Nos últimos dias, relatórios de autoridades e comissões dos Estados Unidos passaram a levantar questionamentos sobre a presença de infraestrutura espacial chinesa na América do Sul, incluindo o Brasil. Segundo o relatório Pulling Latin America into China’s Orbit: China’s Space Infrastructure and Strategic Influence, algumas dessas instalações fazem parte de projetos apresentados como cooperação científica ou comercial, mas que podem ter aplicações tecnológicas mais amplas.
Como detalhado pelo O Brasilianista, o documento não afirma diretamente a existência de uma “base secreta” chinesa no Brasil. No entanto, aponta que a expansão de estações terrestres, radiotelescópios e centros de monitoramento na região pode fortalecer as capacidades de vigilância e inteligência da China no espaço, já que essas estruturas podem ter uso dual, tanto civil quanto militar.
A preocupação americana se concentra principalmente em estações terrestres e laboratórios ligados ao programa espacial chinês. Esses centros fazem parte de uma rede global que permite controlar satélites, coletar dados e monitorar atividades no espaço. Para Washington, essa estrutura pode ampliar a capacidade de vigilância e operação militar da China em diferentes partes do mundo.
Estratégia espacial da China, segundo relatório
De acordo com o relatório analisado, a China vem expandindo rapidamente sua presença espacial internacional nas últimas décadas. O país já lançou mais de mil satélites e investiu em uma rede global de estações terrestres responsáveis por rastrear e controlar esses equipamentos em órbita.
Essas instalações permitem comunicação constante com satélites, transmissão de dados e monitoramento de objetos no espaço. Além das funções civis, como previsão do tempo, navegação e comunicação, essas tecnologias também podem apoiar operações militares.
Por isso, analistas americanos afirmam que a infraestrutura espacial chinesa tem caráter “dual-use”, ou seja, pode ser utilizada tanto para fins científicos quanto militares.
Por que a América do Sul?
A América do Sul ocupa uma posição estratégica para esse tipo de rede. Como satélites orbitam o planeta continuamente, é necessário ter estações em diferentes regiões do mundo para manter contato permanente com eles.
Segundo o relatório, bases espalhadas por vários continentes permitem que a China mantenha comunicação contínua com seus satélites, além de ampliar sua capacidade de vigilância global.
Por esse motivo, o país asiático estabeleceu parcerias espaciais com diversos países sul-americanos. Entre eles estão Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil, onde existem projetos envolvendo antenas de rastreamento, radiotelescópios e centros de processamento de dados.
O Brasil nessa história
No Brasil, um dos pontos mencionados é a chamada Tucano Ground Station, fruto de um acordo firmado em 2020 entre a empresa brasileira Ayla Nanosatellites e a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology.
Oficialmente, a estação teria finalidade comercial e científica, como suporte a satélites de observação da Terra. Entretanto, o relatório americano afirma que o sistema também poderia oferecer comunicação espacial de longa duração e transmissão de dados para satélites de reconhecimento.
Outro fator que chamou atenção dos analistas é a cooperação com a Força Aérea Brasileira em áreas como treinamento e uso de antenas militares como apoio técnico. Segundo o documento, esse tipo de integração poderia permitir maior influência chinesa sobre programas espaciais e militares brasileiros.
Além da estação de Tucano, o relatório menciona projetos de cooperação científica entre universidades brasileiras e instituições chinesas, como laboratórios voltados à radioastronomia e à observação do espaço profundo.
Preocupação dos EUA
Autoridades americanas afirmam que uma rede de instalações desse tipo poderia ajudar a China a monitorar atividades militares, rastrear satélites estrangeiros e até aprimorar sistemas de armas de longo alcance. Na visão do relatório, essas bases funcionariam como pontos de coleta de dados capazes de apoiar operações militares no futuro e sistemas avançados como mísseis balísticos ou armas hipersônicas.
Apesar das suspeitas, os projetos citados são oficialmente apresentados como iniciativas científicas ou comerciais e fazem parte de acordos de cooperação tecnológica entre países.
Para especialistas, o debate reflete a crescente disputa por influência tecnológica e estratégica em ambos os países e que se estende também ao espaço e às infraestruturas que permitem operar satélites em escala global.

