A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a prisão de Daniel Bueno Vorcaro, dono do Banco Master, nesta quarta-feira (4) e afastou dois servidores do Banco Central foi calcada numa representação da Polícia Federal (PF) que mostrou a existência de uma estrutura de vigilância e coerção privada vinculada às empresas do banqueiro.
As informações foram obtidas pela PF no celular de Vorcaro, que foi apreendido em 18 de novembro de 2025, quando o banqueiro foi alvo da Polícia Federal pela primeira vez e chegou a ser preso por risco de fuga.
Denominado “A Turma”, o grupo ligado a Vorcaro é suspeito de atuar na obtenção ilegal de informações sigilosas e na intimidação de críticos, jornalistas e autoridades. Segundo a PF, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado pelo apelido de “Sicário”, coordenava as atividades operacionais da estrutura, realizando o monitoramento presencial de pessoas e a coleta de dados em sistemas restritos de órgãos públicos.
O acesso, de acordo com a PF, era feito por meio de credenciais de terceiros e mirava, inclusive, a própria Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF). Mourão também é apontado como responsável por simular solicitações oficiais para remover conteúdos de plataformas digitais.
Daniel Vorcaro, na condição de principal gestor do Banco Master, é apontado como o responsável por emitir ordens diretas para as ações de intimidação e obstrução de justiça, além de ter tido acesso prévio a informações sobre diligências investigativas. Numa das conversas com Sicário, Vorcaro diz querer “mandar dar um pau” e “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim, de O Globo.

A estrutura contava com o apoio de Fabiano Campos Zettel, que atuava na intermediação e operacionalização financeira de pagamentos destinados ao custeio das atividades de “A Turma”. Segundo a PF, o grupo responsável por monitorar desafetos de Vorcaro recebia R$ 1 milhão por mês.
O esquema também envolvia a cooptação de servidores do Banco Central (Bacen)para atuar em favor dos interesses privados de Vorcaro. O servidor Paulo Sérgio, após ser nomeado Chefe-Adjunto de Supervisão Bancária no Bacen, manteve interlocução frequente com o empresário, fornecendo orientações estratégicas sobre como ele deveria se portar em reuniões com o Presidente da autarquia.
As investigações indicam que Paulo Sérgio atuava como um consultor particular, revisando e sugerindo alterações em minutas de ofícios que o próprio Banco Master enviaria ao departamento onde o servidor exercia sua função. Dinâmica semelhante foi identificada com o servidor Belline Santana, que também chefiava um departamento no Bacen.
Belline era instado por Vorcaro a emitir opiniões técnicas sobre documentos oficiais antes do envio formal à autoridade supervisora. Para remunerar essa assessoria privada, Vorcaro coordenou a formalização de contratos simulados de prestação de serviços por meio de empresas de consultoria.
As investigações da PF detalham ainda que o esquema financeiro do Banco Master consistia na captação de recursos via emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade superior à média de mercado, direcionando esses valores para ativos de baixa liquidez e fundos vinculados ao próprio conglomerado.
Para viabilizar o repasse de valores aos servidores públicos envolvidos, foram utilizados contratos fictícios. A empresa Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda foi utilizada para formalizar um vínculo contratual simulado destinado a justificar pagamentos ao servidor Belline Santana.
Fabiano Campos Zettel participou diretamente da elaboração e do acompanhamento dessa contratação fictícia. Além das pessoas físicas, a representação da Polícia Federal atinge cinco pessoas jurídicas envolvidas nos fatos investigados.
O Podre e a Política

O Brasilianista já mostrou que as investigações da PF e do MPF descobriram que Vorcaro operava um esquema bilionário de venda de ativos inflados e “títulos podres” para fundos públicos e privados que afetou o Fundo Garantidor de Crédito em R$ 50 bilhões. O esquema utilizava empresas de fachada e laranjas para emitir papéis sem lastro real, que eram então adquiridos por fundos de pensão de servidores e instituições públicas.
A suspeita de fraude estendeu-se à tentativa de compra do Banco Master pela empresa Fictor, manobra que os investigadores acreditam ter sido desenhada para blindar o banqueiro. O detalhamento das transações aponta para uma rede de empresas utilizadas para dar aparência de legalidade aos créditos podres:
- Banco de Brasília (BRB): A diretoria do banco público é acusada de ignorar irregularidades graves para adquirir R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito do Master, comprometendo 30% do patrimônio da instituição pública.
- Tirreno Consultoria: Identificada como a fonte central dos títulos fraudulentos, cedeu R$ 6,7 bilhões em créditos ao Master, que foram revendidos ao BRB por valores inflados.
- Clínica Mais Médicos e Hospital São José: Empresas suspeitas de serem de fachada, que emitiram centenas de milhões de reais em notas comerciais compradas pelo fundo Jade FIDC (exclusivo do Banco Master).
- Asteba e Asseba: Associações de servidores da Bahia supostamente controladas por laranjas de Augusto Lima para legitimar créditos do produto Credcesta.
- Cartos (Sociedade de Crédito Direto): Atuou como mediadora nas operações da Tirreno, compartilhando sócios-proprietários com a própria consultoria emissora dos títulos.
Augusto Lima, ex-CEO do Banco Master que também havia sido detido na operação de novembro de 2025, é apontado como a ponte fundamental entre o banco e a elite política brasileira. Com trânsito livre entre diferentes espectros ideológicos, Lima mantinha proximidade com figuras como ACM Neto, Rui Costa, Jaques Wagner e João Roma.
Sua influência nacional foi ampliada pelo casamento com Flavia Peres (ex-Flavia Arruda), ex-ministra do governo Bolsonaro, o que facilitou o diálogo do grupo financeiro com líderes do Centrão e nomes da cúpula do governo federal. Esse capital político é visto pelos investigadores como um facilitador para a entrada do banco em estados como Rio de Janeiro e Bahia, utilizando fundos de pensão como o Rioprevidência para sustentar a liquidez das operações do Master.
No caso do Rioprevidência, o ex-presidente do fundo de pensão Deivis Marcon Antunes foi preso em 3 de fevereiro por equipes da PF e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na cidade de Itatiaia, no Sul do estado do Rio de Janeiro.
Em nota, a Cartos afirmou que “não vendeu, cedeu ou negociou carteiras de crédito com as empresas Tirreno ou Banco Master, não sendo, assim, a responsável pela originação dos créditos que vêm sendo apontados como suspeitos”. Disse ainda “que não houve qualquer autorização legítima, válida ou eficaz para a utilização de suas carteiras por quaisquer desses operadores”.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.
Leia a íntegra da nota enviada pela Cartos em 6 de março de 2026:
A Cartos Sociedade de Crédito Direto S.A. é uma instituição financeira de reconhecida solidez, com atuação há mais de 15 anos no mercado, pautada por elevados padrões de governança, segurança e conformidade regulatória.
Todas as operações de crédito da Cartos são autênticas, íntegras e devidamente lastreadas. A instituição já apresentou ao Banco Central os documentos evidenciando a regularidade de suas operações, incluindo registros, contratos, fluxos financeiros e comprovação da venda de carteiras a fundos consolidados.
A Cartos esclarece que não vendeu, cedeu ou negociou carteiras de crédito com as empresas Tirreno ou Banco Master, não sendo, assim, a responsável pela originação dos créditos que vêm sendo apontados como suspeitos. A Cartos igualmente informa que não houve qualquer autorização legítima, válida ou eficaz para a utilização de suas carteiras por quaisquer desses operadores.
Confiante na correta apuração dos fatos, a Cartos permanece à inteira disposição.

