário macroeconômico. A elevação da Selic ocorreu em resposta à piora das expectativas de inflação, à pressão cambial e ao aquecimento da atividade econômica, fatores que exigiram uma atuação mais restritiva.
De acordo com o presidente do BC, houve um momento em que os sinais de desancoragem se tornaram evidentes, com ampla disseminação de pressões inflacionárias. “Chegamos a um momento em que as expectativas de inflação para o horizonte relevante começavam a namorar algo próximo de 6%. Tivemos 85% dos componentes do IPCA acima da meta e mais de 50% acima do dobro da meta”, afirmou.
Conforme informações do G1, após esse período, a autoridade monetária optou por interromper o ciclo de alta para avaliar se o nível de restrição era suficientemente contracionista. A estratégia envolveu manter a taxa elevada por um período prolongado, permitindo que os efeitos da política monetária se transmitissem de forma mais completa para a economia real. “O Banco Central foi resiliente e paciente para ir ganhando confiança e deixando o efeito da taxa de juros se fazer sentir”, disse.
Melhora do cenário não autoriza complacência
Na avaliação de Galípolo, o ambiente atual é diferente daquele observado no auge das pressões inflacionárias, mas isso não significa que o trabalho esteja concluído. O presidente do BC alertou que reconhecer a melhora é necessário, mas sem transmitir uma sensação prematura de vitória. “Não reconhecer que estamos numa situação diferente transmitiria alienação dos dados, mas isso não é uma volta da vitória”, afirmou.
Segundo ele, a resiliência do mercado de trabalho, da renda e da atividade econômica como um todo reforça a necessidade de prudência. Mesmo com juros elevados, a economia tem mostrado capacidade de sustentação, o que exige cuidado adicional na dosagem do grau de restrição monetária.
Galípolo também enfatizou que o Banco Central não trabalha com um objetivo pré-definido para a taxa real de juros. As decisões seguem sendo tomadas a partir da leitura contínua dos dados, com foco na convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante.
Desafios estruturais da política monetária no Brasil
Durante o evento, o presidente do BC explicou que a política monetária funcionou, mas que alguns canais de transmissão reagiram de forma mais rápida do que outros. Câmbio e expectativas responderam antes que o impacto sobre a atividade econômica se tornasse mais evidente.
Galípolo destacou ainda que características estruturais da economia brasileira reduzem a potência dos juros. Entre elas, citou o modelo de financiamento imobiliário e a composição da dívida pública. “Hoje, praticamente 50% da dívida pública está indexada à Selic e cerca de 20% à inflação. Isso gera um sinal invertido: você sobe a taxa de juros e a transferência de renda aumenta”, disse.
Segundo o presidente do Banco Central, esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o país convive historicamente com juros elevados, dificuldades de convergência inflacionária e, ainda assim, uma atividade econômica resistente. “Esse é o grande desafio da quadra histórica da economia brasileira. E, diferente do Plano Real, não haverá bala de prata”, afirmou, ao defender a necessidade de reformas sucessivas e engajamento amplo da sociedade.
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Gabriel Galípolo defende prudência mesmo com sinais de melhora nos indicadores econômicos.

